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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Desmistificar a cultura"




Companhia Paulo Ribeiro

O problema do teatro é nacional e está na "tutela", pois há uma grande falta de "estratégia" nesta área e o país precisa de ter à frente das responsabilidades políticas pessoas "fortes, abertas e interessantes". Na opinião do coreógrafo Paulo Ribeiro, a estratégia de cultura para o país deveria ser muito mais "consequente e forte, mais ligada à educação e muito menos preconceituosa". Mas Portugal tem ministros que vão para o poder e "não fazem a mínima ideia do que vão fazer, acabando por se acomodar a cargos de prestígio sem qualquer tipo de sentido de missão e sem qualquer acção realmente interessante". Nas escolas, há "imenso" a fazer, como um "desmistificar" da cultura, que não se destina apenas a uma minoria, sendo sim parte integrante da educação.

A história de um casal com uma boa dose de ironia e humor à mistura e; um solo que leva a palco 10 personagens; são as propostas de Paulo Ribeiro e da sua companhia, que actua hoje e amanhã no teatro micaelense com "Malgré Nous, Nous Étions Là" e Noite de Reis", respectivamente.
Paulo Ribeiro, actor, bailarino e coreógrafo, explica ter sido uma "coincidência" enveredar pelo teatro, pois pertencia a uma geração em que era "complicado" haver rapazes nesta área e teve uma educação "normal e conservadora". Antes de ir para a universidade, até foi "judoca" de alta competição. Acabou por ir com os pais para o Brasil em 1965, por razões económicas, onde começou a frequentar a Faculdade de Psicologia, que entretanto não lhe agradou. "O meu pai achou que Portugal estava um caos e partimos"- acrescenta.
Depois foi para Bruxelas, onde conheceu uma bailarina e começou a ter aulas de dança, descobrindo que era neste campo que pretendia ir mais longe, mas confessa que "nunca "pensou que se podia tornar coreógrafo. Foi um grande desafio ser intérprete, dançar e trabalhar em várias companhias, reconhece, mas o facto é que Paulo Ribeiro acabou por ter um percurso "interessante" como intérprete, o que o levou mais tarde à coreografia. Segundo o coreógrafo, foi uma vida de "felizes acidentes", que se desenhou a si própria, o que é muito "engraçado".
Trabalhou como coreógrafo na Gulbenkian e nas maiores companhias europeias, mas admite ser um trabalho muito diferente. "Chegamos, montamos a obra, mas não a acompanhamos. É um trabalho de stress e eu queria realmente ter um tecto, onde pudesse desenvolver uma relação de cumplicidade mesmo consequente, no sentido de nos conhecermos e desenvolver uma linguagem e um trabalho muito diferente do que apenas a montagem de uma peça".
A companhia nasceu em 1985 em acção conjunta com Abílio Moura, o produtor do grupo desde o início, e teve um início "brilhante", pois a primeira peça foi logo, recorda, um "enorme sucesso", o que levou a inúmeras digressões pelo mundo inteiro. A segunda peça esteve em concursos de Bailaré, que "estão para a dança como o Festival de Cannes está para o cinema", e a companhia tornou-se a "primeira" (companhia) residente de um teatro no interior do país.
Paulo Ribeiro, Leonor Keil e Abílio Moura (na produção) são os três elementos fixos da companhia, pois em Portugal, lamenta, "não há meios para ter uma equipa fixa o ano inteiro, a não ser a companhia nacional”. Isso faz com que as pessoas funcionem "por projecto" e quando tem uma peça em mãos passam a 7/ 8 membros ou até 10.
Referindo-se às peças, Paulo Ribeiro avança que o "Malgré Nous, Nous Etions là" é interpretado em dueto com Leonor Keil e é um pouco "extemporâneo", pois, confessa, há muito tempo que não dançava.
"O importante é que as pessoas se sintam tocadas por este dueto e vibrem, pois a maior parte dos portugueses sabe que somos um casal e sabe da nossa história em comum, o que transparece muito no dueto, que é muito tocante"- revela, avançando que este possui uma dimensão "poética e romântica muito forte".
O coreógrafo conta também que quando actuaram em França e, mais recentemente na Croácia, tiveram o teatro "cheio" logo no primeiro e segundo dia e "todos de pé" no final. O que talvez se deva ao facto desta estabelecer um "magnetismo e uma química muito forte" com o público.
E enquanto Leonor Keil pretendia uma peça sobre o amor, relata, Paulo Ribeiro estava mais inclinado para temas mais "prementes" do dia-a-dia. A peça acaba por ser uma mistura de ambas as partes e possui uma dose de ironia "muito grande". A peça tem "imensa ironia e humor ao mesmo tempo", talvez por isso as pessoas não fiquem "indiferentes", ressalva, mas "muito tocadas e sensibilizadas".
Em relação à "Noite de Reis", esta é interpretada por Leonor Keil a solo com encenação do encenador londrino John Mowat, um homem que considera ter "imensos recursos e um sentido de humor muito acutilante e muito forte". Trata-se de uma obra muito "interessante e madura", que teve um enorme sucesso num festival em Portalegre, no sul do Brasil, e na qual Leonor Keil consegue, através do teatro e da dança, interpretar 10 personagens.
Na sua opinião, tanto uma peça como a outra são um pouco "incontornáveis" no percurso da companhia, além de outras peças que também funcionam "muito bem" e que afirma ter muita pena de não trazer aos Açores, como "Masculini" e "Feminini". Estas são duas peças que giram à volta de Fernando Pessoa, "como pessoa", e destinam-se ao público masculino e feminino, respectivamente.
Mas o que importa é "estabelecer pontos entre o continente e as ilhas"- esclarece, avançando que na dança contemporânea há sempre um "preconceito" em relação ao seu elitismo", o que é "completamente falso". Isto, porque há uma dança contemporânea que é realmente "hermética".
"É como se disséssemos que todos os pintores só pintam quadros brancos. Não, há pintores que pintam azul e são pintores contemporâneos"- enfatiza. O pior é que este elitismo "assusta" muitas vezes os programadores do teatro e mais ainda o público, mas felizmente está a ser "ultrapassado" aos poucos. Situação que espera que "evolua" rapidamente, para que peças e autores portugueses possam "circular" um bocadinho mais.
Quanto às sensações de pisar um palco, afirma "não" saber quais são, contrapondo que o faz há 30 anos e cada vez é como se fosse a "primeira". Sabe apenas ter uma relação muito "difícil e doentia" com o palco, ficando sempre muito "mal disposto" antes de pisar palco, tal como quando participava nas grandes competições de judo.
"O 'antes' é realmente um nervosismo terrível, que nos altera mesmo em termos biológicos, mas quando entramos em acção o nervosismo passa"- enfatiza.
Referindo-se à situação do teatro em Portugal, o coreógrafo e actor avança que o problema do teatro é o problema do país. "É algo que se passa em torno do país e sobretudo na cultura, na tutela", pois há uma grande falta de "estratégia"nesta área. Dai a necessidade do país ter à frente das responsabilidades políticas pessoas "fortes, um pouco mais dizimarias, abertas e interessantes".
Diz não se referir apenas ao teatro, mas à cultura em geral, porque cada vez mais as 'coisas' são "transversais" e não se pode falar de teatro sem falar de dança, música, cinema ou arquitectura, pois está tudo "interligado".
"A estratégia de cultura para o país deveria ser muito mais consequente e forte, mais ligada à educação e muito menos preconceituosa"- enfatiza, acrescentando existir um conjunto de elementos realmente "civilizacionais" que têm de ser realmente "inteirados e pensados de outra forma". Em crítica aberta ao governo central, Paulo Ribeiro vai ainda mais longe ao afirmar que "muitas vezes temos ministros que vão para o poder e não fazem a mínima ideia do que vão fazer, acabando por se acomodar a cargos de prestígio sem qualquer tipo de sentido de missão e sem qualquer acção realmente interessante".
Na sua opinião, o grande problema reside, na maior parte das vezes, numa espécie de "oportunismo político e mediático em relação a pessoas que ocupam cargos que, se largassem de ano para ano e fossem um bocadinho mais honestos, não aceitariam, porque não têm capacidades para o fazer".
Quanto ao que poderia ser feito para melhorar este quadro, o coreógrafo argumenta que a solução seja "talvez um estágio intensivo com Manuel Maria Carrilho". Politico que ainda hoje é defendido por "todos, mesmo as poucas pessoas que o criticaram e estiveram contra a sua política". A seu ver, este foi "incontestavelmente" o ministro que teve "algum sentido de missão e um projecto consistente" para a cultura. A partir daí, foi "sempre um descalabro terrível".
Afirma preocupar-se mais com o futuro do que com o presente, mas o importante é "criar gerações para o futuro um bocadinho mais interessantes", do que as actuais. Referindo-se às escolas, o dançarino argumenta que há "imenso" a fazer, lembrando que em Viseu a companhia desenvolve bastante trabalho junto das escolas, no sentido de "sensibilizar" e de ensinar a construir uma peça em "acção conjunta com professores e alunos que interagem com encenadores, cenógrafos e músicos".
"Há um trabalho muito grande em relação às escolas que tem a ver com o desmistificar a cultura. Esta não é para uma minoria de pessoas mais ou menos descabeladas, mais excêntricas e tem realmente de ser percebida como algo que nos torne mais aptos a perceber, a pensar o mundo e a resolver, logo é parte integrante da educação, da curiosidade e da vontade de ir mais longe e de adquirir conhecimentos"- acentua.
Felizmente, é raro nos dias de hoje existir um teatro ou câmara que não tenha um "serviço educativo", pois estes serviços vão muito no sentido de "cruzar a cultura com a educação" de forma mais ou menos "consequente e criativa". E é este o caminho que tem de ser "explorado". Mas, lamenta, a "vontade política" em relação a estas coisas muitas vezes é "ténue" e, actualmente, não podemos só "imputar" vontade política aos políticos.
A seu ver, a tutela deve ter uma visão "alargada, concertada e estratégica" em relação ao país na sua totalidade. Esta visão também se aplica à banca e as empresas, que deviam ter um olhar para a cultura um bocadinho "mais consequente do que as celebrações pimba". Isto, apesar de o país estar a passar por um momento "difícil" a este nível. Ter "imensos tiques de novo 'riquismo' e de cultura pimba" é, na sua opinião, o grande problema de Portugal.
A população, por sua vez, "aprecia" o teatro e dá-lhe o devido valor. Aliás, esta está "cada vez mais virada para o teatro", até mesmo nos meios rurais. Segundo Paulo Ribeiro, o teatro Viriato está a "despontar" cada vez mais graças à cidade, mas também aos jovens e às pessoas dos arredores da cidade. Estas últimas, salienta, mesmo não oferecendo uma cultura muito "trabalhada", são cada vez mais "curiosas" e sabem "apreciar" e/ou; "denunciar" um espectáculo, um pouco mais "fraco", tanto em termos comerciais como conceptuais.
Paulo Ribeiro salienta ainda que "o sector cultural tem um grande peso no PIB português e europeu", porque ao associar todos os serviços ligados à cultura e as várias carreiras e profissões à volta, percebe-se "facilmente" que isto de repente gera "riqueza" de uma maneira muito "forte". Aliás, ressalva, segundo um estudo de 2007 ou 2006, existem números "espantosos", em relação a esta questão da riqueza e da "cultura" em geral.
O facto de ser difícil, ou não, enveredar pelo mundo do teatro depende sobretudo da "capacidade de trabalho" das pessoas. Claro que para além do talento, tem de haver imensa "determinação, entrega, inteligência, cultura, conhecimentos gerais e vontade". A "versatilidade" é outro elemento essencial, para que a pessoa possa "moldar-se" ao que o criador da peça pede, além do factor "sorte" para que tudo aconteça no "momento certo". É necessário também passar por um "respeito em termos internacionais", pois não basta sermos conhecidos em Portugal, reconhece.
Dando o exemplo da companhia, o coreógrafo recorda que esta reside em Viseu, mas há alguns anos atrás "ninguém" fazia a mínima ideia de quem eram. "Tínhamos imensa dificuldade em trazer as pessoas ao teatro e agora a sala fica constantemente cheia e as estreias da companhia, como o "Malgré" e a "Noite de Reis" encheram o teatro durante várias sessões".
Trata-se de um trabalho muito grande de "perseverança", que está relacionada com o "reconhecimento" e com o facto de se trabalhar por "vocação" e não por uma questão de "oportunidade". O teatro é "vida", evidencia, pois tem a ver com estar vivo, e, confessa, dá "sentido" à sua vida.
Em termos de projectos, o coreógrafo fará em 2009 um "quarteto" para piano, dando também prioridade à linguagem coreográfica, à composição e à dança pura. No final deste ano, irá ainda a França montar algumas peças. Em 2011, o plano é "dançar e fazer um filme com Gonçalo M. Tavares", algo parecido a uma comédia musical, que terá uma versão filme e uma versão palco.
Com "Dedicatórias", em 2012, a companhia irá percorrer o país, dando "relevo à diversidade e identidade de cada região". Seria um projecto "giro" de passar pelos Açores, admite, e no qual os actores "fixam residência" numa cidade, fazendo depois uma pequena coreografia dedicada à mesma e ao espaço. Assim, aprendem a cidade através da "dinâmica" do teatro.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Outubro de 2008.

Com a verdade chegar ao "coração"


DAZKARIEH


O objectivo do grupo é ser “verdadeiro” e fazer música de que “gosta”, tentando assim chegar ao “coração” de quem a ouve. As letras, sublinha, também reflectem esta ideia, falando essencialmente de assuntos da “alma” e outros que estão presentes na “natureza humana” desde sempre, como o “amor ou o desconhecido.
Que as pessoas passem um “bom” momento com a banda e que a sua música lhes transmita “paz e força para enfrentarem os problemas” do dia-a-dia, é a mensagem dos Dazkarieh, que, segundo Vasco Ribeiro, não querem “transmitir nenhuma mensagem política ou alertar para tudo o que está mal”, assuntos que já “bombardeiam muito” as pessoas. Na sua opinião, as grandes rádios “não” cumprem o seu papel na divulgação da música portuguesa e o país tem “muito bons músicos e muito criativos”.

“Estrela de cinco pontas”; “Vitorina”; “Senhora da Azenha” e “Olhos de Maré” são alguns dos êxitos dos Dazkarieh, que surgiram na cena musical em 1999 e que nos encantam com as suas melodias, tendo já três álbuns editados e cerca de 300 concertos no seu currículo, espalhados por todo o mundo.
Vasco Ribeiro Casais começa por contar que o grupo nasceu em 1999, quando ele próprio e dois amigos, decidiram transformar um grupo que já tinham em algo “mais profissional”. A ideia original, salienta, era “fazer música com instrumentos acústicos”, o que depressa levou à exploração de instrumentos de origem tradicional, “portugueses e não só”. Pelo grupo foram passando vários músicos que contribuíram para a identidade sonora do projecto, tendo este sofrido duas grandes “metamorfoses”. A primeira em 2003, relata, com a preparação do segundo disco e, a segunda em 2005, que deu origem à formação actual.
Os Dazkarieh funcionam como quarteto e são compostos por Vasco Ribeiro Casais na Nyckelharpa, Bouzouki, Gaitas-de-foles e Flauta; Joana Negrão como vocalista, Gaita-de-foles, Adufe e Pandeireta; Luís Peixoto no Bouzouki, Bandolim, Cavaquinho e Sanfona; e; André Silva na Bateria.
Falando de si próprio, Vasco conta que tinha cerca de 17 anos quando decidiu enveredar pelo mundo da música. “Já tocava em algumas bandas e vi que queria fazer disso a minha vida”- esclarece, avançando que entrou para o Conservatório Nacional de Lisboa, onde estudou “guitarra clássica”.
O músico afirma tratar-se de um processo de “luta” que ainda hoje continua, salienta, pois o importante é “aprender a tocar o melhor possível, como funcionam as ‘coisas’ na indústria musical, conhecer pessoas e desenvolver e divulgar trabalho”. E logo que se tenha “objectivos”, sublinha, o processo é “semelhante” em todas as áreas.
Referindo-se ao nome do grupo, Vasco explica que estiveram para “inventar” um, pois pretendiam utilizar uma palavra “que não existisse” e que ficasse relacionada “apenas” com a banda e a sua música. “Da mesma maneira, que alguém teve de inventar a palavra céu ou estrela, criámos uma palavra que, desde a sua criação, ganhou um sentido mágico”- acentua.
Em termos de discografia, os Dazkarieh já editaram 3 álbuns, tendo o segundo e o terceiro edições “especiais” em capa de madeira e de cortiça, respectivamente. O grupo tem ainda uma “compilação” de algumas músicas já editadas e de 3 temas “inéditos”, num disco que acompanhou a edição portuguesa do livro “Eldest” (de Christopher Paolini) e que vendeu “33000 exemplares”, fazendo-os chegar a “outro” tipo de público.
Quanto a concertos, revela, já lá vão cerca de “300”, tendo tocado no México, Canadá, República Checa, Suíça, Áustria, Alemanha, Espanha, Cabo-Verde, Polónia, Estónia e, claro, em Portugal.
De momento, a banda encontra-se a preparar o seu “quarto” trabalho de estúdio que será editado no próximo ano. Para 2009, o grupo tem ainda agendadas “duas digressões” na Alemanha. Uma em Maio (15 concertos) e a outra em Outubro (10 concertos).
Os Dazkarieh consideram-se um “grupo português que faz música”. O objectivo é serem “verdadeiros” e fazerem música de que “gostem”, tentando assim chegar ao “coração” de quem a ouve. As letras, sublinha, também reflectem esta ideia, falando essencialmente de assuntos da “alma”, de assuntos que estão presentes na “natureza humana” desde sempre como o “amor ou o desconhecido”, entre outros.
Vasco aproveita também para salientar que “todos” os membros do grupo apreciam música “diferente e ouvem muita música”.
“As influências da banda passam um pouco por tudo, desde o clássico e jazz ao rock ou metal, electrónica e experimental, passando pela música tradicional um pouco de todo o mundo”- acentua, acrescentando que os Dazkarieh têm utilizado temas da “tradição portuguesa”, que trabalham à sua maneira.
O objectivo principal dos Dazkarieh é que as pessoas passem um “bom” momento com a banda e que a sua música lhes transmita “paz e força para enfrentarem os problemas” do dia-a-dia. “Não queremos transmitir nenhuma mensagem política ou alertar para tudo o que está mal, as pessoas já são muito bombardeadas com esses assuntos”- esclarece.
“Deixamos a nossa música falar por nós e esperamos que o efeito seja positivo”-acentua.
Abordando a situação da música em Portugal, actualmente, o músico começa por dizer que esta é “muito boa”, pois existem “muitos grupos a fazer boa música” em todas as áreas. E com a internet e com a revolução informática, admite, já não é preciso estar “dependente” de nenhuma editora para gravar um disco e para conseguir chegar a algumas pessoas. “Quanto mais e melhor música se fizer, melhor” é. E Portugal tem músicos “muito bons e muito criativos”.
Facto que o músico lamenta, é que as grandes rádios “não” cumpram o seu papel na divulgação da música portuguesa, mas por outro lado afirma não ser este o objectivo.
“Quantas vezes ouvimos um slogan tipo «rádio nº 1 em divulgação de música portuguesa? »”- questiona-se.
Mas, “felizmente”, existem rádios “locais” que têm mais “liberdade” para outro tipo de música e a internet, onde a pessoa “ouve o que quer”.
O músico aproveita ainda para dizer que, com a internet, as vendas dos cds têm “diminuído” e a indústria musical está a “mudar”, o que leva as editoras a “mudarem de política e a uma adaptação às novas tecnologias”. Afirma também não ter “qualquer” problema com os downloads, porque, argumenta, “as pessoas que gostam mesmo da música, acabam por comprar os discos”. Mas na internet, a qualidade do som deveria ser “cada vez melhor” e, mesmo assim as pessoas habituaram-se a ouvir música em mp3, onde a qualidade é “muito pior”, do que num cd. “Existem formatos digitais muito superiores ao cd, porque não ouvir nesses formatos?”- interroga-se.
Chegar ao “maior número de pessoas e continuar a fazer o que gostam”, é o projecto dos Dazkarieh, que estão a acabar o seu “novo” disco, a apresentar a todo o mundo em 2009.


Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Outubro de 2008.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Aromas de cultura!


Seminário de chá em Ponta Delgada


Saber mais sobre as origens do chá, a sua história nos Açores, a sua química, o solo e o clima que lhe são favoráveis, os seus efeitos na saúde humana e a sua presença na literatura portuguesa e alguns momentos de teatro, foram as sugestões da Confraria do Porto Formoso, que num gesto inédito e digno de nota organizou um Seminário de Chá. Evento, onde os presentes puderam ainda deliciar-se com esta iguaria de origem oriental acompanhada de vários doces e salgados, entre eles os famosos ‘scones’ como manda a tradição do ‘chá das cinco’.


Saber mais sobre as origens do chá, a sua história nos Açores, a sua química, o solo e o clima que lhe são favoráveis, os seus efeitos na saúde humana e a sua presença na literatura portuguesa e alguns momentos de teatro, foram as sugestões da Confraria do Porto Formoso, que num gesto inédito e digno de nota organizou um Seminário de Chá. Evento, onde os presentes puderam ainda deliciar-se com esta iguaria de origem oriental acompanhada de vários doces e salgados, entre eles os famosos ‘scones’ como manda a tradição do ‘chá das cinco’.
José Pacheco, responsável pela Confraria de Chá do Porto Formoso, lembra que a Camellia Sinensis surgiu há 150 milhões de anos, entre o noroeste da China e o sul da Índia, tendo o hábito de beber chá “mais de 3000 anos”, sublinha. E hoje, “o chá é a bebida mais bebida em todo o mundo”.
A “7 de Abril de 1878”, revela, chegaram a S. Miguel dois chineses para “ensinar” aos locais o cultivo do chá, o que levou a uma história de “mais de 100 anos” do chá nos Açores.
Citando um chinês, José Pacheco salienta que “apreciar o chá só é possível num ambiente de amizade, lazer e sociabilidade”.
João Madruga, investigador e docente da Universidade dos Açores, afirma que o desenvolvimento e estabilidade dos solos micaelenses encontram-se “altamente dependentes” das condições climáticas.
Eduardo Brito de Azevedo, do Centro do Clima, Meteorologia e Mudanças Globais da Universidade dos Açores, salienta não haver bebida mais “evocativa” do clima, do que o chá. O clima, por sua vez, é a razão “diferenciadora” do ambiente e recursos regionais e parte “intrínseca da nossa sociedade”.
Caracterizado por “chuvas abundantes e regulares” ao longo do ano e por um regime de ventos “vigorosos” que rondam as ilhas, acompanhando o evoluir dos padrões de circulação atmosférica à escala da bacia do Atlântico Norte, o clima da Região apresenta uma sazonalidade “medianamente” marcada, que se reflecte nos seus elementos.
“A conjugação das características climáticas das ilhas dos Açores com a diversidade de tipos de Oslo e de relevo conduzem a aptidões culturais distintas, que vão desde as culturas típicas dos climas subtropicais até culturas características dos climas temperados”- evidencia, avançando que neste quadro as características climáticas de S Miguel revelaram-se, desde meados do séc. XIX, “propícias” à cultura da planta do chá. Mesmo assim, a “diversidade” climática existente ao longo das vertentes da ilha manifesta-se sobre o “volume e qualidade” das colheitas.
Além disso, “a evolução das condições de altitude favorece” de certa forma uma “melhoria da qualidade”e a distribuição regular da precipitação conjugada, com “elevados teores da humidade do ar”, são factores benéficos à “elasticidade e delicadeza dos rebentos desta planta. Aspectos estes que no seu todo são “reconhecidos” como sinónimos de um produto de qualidade “superior".
José Baptista, membro do Departamento de Ciências Tecnológicas e Desenvolvimento da Universidade dos Açores, começa por dizer que a própria dieta mediterrânica é rica em “antioxidantes naturais”, o que reduz a incidência das patologias do foro cardiovascular. Estes antioxidantes contêm elementos, justifica, capazes de “travar” a acção dos radicais livres, “retardando” o progresso das doenças típicas das sociedades industrializadas ocidentais.
O investigador conta também ter trazido para os Açores chás de várias partes do mundo, para os comparar com o chá regional, isto de modo a “inibir a enzima do cancro”. O composto com mais “capacidade” inibitória eram os folineflóis, que se encontram no chá regional em “maior” quantidade.’
Aproveita ainda para dizer que tem sido grande o interesse em “identificar” as propriedades terapêuticas e estudar os efeitos fisiológicos do Camellia Sinensis. Daí terem desenvolvido uma metodologia para “separar e quantificar” os componentes do chá, de modo a estudar a sua “estabilidade” a diferentes temperaturas e comparar os seus teores com os dos chás de outras partes do mundo. Aliás,
“Desde os tempos mais remotos que se afirma que beber chá promove relaxamento”- enfatiza, acrescentando que a L-teanina é o aminoácido responsável por esta sensação, pois reduz o “stress mental e físico”. Elemento que o chá dois Açores apresenta em “maiores” quantidades.
João Anselmo, nutricionista, começa por revelar que o consumo de chá diário ‘per capita’ é actualmente de “120 ml”, sendo maioritariamente de chá preto (76 a 78%) na Europa, América do Norte e Norte de África, contra 20 22% para o chá verde.
O chá, enfatiza, previne a morte por doenças “coronárias, trombose, enfarto do miocárdio e reduz a tensão arterial”. Além disso, é rico em termos de saúde oral, pois tem “muito flúor e fortalece o esmalte” dentário; “inibe” o crescimento de bactérias da cárie e “diminui” os açúcares na cavidade oral.
Urbano Bettencourt, escritor e docente da Universidade dos Açores, lembra que o chá regional foi já várias vezes abordado e elogiado na literatura portuguesa, nomeadamente em obras de Eça de Queirós (1845-1900), como é o caso d’ “A ilustre casa de Ramirez”, um romance realista da terceira fase do escritor nascido na Póvoa do Varzim, que fala no chá verde. O próprio Antero de Quental deixou um documento datado de 1888, onde refere que o chá preto teria “mais venda que o preto”.
“A china fica ao lado” (1968) e “Angustia em Pequim” (1984), ambas de Maria Ondina Braga, são outros exemplos de obras que abordam o chá, tal como acontece com “Five o’clock tea” de Vitorino Nemésio, que defende o chá como um “elemento congregador de pessoas e desencadeador de rituais”.
À margem do evento, falamos com José Pacheco, responsável pela Confraria de Chá do Porto Formoso. Esta iniciativa integra-se nos objectivos da Confraria do Chá do Porto Formoso, que são a divulgação do chá nas suas vertentes “histórica, turística, gastronómica e social”- sublinha. O evento é constituído por palestras sobre os referidos temas, mas o chá irá “elevar” o espírito também através da música clássica e do teatro.
Apesar da colheita do chá nos Açores ser “sazonal”, tendo a duração de apenas “seis meses”, durante a época de produção a ilha tem condições benéficas à produção de chá e realmente produz um chá de “grande” qualidade. “O chá hoje em dia é um produto turístico”- salienta, avançando que, em 2007, a fábrica recebeu “27 mil visitantes” que tiveram a oportunidade de conhecer um pouco esta cultura agrícola, a sua “história e etnografia” e ainda saborear o produto.
A Confraria do Chá do Porto Formoso nasceu em 2006, recorda, e é composta por 26 confrades, reunindo assim os estudiosos, apreciadores e amigos do chá. “Em 2008, já tivemos a nossa terceira eternização, onde se reuniram nove confrades efectivos temos também vários confrades honorários que muito nos honram”- salienta, avançando que todos os anos, no mês de Abril, a Confraria é aberta à vinda de “novos” elementos que estejam dispostos a defender, dentro do espírito do chá, uma cultura agrícola regional e típica que merece todo esse “esforço”. Estes recebem o traje da Confraria, composto por uma capa azul-escura “inspirada” no traje regional ‘capote e capelo’ e por um chapéu de feltro azul, cujo design é “baseado no tradicional chapéu de palha” da apanhadeira de chá. A insígnia, uma fita com uma medalha cunhada com o botão e primeiras folhas do rebento do chá, o “símbolo” da colheita fina e dos chás de grande qualidade, completam o traje.
José de Almeida Mello, historiador, começa por abordar a história do chá nos Açores, explicando que esta remonta aos séculos XVIII e XIX, altura em que chegam as primeiras plantas, que servem de “peças ornamentais”. Ao surgir um “fungo” que cobre “grande parte dos laranjais” de S. Miguel, dá-se um “decréscimo brutal” desta produção, que tem de ser “substituída” por outra. É neste contexto que surge o chá, salienta, acrescentando que foram criadas no séc. XIX “diversas” plantações deste produto na costa Norte da ilha, mais precisamente na Ribeira Grande e em S. Vicente, além das Sete Cidades.
Muitas destas plantações tiveram uma grande “produtividade” em finais da segunda metade do séc. XIX e em parte do séc. XX. Hoje, lembra, a produção de chá resume-se a duas fábricas. A da Gorreana, que data do séc. XIX e é a mais “antiga”. Fundada por Maria Hermínia Gago da Câmara, esta encontra-se actualmente na posse dos seus fundadores. A Fábrica de Chá do Porto Formoso, aparece nos anos 20 e depois é “recuperada” pelos actuais proprietários.
Actualmente, o chá faz parte do “património” cultural da ilha e como tal deve ser “preservado e valorizado”, no contexto das agriculturas açorianas.
Os açorianos “não” têm o hábito de tomar o ‘chá das cinco’, esclarece, avançando que fazem mais do que isso. Os açorianos tomam chá “ao longo das suas refeições”, em todos os “quadrantes” sociais. Nas freguesias rurais da ilha, revela, bebe-se ainda “muito” chá e nas classes mais favorecidas também se faz o famoso ‘chá das cinco’, que as senhoras faziam. Existem encontros de chá e há todo um “aparato social” em torno do chá. Inclusive, a cidade já dispõe de uma Casa de Chá, sendo o chá um hábito “bem enraizado” na cultura açoriana.
João Anselmo, nutricionista, fala sobre “o chá na Saúde” e recorda que nos últimos tempos se tem assistido a uma “reabilitação” do seu consumo na alimentação. O homem bebe chá há “mais de 5000 anos” e actualmente já se percebe a importância do seu consumo “regular”. Este possui uma grande capacidade de “diminuir o risco de doenças cardiovasculares”, que constituem a primeira causa de “mortalidade” no mundo ocidental. “Só por isso, todo o esforço que seja feito para que se beba mais chá é bastante importante”- reconhece.
Na sua opinião, qualquer chá, principalmente o regional, tem componentes que promovem o “relaxamento” e actuam como tranquilizantes, ressalva, avançando estar a falar do Camellia Sinensis.
Maluquices com chá
O capítulo “O chá maluco”, do conhecido clássico da literatura inglesa “Alice no Pais das Maravilhas” de Lewis Carroll, fechou a tarde de painéis neste seminário. Trata-se de um texto que faz “brincadeiras e enigmas lógicos” próprios da cultura de Inglaterra, explica Marina Vieira, do grupo “Vamos fazer de conta”. Estiveram em palco Ana Rochate; Eugénia Cabral; Justina Silva; Margarida Almeida e; Marina Vieira.
O grupo “Vamos fazer de conta” iniciou a sua actividade em “Novembro de 1998”, relata, e apesar de ser preferencialmente dirigido ao público “infantil”, muitos adultos já se renderam à magia destas actrizes em palco.
“Os quatro músicos de Bremmen” e mais recentemente”A galinha verde”, foram outras peças levadas ao palco por este grupo, que ao longo de uma década de existência já actuou em diversas ilhas da Região.
Um chá dançante
O Seminário terminou com um espectáculo do grupo Danç’Arte intitulado “O Segredo do Chá”, ideia original de Sofia Bélchior e António Machado. Sofia Belchior, membro da referida companhia, conta que esta se encontra sedeada no teatro de S. João, em Palmela, e apresentou um ciclo relacionado com alguns ingredientes, entre eles, o chá. "Criámos este espectáculo, cuja temática tem a ver com as raízes, os rituais e a história do chá", agora pela mão da Confraria do Porto Formoso, lembra.
O convite para apresentar este espectáculo em São Miguel, constituiu, sublinha, um motivo de "orgulho" para a Companhia, pois nesta vivem pessoas que convivem e sabem "muito" sobre o chá, que faz parte do seu quotidiano.
Trata-se de um espectáculo de "dança contemporânea", mas cujo motivo e principal "motor da criação", foi efectivamente "tudo" o que gira à volta do chá.
A actriz afirma ser um espectáculo "agradável" de se ver, que inclui uma "viagem à volta do chá", onde se passa por "várias zonas" do mundo, em termos de dança e de "ambientes". No ciclo onde este "bailado abstracto" está integrado, os actores trabalharam também o "café, chocolate, açúcar, sal e especiarias", elementos que os criadores utilizaram como "motivo de criação".
"Estudamos os elementos, as suas origens, a forma como os utilizamos, os rituais que possam existir, algumas lendas e crenças"- esclarece, avançando serem elementos "muito ricos", que utilizam no seu dia-a-dia, que não conhecem e que, neste caso, representam a forma como "encontram" a dança contemporânea para a levar ao palco, para o mais "comum" dos mortais. E, alerta, "mesmo as pessoas que, muitas vezes, não estão habituadas a ver dança contemporânea, com este espectáculo conseguem chorar".


Raquel Moreira

Public in Outubro de 2008.



Conhecer para proteger!


Projecto Bionatura

Definir quais as espécies mais ameaçadas e invasoras, para que posteriormente as autoridades locais actuem em conformidade, nomeadamente na criação de “legislação” adequada de “protecção e preservação” do meio ambiente da Macaronésia, foram os objectivos do projecto Bionatura, cujo “sucesso”, segundo Frederico Cardigos, permitiu o seu alargamento ao meio “marinho”.


A Secretaria Regional do Ambiente e do Mar promoveu na passada semana as II Jornadas Técnicas do Projecto Bionatura, subordinadas ao tema "Gestão e Conservação da Biodiversidade na Macaronésia". Iniciativa organizada em parceria com a Agência Regional da Energia e Ambiente dos Açores (ARENA), que contou com a presença de Frederico Cardigos, director regional do Ambiente, que apresentou o projecto Bionatura nos Açores.
O projecto em causa reveste-se de grande importância para a Região, uma vez que permitiu o acompanhamento da Rede Natura 2000, o intercâmbio científico, a criação de instrumentos de apoio à decisão e ao planeamento, a valorização dos espaços classificados através da atribuição do Estatuto de Reserva da Biosfera e a determinação das espécies sensíveis.
A iniciativa possibilitou ainda a criação de bases de dados, a centralização e uniformização de informação na área da conservação da natureza e biodiversidade, divulgação, sensibilização e informação à população e promoção internacional dos Açores.
Biodiversidade da Macaronésia, conservação da natureza na Macaronésia, Rede Natura 2000 nos Arquipélagos da Macaronésia e espécies invasoras, foram os temas em destaque nas Jornadas Técnicas do Projecto Bionatura.
Frederico Cardigos, director regional do Ambiente, começa por contar que o sucesso do projecto Bionatura foi tão grande em meio terrestre, que já se encontra concluída a base de dados que permitirá aos Açores, Madeira e Canárias evoluir para o seu “alargamento ao meio marinho”.
O envolvimento conjunto no projecto destes três arquipélagos permitiu fazer a lista das espécies mais “sensíveis” existentes nos três arquipélagos, que serão “prioritariamente alvo de medidas de gestão e defesa” por parte da administração regional, adiantou.
Frederico Cardigos afirmou também que a “conservação marinha constitui uma prioridade” quotidiana nos Açores, sendo as espécies invasoras um problema “fulcral”, cuja resolução exigirá alguns meios financeiros.
A floresta é fundamental para fazer a “gestão da água”, uma questão particularmente importante sobretudo no contexto das alterações climáticas que se vive a nível mundial, considerou.
O director regional do Ambiente declarou, ainda, que, no caso dos Açores, o desenvolvimento do projecto Bionatura não teria sido possível de todo, sem a colaboração da Agência Regional para a Energia e Ambiente (ARENA).
Referiu, igualmente, que a Administração Pública Regional vê o aparecimento das organizações não governamentais como um “sinal extraordinariamente positivo”, em relação ao que é própria saúde da sociedade açoriana.

À margem do evento, Frederico Cardigos, director regional do Ambiente, explica que o projecto tinha como objectivos essenciais “contribuir para diversos temas dentro da conservação da natureza dos Açores”, que ligassem a investigação fundamental à capacidade de decisão da administração pública. “Os objectivos foram atingidos na sua essência e nomeadamente no que diz respeito a temáticas que eram extraordinariamente caras, como o acompanhamento da Rede Natura 2000, a implementação das reservas da biosfera, a determinação das espécies mais sensíveis especificamente em relação aos Açores e inclusivamente como uma ferramenta para o estudo de uma alga invasora marinha, que foi identificada no porto da Horta”- salienta.
Sendo esta uma alga invasora, admite, não são “boas” as consequências que traz ao ambiente, pois trata-se de uma espécie que se reproduz com “muita velocidade e prejudica” de alguma forma o meio ambiente.
Além disso, esta espécie designada de Caulerpa Webbiana “não serve de alimento a qualquer organismo”, acabando por “não” ter consequências positivas para a ecologia trófica da área, e “reduz” obviamente a capacidade de sustentação do ecossistema. Ou seja, os peixes, que nos servem de alimento, do porto da Horta têm menos uma parte de Biodiversidade algal, para se alimentarem, esclarece.
O projecto Bionatura estava precisamente a estudar uma forma de “eliminar” esta alga invasora, o que deverá iniciar-se em breve. A sugestão do Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) e de investigadores de outras nacionalidades que trabalharam em conjunto, revela, é a utilização dos chamados “cobertores de cobre”, elemento que a “inibe fortemente”. A temática é extraordinariamente “complexa”, pois esta alga não pode ser removida “manualmente, nem aspirada, o que aumentaria o seu efeito de propagação”.
Referindo-se à sua palestra, o director explica ter falado sobre as suas “conclusões” do projecto Bionatura. Sim, pois as outras temáticas são também extremamente “importantes” e o acompanhamento da Rede Natura 2000 e da sua implementação nos Açores não têm a ver apenas com o porto da Horta nem com uma espécie, mas com “todos os habitats classificados e com imensas espécies que têm uma sensibilidade extraordinariamente elevada”. O Projecto Bionatura foi o “instrumento financeiro e logístico” deste acompanhamento e resultou depois em “relatórios de monitorização” dos últimos seis anos desta Rede. E possibilitou ainda que as equipas que elaboraram os cadernos de implementação das reservas da biosfera do Corvo e da Graciosa fossem um “sucesso”.
Em relação a estas espécies “especialmente” sensíveis, relata, o Departamento de Ciências Agrárias, liderado por Paulo Borges, encontrou esta metodologia extraordinariamente “engraçada”, que agrega os valores da investigação fundamental. “Foram questionados os investigadores que trabalham sobre as espécies e os gestores e, enquanto uns davam os graus de classificação de acordo com determinadas tipologias sobre cada uma das espécies, a administração tinha que dar o peso de cada um destes graus. Ou seja, arranjaram um método misto para quantificar quais seriam estas espécies mais sensíveis e as listas finais são extraordinariamente engraçadas e úteis, além de consequentes”- esclarece.
Assim, quando a direcção tem de decidir quais as espécies a apoiar, dá “prioridade” às descritas pelo mundo científico, em conjunto com a administração através deste Top 100, como as mais sensíveis.
Em relação à situação da Região em termos de Biodiversidade, o director regional explica que os Açores possuem uma Biodiversidade extraordinariamente “interessante” com um conjunto de espécies endémicas que “urge serem preservadas”. Há espécies que estão em maior risco do que outras, mas basicamente é o que acontece nos outros sítios.
A maior “ameaça” que recai sobre as espécies endémicas dos Açores e pertencentes ao conjunto de organismos naturais da Região, são a seu ver as “alterações climáticas”, factor que lamenta não poderem, “de forma alguma, controlar”. Podem, sim, contribuir para que estas tenham o “mínimo” impacto, mas se as temperaturas variarem, ressalva, “há espécies com certeza que serão prejudicadas e outras beneficiadas”.
“Esperemos que em relação às nossas espécies endémicas, sejamos capazes de reter o impacto das alterações climáticas”- é este o desejo de Frederico Cardigos que avança estar “convencido” que isso acontecerá. “Estamos extraordinariamente atentos e temos uma série de instrumentos para que elas se mantenham, além das parcerias internacionais que colocam as espécies endémicas dos Açores noutros arquipélagos e noutros jardins botânicos a nível mundial”, para garantir que, em caso de “desastre”, estas estão salvaguardadas.
Existem dois tipos de espécies que estão sob ameaça. As que já são realmente “raras”, como a bardilia azórica, conhecida por Marzília, que é uma planta bastante “ameaçada”, parecida com um trevo, é extraordinariamente “sensível” , só existe num determinado ponto da ilha Terceira e é constituída apenas por um indivíduo em termos “genéticos”. Há muito pouco que se possa fazer por esta espécie, lamenta, a não ser proteger o seu habitat, para que este seja não seja “violado” e mantenha as suas características ambientais.
Enquanto esta espécie é rara por natureza, há outras que não o são, mas por factores “humanos” podem de alguma forma ficar em “risco” e, é destas que temos de “cuidar”, de espécies com “interesse comercial”, o que se aplica mais ambiente “marinho”. O Cavaco é uma exemplifica esta situação e foi determinado no Top 100. “Sabemos que esta espécie existe em todo o arquipélago, mas se a intensificação da pesca aumentar sobre a mesma, ela poderá ficar em risco”.
O papel do homem neste cenário é "múltiplo", pois importa “decidir bem” ao consumir. Por isso, o DOP lançou um livro de cerca de 50 páginas, que “descreve quais as espécies marinhas normalmente utilizadas na restauração e quais as que estão em boas condições de exploração”. Aí, explica, quando formos comermos, podemos “optar pelas” que estão em menor risco e pelas “certificadas” ambientalmente.
Na flora, um dos maiores riscos são as plantas “invasoras”. Por isso, muitas vezes procedemos à “remoção” destas espécies, pois existem actividades nesse sentido “organizadas pela administração” e campanhas. Nestas removem-se “canas ou conteira”, que no fundo acabam por incidir realmente nas zonas mais sensíveis e que têm efeitos claros e “imediatos” no património natural da Região.
Claro que depois existem pequenos gestos que contribuem para “amenizar” pelo menos as alterações climáticas, como o optar pelas “energias alternativas, poluir o menos possível e contribuir para que haja menos carbono” dissolvido na atmosfera.
A consequência imediata da invasão da alga Caleurpa Webbiana é a “diminuição” da produtividade”, porque esta alga ocupa o espaço e “inibe” a presença de outras espécies que seriam a base “alimentar” das espécies piscícolas, logo a produtividade diminui.
Um perigo ainda maior é possibilidade real desta se “dissipar” para o restante arquipélago, o que poderia ter consequências “bastante danosas” em relação às espécies que existem nos nossos mares e nas zonas costeiras, pois esta espécie só se distribui entre os cinco e os 25 metros de profundidade.
Referindo-se às maiores dificuldades da Região em termos de ambiente, Frederico Cardigos aponta estarem relacionadas com o “cumprimento das regulamentações” que estão já propostas e impostas. Por exemplo, em termos de gestão de resíduos, salienta, “não é admissível a largada de resíduos em qualquer local e infelizmente em algumas zonas do arquipélago as pessoas continuam as insistir em fazer esse tipo de violações ambientais”.
E também há quem não respeite as áreas mais sensíveis que estão classificadas por diversas razões e tente fazer “investimentos” não coincidentes com o que se pretende fazer a longo prazo, nem com o “legado” que se pretende deixar a filhos e netos.
O director regional salienta ainda que têm optado por utilizar a lista de Top 100, como uma das bases para a decisão na “implementação de medidas de gestão” para as espécies nos Açores. Procedendo-se à monitorização, como aconteceu na Rede Natura 2000,determinam- se quais os habitats em “melhores e piores condições” e a intervenção incide sobre os habitats em “piores” condições, o que, alerta, não poderia ser feito de outra forma.
Segundo Paulo Borges, membro do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores e Coordenador do projecto Bionatura, este teve vários resultados e implicações nos três arquipélagos envolvidos, como a criação uma “listagem completa da Biodiversidade da Macaronésia”, que regista cerca de 3000 espécies registadas nas Canárias, cerca de 7000 na Madeira e cerca de 5000 nos Açores. Ficou-se a saber também quais as espécies endémicas e as exóticas. Além disso, toda esta informação está agora “carregada na base de dados Atlantis geo-referenciada” e disponível nas secretarias de ambiente dos vários governos incluindo os Açores, sendo também utilizada para “gestão de zonas naturais”.
Uma listagem das 100 espécies mais “ameaçadas” da Macaronésia foi outro resultado do projecto Bionatura, que permite “recuperar” estas espécies de cada um dos arquipélagos. Outra novidade neste quadro é o portal da Biodiversidade, que constitui uma “ferramenta importante”, na qual onde o grande público pode pela “primeira vez” aceder a este tipo de informação, antes reservada “apenas” ao mundo científico. “As pessoas podem saber mais sobre as espécies da Região e a sua distribuição nas ilhas, além de poderem aceder a publicações sobre as mesmas”-esclarece, acrescentando que também será publicado o Top 100 das espécies “mais invasoras” da Macaronésia.
“A Caleurpa Webbiana, a conteira, a roca de velha, a hortênsia, o pitosporum e os ratos”, são espécies “invasoras” da Região, que colocam em “perigo” as espécies nativas ou endémicas.
Referindo-se ao perigo de expansão desta alga marinha, o investigador argumenta que “o Governo Regional está atento a este aspecto e a actuar a este nível”.
No evento, Paulo Borges falou sobre a importância de se “conhecer” a Biodiversidade dos Açores, de modo a “educar” as pessoas sobre a sua existência, para que estas possam actuar mais tarde numa vertente de “fiscalização também da actuação de governos e entidades privadas”, que possam colocar em perigo essa Biodiversidade, pois "conhecer para proteger", é fundamental.
“As autoridades dos vários arquipélagos já estão a actuar em muitas áreas importantes e eficazes, na criação de ecotecas, actuando a nível das eco-escolas e a nível de financiamento de investigação da Biodiversidade”- afirma, salientando ser necessário “mais fiscalização, principalmente da actuação das pessoas”. Senão, alerta, “podem ser beneficiados os que prejudicam, enquanto os que fazem mal ao ambiente beneficiam e têm mais lucros nas suas empresas”.
É essencial uma boa fiscalização para haver uma “democracia de competição” entre as empresas pró-ambientais e as que realmente “danificam” o ambiente, pois sendo esta “eficaz” muitos “problemas” se resolvem. Está a ser protegido, o que já está mais ou menos “legislado” (reservas).
“O facto de se trabalhar em conjunto com investigadores de outras universidades está a ter impactos a nível da própria política ambiental do Governo Regional dos Açores”- conclui.


Raquel Moreira

Public in Outubro de 2008.

A Responsabilidade Social das Empresas permite criar valor


Responsabilidade Social das Empresas


Assumir práticas de Responsabilidade Social da Empresas (RSE) não é uma obrigação, mas sim uma mais-valia que deve ser considerada como parte integrante do ADN das mesmas e não como um departamento à parte desgarrado dos restantes. Mas a linha que diferencia RSE de Marketing Social é muito ténue e cabe ao consumidor descobrir qual a verdadeira intenção de cada empresa, beneficiar-se a si própria ou à sociedade, através da sua própria decisão de adquirir um ou outro serviço/produto. O voluntariado empresarial e a integração de reclusos são bons exemplos destas práticas.


“Para muitas empresas, a RSE foi uma oportunidade para rever o papel das fundações e integrá-las mais no negócio. O importante é que estas estejam alinhadas com a filosofia da empresa, para evitar desgastes de todos os tipos” - foram palavras de Helena Caiado, Gestora de Projectos da Associação Industrial Portuguesa – Confederação Empresarial, no Workshop sobre a "Responsabilidade Social no Centro do Negócio", realizado em Ponta Delgada. Evento que pretende dinamizar a Rede criada de Responsabilidade Social das Empresas dos Açores e disseminar o conceito e a proliferação das boas práticas.
"A RSE como resposta à conjuntura" e "As competências fundamentais de quem gere a área de RSE", foram os temas debatidos, tendo o evento como parceiros a Acep; Associação Industrial Portuguesa (AIP); RSE Portugal; Socius; AIMinho e a Cresaçor, Cooperativa Regional de Economia Solidária.
À margem do evento, Catarina Borges, Coordenadora de projectos da Cresaçor, explica que este seminário surgiu na sequência da Rede de Embaixadores com Responsabilidade Social, que se constituiu nos Açores. Este workshop pretende abordar novamente o conceito de RSE e as suas boas práticas, que "as empresas açorianas já começam a praticar", sendo assim uma "referência e um exemplo de motivação" para outras, para que a RSE seja uma prática "comum e banal em todas as empresas" da Região.
Muitas empresas açorianas já começam a trabalhar com a Cresaçor neste sentido, como as Câmaras do Comércio de Ponta Delgada e de Angra do Heroísmo, a Lotaçor, a Nova Gráfica, o Grupo Bensaúde e a Coingra, entre outros. Empresas com as quais tem estabelecido muitas vezes "boas relações, nomeadamente na integração de público desfavorecido". Assumir práticas de Responsabilidade Social é uma "mais-valia" para as empresas, que, muitas vezes, "nem sabem" que as praticam. Pode haver muitas razões que levam uma empresa a aderir à RSE, mas muitas vezes é o Marketing Social (uma maneira de "melhorar a sua imagem") junto da sociedade. Está no consumidor, alerta, perceber qual a "verdadeira intenção" da empresa em causa. Os meios de comunicação social são também um factor essencial neste quadro, pois "publicitam e dão ênfase às empresas que dão esse testemunho" de RSE. "Há muita propensão para assumir estas práticas, mas é evidente também um grande clima de confusão nesta área", lamenta.
Helena Caiado, Gestora de Projectos da Associação Industrial Portuguesa – Confederação Empresarial, começa por dizer que este Workshop é essencial, tanto para quem dá agora os primeiros passos na área da "RSE, sustentabilidade e na implementação destas práticas" nas organizações, como para quem já tem algum conhecimento nessa área e pretende "estruturar, formatar e qualificar de outra forma" esse conhecimento.
Foram desenvolvidos três grandes produtos, relata, como o "ABC do Voluntariado Empresarial", que surgiu por terem constatado que o voluntariado não era ainda "qualificado" e não estava "integrado no ADN" da organização. Isto, apesar de as empresas terem cada vez mais práticas e motivarem os seus colaboradores neste sentido.
Foi realizado também um estudo para as empresas que são, ou estão, em vias de se internacionalizar e que operam em países em vias de desenvolvimento. Isto, para perceber "como as empresas assumiam estas práticas e esta estratégia e sobretudo se estas (as práticas) se mantinham de uma forma uniforme com as práticas realizadas no país de origem ou se havia adaptações locais"- esclarece, acrescentando ter constatado que na verdade tiveram uma "boa adaptação" aos países em vias de desenvolvimento adoptando práticas muito interessantes, como o "apoio à natalidade, praticas de igualdade de género e de capacitação dos trabalhadores", de forma a dar-lhes ferramentas para estes serem autónomos.
É de salientar também o esforço dispendido por parte da equipa do projecto em desenvolver um kit de capacitação, que tivesse como 'out-put' um curso de "formação" na área da Responsabilidade Social composto por módulos de gestão de parcerias, voluntariado, marketing social, standart's, certificações e chancelas e das marcas e outros mais de "estratégia e de terraplanagem de conhecimentos".
Referindo-se à situação actual do país e da Região nesta área, Helena Caiado afirma existirem "diferenças substanciais" a nível das organizações. E não fazendo uma grande distinção entre as grandes e as pequenas/médias empresas, argumenta que "algumas estão mais evoluídas, não por praticarem práticas de RSE, mas porque realmente a incorporam no ADN e na estratégia da organização de uma forma 'topdown'".
"A RSE funciona mais como uma filosofia, um princípio e um valor da organização e todos os colaboradores estão envolvidos nestes princípios, não deixando de ouvir nunca os stakeholders ou as partes interessadas da organização"- acentua, explicando haver organizações já muito "maduras, mas em contínua aprendizagem".
Não há estatísticas nesta questão, pois, justifica, uma "empresa pelo facto de ter uma estratégia de responsabilidade social e práticas muito responsáveis pode ainda não ser uma empresa integralmente responsável a nível social ou ambiental ", apesar de ser este o objectivo. Para isso, as empresas fazem 'benchmarking' com as organizações internacionais, algumas cumprem standart's e seguem e acompanham os principais indicadores e o facto é que há organizações muito "evoluídas". Um bom exemplo é a EDP. Existem ainda pequenas e médias empresas que não são tão faladas e que, no entanto, a nível da sua comunidade têm feito um trabalho muito "eficiente, com muito mérito" e que mostra um esforço muito grande por parte do empresário, que vê na sustentabilidade "mais do que um custo, um investimento”. Estas não são acções de curto prazo, sublinha, e quando reflectidas na estratégia da organização podem "trazer e criar valor" para a organização, mudam os processos de trabalho e com esta mudança surge alguma "inovação" na própria organização e nos seus produtos.
Questionada sobre o que pode ser feito para que haja mais organizações a utilizarem práticas de RSE, Helena Caiado avança que as organizações começam já a assumir estas práticas de uma forma mais "sustentável e consistente", porque os próprios fornecedores e clientes começam a "exigir". Está a haver um "escrutínio" muito grande no mercado e há grupos de pressão "muito fortes". Na verdade, uma grande empresa pretende que toda a sua cadeia de valor e de fornecimento seja "sustentável, equilibrada e cumpra os seus princípios". Ora, se uma empresa que é seu fornecedor operar "negativamente" no mercado, por questões ambientais, por exemplo, devido a uma má gestão de resíduos, por estar a deitar lixo tóxico para um rio, por empregar mão-de-obra infantil ou, porque não cumpre alguns planos a nível das questões da igualdade, da integração, essa não é uma "boa empresa" para trabalhar com uma empresa que pretende ter uma estratégia de sustentabilidade. Acaba por haver um efeito "alavancador" das grandes empresas para as pequenas e médias e pressões que o mercado exerce nas organizações. "As empresas, que não conseguirem antecipar estas pressões de mercado, provavelmente não vão apanhar o comboio tão rapidamente, como as outras"- esclarece.
A RSE não deve ser encarada de uma forma "pontual e desgarrada" da estratégia da organização, deve ser "incorporada e fazer parte do seu ADN".
"É fundamental pensar e actuar estratégicamente a sustentabilidade. Isto é, não fazer da sustentabilidade um gabinete à parte da organização que nasce desgarrada de todo o resto, porque desta forma não se incorpora valor a organização e não é transmitida coerentemente para o exterior ". A sustentabilidade deve ser vista de uma forma integradora dos "princípios, valores e cultura da própria organização", sem esquecer as exigências do mercado, conhecer os seus stakeholders prioritários (internos e externos) , tentando auscultá-los a par e passo , incorporando as suas expectativas e construindo sustentavelmente a sua estratégia. A RSE pode ser um factor de diferenciação. Esta realidade tem impactos potenciais em áreas diversas como na relação com os clientes e fornecedores, na capacidade de atracção e retenção dos talentos, na relação com as suas comunidades .

Na sua opinião, crises como a que o mundo atravessa actualmente são uma "janela de oportunidade" para as organizações em geral. A "ética e a transparência" são princípios fundamentais da sustentabilidade e há empresas "menos transparentes, compactas e herméticas", que entram em "conflito". O consumidor quer cada vez mais ter informação de produtos que proporcionem "bem-estar", a ele e à sociedade, e está cada vez mais "exigente".
E o facto é que o consumidor não esquece, logo uma empresa que tenha agido "mal" em certa altura, será depois "escrutinada", de maneira diferente da que empresa que teve um comportamento ético e que transmitiu esse "bem-estar, felicidade , inovação e criação de valor" para a sociedade.
As autoridades têm um papel muito "importante", não apenas com alguma "regulação" (a nível financeiro e ambiental e das questões da transparência, por exemplo), mas sobretudo devem ser as primeiras a praticar de uma forma "estratégica" a sustentabilidade, pois devem dar o exemplo, que vai para além da sua própria missão. "Os poderes públicos, sejam centrais ou locais, instituições de solidariedade e universidades, por exemplo, devem integrar a sustentabilidade na sua forma de estar e nas suas atitudes".
Maria João Santos, docente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e socióloga do Centro Associativo de Investigação em Sociologia e das Organizações, começa por salientar que "considerando as pertinências e os problemas de sustentabilidade que se verificam do ponto de vista ambiental e económico-financeiro com os actuais problemas que têm havido em termos de crise financeira e também de desajustamentos do ponto de vista das desigualdades sociais humanas as questões da RSE são hoje vitais"- ressalva, acrescentando serem um meio e um "instrumento" de trabalho para se conseguir "lutar e sobretudo ultrapassar estes problemas de sustentabilidade". Além disso, a resolução destes problemas tão globais é de tal forma "abrangente", que estes já não podem ser resolvidos "individualmente pelo estado, pelos cidadãos, pelas empresas ou pelo terceiro sector". É necessário um "esforço concertado de todos" e a resolução destes problemas passa por um "envolvimento" concertado, que pressupõe respostas do poder público, um envolvimento activo das empresas nos seus modelos de actuação, do terceiro sector, do poder local e dos cidadãos, obviamente".
Tem-se caminhado muito "positivamente", no sentido das empresas portuguesas assumirem essas práticas e a comunidade empresarial está hoje, mais do que nunca, "preocupada com os impactos que ela própria exerce na comunidade" e com o papel activo que tem e pode ter na "minimização" dos problemas sociais e económicos a nível global.
"A RSE não é uma questão de moda"- salienta, avançando que a RSE "veio para ficar", pois tanto empresas como cidadãos percebem que o processo é "irreversível e todas as empresas têm de mudar o seu comportamento".
Quanto ao que talvez impeça as empresas de assumirem estas praticas, a socióloga lembra que, no passado, o modelo de gestão empresarial foi "sempre muito displicente", relativamente aos problemas ambientais e outros. A mudança de valores faz-se a longo prazo e há aqui sobretudo questões de ordem "cultural", que têm a ver com o modelo de desenvolvimento antes utilizado que era de facto "lapidador" de recursos.
Mas as empresas já sabem que o novo modelo desenvolvimento económico está centrado sobretudo em produtos e serviços que permitem "preservar" as questões ambientais, mudança cultural também associada a uma mudança do ciclo "económico". E mudando o ciclo económico, mudam as estratégias das empresas que a este pretendem "pertencer".
Acções de divulgação como este Workshop são "cruciais", sublinha, sobretudo quando orientadas pelas empresas e "para as escolas", pois as novas gerações são de facto um elemento "vital para tentar mudar" estas mentalidades. As empresas, por sua vez, "identificam" a existência de novos modelos de negócio que pressupõem uma postura e ética mais responsáveis.
A mudança passa sobretudo pela questão da "sensibilização" e também por uma maior "consciencialização cívica" por parte dos cidadãos, que começam a "exigir" das empresas uma actuação cada vez mais responsável. Acaba por haver uma certa "pressão" dos consumidores para que as empresas mudem um pouco de atitude. "Que eventos como este se multipliquem para sensibilização dos cidadãos, jovens e das próprias empresas à implementação de práticas mais responsáveis".
Fátima Proença, presidente da Plataforma Portuguesa das ONG'S e membro da Associação para a Cooperação entre Povos, revela acompanhar a implementação da RSE em países africanos de língua e expressão portuguesa e na sua relação com Portugal. A RSE parte das empresas, mas, reconhece, é também "fruto de uma certa pressão" e de uma atenção da opinião pública sobre o comportamento das mesmas. Ao contrário de Portugal, nos países subdesenvolvidos os processos de burocratização são mais "recentes, a sociedade civil é mais frágil e o processo de construção da opinião pública está mais atrasado". Logo, a importância da RSE nesses países acaba por ser "maior", mas não é tão "sentida" pelas empresas, que não têm de lidar com a pressão da opinião pública.


Raquel Moreira

Public in Outubro de 2008.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O feed-back do público é "combustível"

Ménito Ramos

Estar perante milhares de pessoas, apesar de poder ser "intimidante", é acima de tudo algo "estimulante e gratificante", especialmente quando tem o "privilégio único" de ouvir milhares de vozes a cantarem também canções que ele próprio escreve e que são "fruto da sua imaginação e das suas vivências pessoais". Para Ménito Ramos, saber que o seu trabalho pode influenciar a vida de muitas outras pessoas é "combustível" mais do que suficiente para querer continuar. A vida é para ser vivida, "um dia de cada vez".



"Quero adormecer" (da novela "Tu e Eu") e "Se um anjo te levar" (do par romântico Nalini e Salvador, da novela "Fascínios") são alguns sucessos deste jovem cantor e compositor, que compõe para várias produções e artistas nacionais, nomeadamente para Beto. Ménito Ramos, cantor e compositor, conta que nasceu a 4 de Março de 1974 no Luxemburgo, onde viveu até aos sete anos de idade. Mas como verdadeiro filho de pais portugueses, vinha "anualmente" a Portugal de férias, até que aos sete anos veio para ficar.
Iniciou-se no mundo da música aos "nove anos" de idade como teclista, junto com os pais numa banda que actuava em bailes. Por volta dos 18 anos, já tocava em alguns dos míticos bares de música ao vivo em Lisboa e fazia "direcção musical" para alguns artistas do panorama musical da altura. Um pouco mais tarde, começou a fazer as suas "primeiras experiências num pequeno estúdio que construiu em casa" e, algum tempo depois, recorda, surgiram os primeiros convites para trabalhar como "orquestrador/arranjador" de outros produtores, já ligados à produção discográfica de topo.
Mas logo nas primeiras sessões de estúdio percebeu com toda a clareza que era esta a carreira que pretendia seguir, "enquanto a vida lhe permitisse". O facto é que em pouco tempo, surgiram os primeiros convites, para além de arranjos em álbuns, assumir também a respectiva produção. O que, afirma, tem sido uma "viagem alucinante em constante aprendizagem".
A produção, a composição e o canto, diz serem trabalhos "bastante diferentes", pois enquanto em estúdio "procuram" o 'take' certo e adequado, "independentemente do tempo que demore", no palco dispõem de "apenas uma oportunidade" de fazer o 'take' certo. Mas junto com o "risco de falhar, vem a adrenalina", salienta. Ao saber que "partilha" esse risco com músicos em palco, Ménito cria uma "nova oportunidade" de improviso, o que o leva novamente a "alimentar o ciclo da criatividade e inspiração" de cada um. Isto, "mesmo quando não se faz o que era suposto fazer".
Estar perante milhares de pessoas, apesar de poder ser "intimidante", diz ser acima de tudo algo "estimulante e gratificante", reconhece, especialmente quando tem o "privilégio único" de ouvir milhares de vozes a cantarem também canções que ele próprio escreve e que são "fruto da sua imaginação e das suas vivências pessoais". Saber que o seu trabalho pode influenciar a vida de muitas outras pessoas, é, enfatiza, "combustível" mais do que suficiente para querer continuar.
A parceria com Beto surgiu, relata, quando Ménito o convidou para participar no seu primeiro álbum intitulado "Finalmente". Até porque são vizinhos e "partilham imensas influências musicais". Beto aceitou o convite e cantaram em dueto a balada "Quero adormecer".
Por ter apreciado o seu trabalho e o que ouviu de Ménito na altura e,, estando a gravar o seu primeiro álbum a solo, "Olhar em frente", Beto convidou-o a escrever alguns temas. Ménito escreveu três temas, um deles um "enorme" sucesso. Falamos de "Memórias Esquecidas", o primeiro single do álbum.
A partir dessa altura, Ménito passou a trabalhar em "todos" os álbuns do Beto, inclusive o mais recente, "Por minha conta e risco", lançado há poucos meses. Este foi integralmente escrito e produzido por Ménito, que tem também uma participação especial, como intérprete, em dueto com Beto no tema "Não basta o teu olhar" e que o considera "inevitavelmente" um álbum muito especial e pessoal.
Para além desta parceria discográfica, os dois músicos têm também um projecto em que se apresentam em concertos ao vivo e em dueto, com músicas dos repertórios de cada um. Um projecto que lhes tem dado "imenso prazer" desenvolver.
O álbum "Finalmente" foi fundamental, dado que foi o primeiro, mas era a seu ver "pouco coerente" a nível musical, pois Ménito gravou-o pela "necessidade de explorar e pesquisar" áreas diferentes.
De qualquer forma, foi um álbum que o ajudou a "perceber" o caminho a seguir no futuro e onde contou com a participação de uma lista "enorme de músicos únicos e geniais", que com Ménito partilharam o seu talento.
Do álbum "A noite grita por mim" destaca-se o tema com o mesmo título, que fez parte da banda sonora da novela "Mundo Meu". Esta, recorda, foi uma das primeiras músicas que o fez sentir a tal sensação "fantástica" de ouvir milhares de vozes a cantar em uníssono consigo e, admite, será sempre um tema "muito importante" na sua carreira.
Quanto à sua participação em bandas sonoras de telenovelas, a oportunidade surgiu de um convite para escrever e produzir um tema, que acabaria por fazer parte da primeira série de "Morangos com Açúcar". Escreveu "O Mundo não acaba aqui" e, a titulo de "maqueta", enviou o tema que ele próprio cantou, relata.
"Ironicamente, o tema agradou de tal forma que foi aceite de imediato e quando voltei a ouvi-lo, foi já na televisão, integrado na banda sonora da série e nem cheguei a acabar a sua produção"- esclarece.
A primeira experiência correu muito bem, reconhece, e os responsáveis pela escolha dos temas para as bandas sonoras começaram a lançar-lhe desafios, no sentido de escrever "especificamente" em função das novelas, da história e das personagens. Trabalho que avança dar-lhe um "enorme prazer" e que lhe permitiu continuar a participar na maioria das novelas, dos últimos 5 anos.
Segundo o cantor, tudo o que nos rodeia pode ser "motivo" de inspiração, ressalva, indo desde as suas vivências pessoais à vivência pessoal de um amigo. Outras vezes, "simplesmente" deixa-se levar pelo seu imaginário, que reconhece poder conduzi-lo a locais "inimagináveis", onde a sua imaginação e criatividade não têm "barreiras nem limites".
Já tinha ido dar um concerto à ilha de São Jorge, mas na verdade lamenta nunca viajar "com tempo", para conhecer os sítios por onde passa. Mesmo assim, "o arquipélago dos Açores é um daqueles locais deste nosso planeta, que foi contemplado com tamanha beleza e riqueza natural, que não basta uma pequena viagem para o ficar a conhecer. De qualquer forma, o pouco que tive o privilégio de ver, foi realmente fantástico"- acentua, avançando ter sido também "especial", a forma como sempre foi recebido. De tal modo que ficou com a enorme sensação de querer "voltar", o que espera que aconteça em "breve".
Define-se como alguém que tem o privilégio de fazer o que sempre "sonhou" fazer, que aprecia a vida e que a vive "um dia de cada vez", como se fosse o último.
O que mais gosta nas pessoas é a "integridade, a honestidade e a sinceridade". Por outro lado, não gosta de "hipocrisia e de falsidade".
Na sua opinião, a música portuguesa vive actualmente um período muito "complicado", pois devido à "pirataria, à venda ilegal de cds copiados e não originais e aos downloads ilegais", os álbuns originais acabam por não vender o suficiente para "rentabilizar" o investimento feito na produção de um álbum, o que, a curto/médio prazo, conduzirá uma grande parte das editoras e artistas/profissionais da música à "total extinção".
"Não deixa de ser irónico, as pessoas condenarem à extinção os artistas de que mais gostam e cujos trabalhos mais apreciam. Porque apesar de as músicas fazerem sucesso, os álbuns originais não vendem proporcionalmente ao sucesso das músicas, e não rentabilizando o investimento, não se pode gravar um próximo álbum"- salienta.
Segundo Ménito Ramos, as maiores dificuldades de um artista em inicio de carreira em Portugal, prendem-se com a dificuldade em "apresentar e promover" os novos projectos. É difícil encontrar uma editora disposta a fazer o "investimento" necessário para promover um novo projecto e para o levar ao grande público, uma vez que, cada vez mais, acentua, a pirataria "limita" as capacidades de investimento das editoras. Sim, porque o "prejuízo é quase garantido", ainda que os álbuns e as músicas tenham sucesso.
A nível de televisão, o músico argumenta existirem actualmente "poucos" programas que promovam com o devido "destaque" os vários trabalhos musicais. Além disso, há "pouco tempo de antena dedicado inteiramente à música e são poucos os programas de televisão em horário nobre, que se dediquem inteira e exclusivamente à música, como antes havia alguns".
Referindo-se às rádios, afirma que "algumas" cumprem o seu papel na divulgação da música portuguesa, mas outras nem por isso. O artista vai ainda mais longe ao dizer que algumas rádios nacionais, limitam-se a passar os mesmos "5 ou 6 artistas de sempre". E a lei das quotas de música portuguesa "não mudou nada" nesse sentido, apenas fez com que essas mesmas rádios passassem "mais músicas" dos mesmos 5 ou 6 artistas de sempre, critica.
A seu ver, o artista tem "responsabilidades sociais e deve tomar posições", sempre em função das suas "crenças e convicções" sociais e pessoais.
Em termos futuros, Ménito Ramos pretende continuar a fazer aquilo que sempre quis fazer, música. Tem também de cumprir com vários compromissos profissionais que assumiu, nomeadamente a nível de produção/composição. Logo que isso aconteça, o objectivo é começar a projectar "novos desafios", pois não gosta de estar "parado". Mas como sempre, sublinha, "um dia de cada vez".
A banda de Ménito Ramos integra Mauro Ramos (baterista); Gonçalo Pereira (guitarrista); Miguel Camilo (guitarrista) e Dikk (baixista).
É de destacar, no seu primeiro álbum, a participação "em dueto com Ménito Ramos" de duas grandes vozes da música portuguesa, como Beto e Sónia Costa, que de uma forma única e pessoal contribuíram com as suas "vozes, a sua amizade e apoio incondicional".
Em 2005, Ménito Ramos lançou o seu 2º álbum de originais, de onde se destaca o single "A noite grita por mim", tema que deu nome ao álbum e que em pouco tempo se tornou um enorme sucesso em todo o país e nos tops das rádios locais. Um álbum onde Ménito Ramos, como produtor, músico e cantor pôde expor as suas variadas influências e, ao mesmo tempo, trabalhar com alguns dos melhores músicos portugueses, recebendo destes o seu precioso contributo musical. "Grandes Baladas", o mais recente álbum de Ménito Ramos, entrou para o TOP 30 de vendas nacionais, após duas semanas da sua entrada no mercado discográfico, onde se mantém até agora.





Raquel Moreira




Public in Terra Nostra, Outubro de 2008.

Uma musica para todas as idades!


João Andrade

O gostar, ou não, de música clássica “depende um pouco das pessoas”. Há quem tenha essa parte mais “natural de gostar. Gosta à primeira e vai descobrindo” este estilo. É acima de tudo, uma questão “cultural” e todas as pessoas devem ter “acesso e devem apreciar a música clássica”. Segundo João Andrade, “há quem diga que a música clássica é só para alguns, para quem a entende, mas com um bom músico qualquer pessoa a pode apreciar em “qualquer idade”.


João Andrade é natural de Ponta Delgada e estuda no terceiro ano Academia Nacional Superior de Orquestra em Lisboa, com o professor Aníbal Lima. “Estudei no Conservatório até ao 8º grau, terminei com 19 valores e depois concorri para a Academia”, onde foi admitido em “primeiro” lugar. Afirma que gostava de continuar a estudar, mas desta vez no “estrangeiro”, talvez nos Estados Unidos.
Tinha “8/9 anos” quando se começou a interessar por música, relata, avançando que um dia assistiu a um concerto da Vanessa Mae na televisão, em que ela só estava acompanhada de orquestra. “Adorei, pedi aos meus pais para aprender violino e eles inscreveram-me na Academia de Musica da Ribeira Grande, onde estive cerca de quatro meses”. Quando fez 10 anos concorreu para o Conservatório, entrou e foi lá que continuou com Célia Ross, sua professora até ao 8º grau.
Referindo-se à entrada para a Orquestra Metropolitana de Lisboa, João conta que tinha feito alguns cursos no continente, principalmente com Gerardo Ribeiro. Um “excelente violinista e professor” que sempre o acompanhou como se fosse o seu “mentor”. E foi Gerardo quem lhe indicou, recorda, o professor Aníbal Lima e a Academia nacional Superior de Orquestra, por ser considerada a mais conceituada escola em Portugal, onde foi admitido com a “melhor classificação”.
O gostar, ou não, de música clássica, argumenta, “depende um pouco das pessoas”. Há quem tenha essa parte mais “natural de gostar e goste à primeira, vai descobrindo”. Mas acima de tudo, considera ser uma questão “cultural”. Na sua opinião, todas as pessoas devem ter “acesso e devem apreciar a música clássica”, que é um “bem” acessível a todos. “Há quem diga que a música clássica é só para alguns, para quem a entenda, mas com um bom músico qualquer pessoa se pode aperceber e apreciar”- acentua.
Há vários estilos de música e vários “estados de espírito” e conforme a pessoa se sente, esta “escolhe” um, que lhe seja mais adequado na altura. É tudo perfeitamente “adaptável”.
A pessoa pode começar a gostar em “qualquer idade”, sublinha lembrando haver pessoas que despertam “mais cedo”, do que outras. Mas, hoje em dia, de uma forma geral, salienta, vemos que “independentemente” do estilo ou do género, os jovens e todas as pessoas têm um sentido musical “mais apurado” e sempre gostam de algum estilo.
“Há pessoas que pensam que música clássica é só Strauss, Mozart e Beethoven, mas não. A música clássica é muito mais abrangente”- esclarece, acrescentando que quem conhece a história da música, sabe que esta tem vários “períodos”, tal como a pintura. Há música clássica, barroca, romântica.
Quanto a artistas de referência, o violinista aponta ter vários no meio musical erudito, como a violinista norte-americana Hilary Ann e Maria João Pires, entre outros. Mas diz não ter nada “estereotipado” que goste mesmo de ouvir. Fora da música clássica, gosta de Evanescence e de Jorge Palma, por exemplo.
Procura estudar o “máximo possível, no mínimo quatro horas por dia”. O músico aproveita também para dizer as pessoas julgam que ser violinista é pegar no violino e tocar, mas são precisos “muitos anos de estudo, bons professores e um bom ambiente”. Além da música, diz gostar de sair com os amigos e de ler “romances históricos”. Gostou de ler também “Anjos e Demónios” de Daniel Brown, que considera ainda melhor do que o “Código da Vinci”.
Recentemente, foi “concertino assistente” do segundo estágio da Orquestra Sinfónica Académica Metropolitana e inaugurou a temporada do Centro Cultural de Belém, em Lisboa; do D. Vitória e; da Casa da Música, no Porto.
Em termos de projectos, o músico revela que se irá apresentar ainda este ano em França e a Malta, numa digressão com a Orquestra Académica Metropolitana. Em Novembro, João Andrade irá apresentar-se no Teatro Micaelense num “recital de violino e piano” e mais tarde deverá prestar “provas no estrangeiro”.
Biografia
É natural de São Miguel e iniciou o estudo do violino aos nove anos na Academia de Música da Ribeira Grande. Isto, depois de ter descoberto um ano antes, ao ver um concerto da violinista Vanessa Mãe, que o seu sonho passava, inevitavelmente, pela música, que é para este jovem uma procura do saber. João Andrade confessa que, a partir daquele momento, ficou "literalmente preso à performance e encantado com tal som".
A família sempre o apoiou e alertou para as dificuldades que iria encontrar ao longo de todo o percurso. No entanto, o seu talento a par da sua força de vontade foram decisivos e cedo se destacou entre os seus pares, conseguindo terminar, em 2006, o 8º grau de violino, com a classificação final de 19 valores. Em Maio de 2006, fez provas de admissão para a Academia Nacional Superior de Orquestra, em Lisboa, concorrendo com jovens de todo o País, onde foi admitido em primeiro lugar, ocupando, desta forma, a única vaga existente na classe do professor Aníbal Lima.
Para João Andrade, a música é algo por que vale muito a pena lutar, pois permite-lhe ter momentos que as pessoas alheias a este mundo não poderão nunca ter ou sentir. Com uma notória sede de aprender, o jovem músico revela que a sua grande dificuldade foi ultrapassar a insularidade, que na sua opinião pode ser prejudicial, principalmente numa área onde há falta de oportunidades e informação. "Só através do contacto com outros músicos é que nos podemos desenvolver".
Actualmente, encontra-se em Lisboa, no segundo ano da Licenciatura em Instrumentista de Orquestra, violino, na classe do professor Aníbal Lima. Integra a Orquestra Académica Metropolitana e dá concertos nas principais salas da capital, tendo inclusive feito diversas digressões em Espanha e na Bélgica.
De momento, o único desejo de João Andrade é estudar e conhecer o máximo que puder, de tudo o que puder, "ser melhor todos os dias e evoluir".
Ao longo de oito anos, foi acompanhado por vários professores, de diferentes nacionalidades, e em diversas disciplinas como, por exemplo, Música de Câmara, Formação Musical, História da Música, Análise e Técnicas de Composição ou Acústica e Piano, como 2º instrumento. O jovem violinista tem frequentado vários Master Class e, desde o ano de 2005, durante o Verão, vem sendo admitido na Meadowmount School of Music, em Nova Iorque, nos EUA, através de bolsas atribuídas pelo Governo Regional dos Açores. Em 2007, foi um dos vencedores do Concurso Anual de Música de Câmara, interpretando o Quarteto op. 95, em Fá Menor "Serioso", de Ludwig van Beethoven.


Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Outubro de 2008.

Há falta de cultura!

Álvaro Raposo França

Algumas pessoas dão o devido valor à arte, mas o número é bastante "restrito". E "infelizmente, existem "muitos responsáveis públicos" que optam pelo "mais barato", o que considera ser "falta de cultura". O pior é que irá passar muito "tempo", até que se denotem mudanças positivas neste contexto. Segundo o escultor Raposo França, os professores de Educação Visual também têm "muita responsabilidade" nesta área, avançando que quando leccionava, a sua preocupação "não era criar artistas". Quem não tenha jeito para desenho, pode "apreciar", pois "as pessoas para gostarem de uma coisa não precisam de saber fazê-la".

Desde pequeno que gosta de modelar e tudo começou quando o pai lhe deu um pouco de barro, quando se encontravam de férias nas Furnas.
Nasceu em Ponta Delgada e, em 1960, foi estudar para a Escola Superior de Belas Artes do Porto em 1960, curso que terminou cinco anos depois. Leccionou no ensino secundário até 1989 e acabou por ir para formador de Belas Artes em Lisboa, onde ficou até se reformar. Mas "paralelamente" a essa actividade lectiva, sempre trabalhou em escultura.
A sua primeira exposição individual, recorda, foi em 1972 no antigo Colégio do Infante. Antes já tinha exposto, mas em conjunto (desde 1961), na escola do Porto e depois com colegas em "vários" locais.
O interesse pela escultura surgiu desde "muito cedo", pois apesar de ainda não saber se seguiria esta área, "sempre gostou muito" de modelar.
"Tinha 5 ou 6 anos e estava a passar férias nas Furnas, quando o meu pai me deu um pouco de barro para eu estar entretido. Comecei a moldá-lo, gostei e ao contrário da maioria dos miúdos que, aos 12 ou 13 se anos, se desinteressam por moldar barro ou plasticina, eu continuei a gostar e ainda hoje gosto de mexer em barro e modelar"- acentua.
Referindo-se à sua exposição que se encontra patente no Centro Municipal de Cultura até 26 de Outubro, o artista conta que o primeiro trabalho é de 1999, sendo esta composta por peças realizadas num espaço de "quase 10 anos".
Em simultâneo com a escultura, Álvaro Raposo França lembra ter outras actividades de escultura, como "encomendas de bustos e estátuas", peças que desenvolve nos seus "tempos livres". Mas, sublinha, o artista não considera a escultura como um "passatempo". Esta é, sim, quase uma "obsessão, porque todos os dias faz qualquer 'coisa', nem que seja desenhar, imaginar ou por uma ideia em prática".
A mensagem que pretende transmitir afirma estar "implícita" nas suas obras, avançando preferir que as pessoas a "descodifiquem". Neste contexto, explica, a mensagem surge através da "volumetria" da escultura, neste caso.
Questionado sobre o que o leva a ter uma ideia para uma peça, o escultor afirma não acreditar muito na "inspiração", avançando que esta tem "muito" que se lhe diga. A seu ver, a ideia surge do próprio trabalho. "É como comer cerejas, começa-se a comer e nunca mais acaba"- salienta, acrescentando que "cada ideia faz surgir outras" e assim sucessivamente, pois trata-se de uma "corrente continua". Além disso, argumenta, se a pessoa trabalhar "sempre", a inspiração existe. Mas se parar, o indivíduo fica a "olhar para a lua à espera que a inspiração" chegue, o que desconfia que aconteça. A escultura é para si uma "obsessão", mas "no bom sentido". É quase tão "normal, como comer e respirar, é algo natural".
Diz gostar de todas as suas peças, mas selecciona a "Ginasta da Fita", uma das primeiras e a que "talvez" tenha mais "impacto", defende.
A cor na escultura é algo que "sempre" existiu, explica. Na escultura clássica não havia cor, revela, mas com os gregos e os egípcios as pedras tinham cor e estes chegavam mesmo a "pintar o bronze". Aliás, há escultores "contemporâneos" que pintam as suas peças, salienta, avançando ser geralmente "muito sóbrio" no que toca às cores. Não costuma pintar, partindo do próprio bronze. E quando são outros materiais, como o ferro, geralmente pinta as peças de "vermelho ou amarelo", cores mais "chamativas". É quase como "sublinhar uma frase a vermelho", para se ver melhor.
Quanto à situação actual da arte, o escultor afirma que "algumas" pessoas lhe dão o devido valor, embora em número bastante "restrito". Aproveita também para dizer que, "infelizmente, há muita gente que não lhe dá valor", acrescentando que aqueles que se espera que valorizem a arte, "não" o fazem.
O artista vai anda mais longe ao afirmar existirem "muitos responsáveis públicos", que optam pelo "mais barato" e vão buscar artistas ou fazedores destas coisas (pode ser arte ou não), o que considera ser "falta de cultura". E, lamenta, passará muito "tempo", até que se denotem mudanças positivas neste contexto.
Por outro lado, o ex professor reconhece que os professores de Educação Visual também têm "muita responsabilidade", nesta área. Quando estava a leccionar no secundário, sublinha, a sua preocupação "não era criar artistas". Os alunos diziam não ter jeito para o desenho, mas "podiam apreciá-lo", justifica, acrescentando que "as pessoas para gostarem de uma coisa não precisam de saber fazê-la". Falando de si próprio, Raposo França revela gostar muito de ouvir música, mas não pensa tocar nem cantar. O mesmo acontece, com as artes visuais.
A nível das escolas, o incutir um sentido estético nos alunos, é algo que segundo o artista tem de ser feito, mas é um processo que dura "gerações". Ainda há pouco tempo, recorda, havia "muito poucos" professores formados em Educação Visual.
Os curiosos é que davam aulas, revela, lembrando-se que certo dia lhe disseram que seria o professor de "matemática" a dar a aula de Educação Visual. Isto, para "desanuviar um bocado e para não sobrecarregar os alunos com muitas horas de matemática". E num contexto destes, as 'coisas' "não funcionam". Actualmente, o escultor espera que isso já não aconteça, pois sabe que tudo evolui, apesar de ser "devagar".
Estatuário é das áreas em que mais gosta de trabalhar no campo da escultura (peças grandes), porque "dá outra liberdade". Começa por fazer uma peça pequena, que depois é ampliada e aí, já pode "antever" como esta irá ficar. E há uma "simplificação" dos volumes, de superfícies e de espaços, o que é um "desafio interessante".
"Não é pegando num 'bibelot' e pondo-o em ponto grande, que ele vai resultar. A peça que tem ser pensada para ser grande e é dos desafios que gosto mais, embora não se possa estar sempre a fazer estatuário, só vez em quando"- esclarece.
Diz não contabilizar o máximo de tempo que leva a fazer uma peça, mas também já fez uma peça num dia só. Isto, relata, quando fez as provas para professor na Faculdade de Belas Artes. Uma das provas consistia em tirar um tema à sorte e em "oito horas" desenvolvê-lo, em barro ou outro material provisório. "Calhou-me o tema da mudança", algo que, admite, dá muito que falar, pois a própria vida é feita de mudança. Representou o tema através de três mulheres, "uma nova, uma de meia-idade e uma mais idosa", havendo um diálogo entre elas. A peça, tem-na "passada a bronze", mas, hoje, ressalva, não representaria o tema da mesma forma.
Em termos de projectos, avança estar a trabalhar em "algumas" peças, que ainda não estão prontas para serem vistas. Raposo França aproveita para dizer aos açorianos que "visitem a exposição".




Raquel Moreira



Public in Terra Nostra, Outubro de 2008.

Um açoriano de sucesso!


Bruno Medeiros

Venceu o Concurso das Profissões a nível regional na área de Carpintaria, o que o levou directamente a Aveiro para a prova nacional, de onde também saiu vencedor entre quatro concorrentes. Os mundiais, realizados em Helsínquia, valeram-lhe também o primeiro lugar, o que “foi muito bom”. Quando representou Portugal a nível europeu, em Roterdão, Bruno Medeiros, foi também o número um. Foi tudo muito “rápido”, relembra, e teve apenas “uma semana” de preparação, mas “sempre" gostou desses "desafios”.


O seu percurso de vida é marcado já por várias vitórias, desde as provas regionais até ao mundial, o que o deixa “muito feliz”. Bruno Medeiros é natural do Cabouco, concelho da Lagoa e tem 22 anos. Desde pequeno “sempre” gostou de trabalhar em madeira, “pregar pregos e fazer cancelas”. Quando terminou o 9º ano, decidiu estudar na Escola profissional das Capelas, onde fez formação na área de Carpintaria. “Tive um curso de qualificação de um ano, depois fiz o estágio e fui trabalhar para a Ribeira Grande, onde já estou fez cinco anos em Setembro passado”- esclarece.
Referindo-se ao Concurso Nacional das Profissões, o jovem conta que a Escola Profissional das Capelas o convidou a participar no concurso regional, onde obteve o “primeiro lugar, entre quatro concorrentes”. Em 2003, participou no concurso nacional em Aveiro, onde participaram, também um alentejano, um madeirense e um concorrente da zona centro. Conseguiu “novamente” o primeiro lugar, recorda, reconhecendo que foi “muito bom” ser considerado o “melhor português”.
O facto de ter ficado em primeiro lugar, explica, levou a que tivesse direito a participar nos mundiais que ocorreram em 2005, a Helsínquia, na Finlândia. Isto, com 19 anos de idade. Mas claro que, sublinha, antes de ir a Helsínquia teve “dois meses” de preparação. A prova correu-lhe bem, confessa, lembrando que recebeu também um certificado de trabalho, com nota “Excelente”. A escala é de ‘0’ a ‘600’ pontos, esclarece, e, quem obtém mais de 500, recebe medalhões de trabalho excelente, tal como existem outras medalhas a nível mundial. Entretanto, surgiu uma proposta para representar Portugal a nível europeu, em Roterdão, na Holanda. Proposta que aceitou de imediato, pois “sempre gostei desses desafios”. Afirma ter sido tudo “muito rápido”, de modo que teve apenas “uma semana de preparação”, no continente.
Quanto à prova, esta consistia em fazer uma porta e foi realizada em dezoito horas, divididas em três dias e “correu-me muito bem”. Bruno Medeiros ficou novamente em “primeiro” lugar, desta vez entre oito concorrentes. “Fazíamos o pranteado, o desenho da prova, que tinha que ser entregue no fim do primeiro dia para ser avaliado. No segundo dia, tivemos a concretização de uma porta com arco em cima, que tinha de ficar pronta, armada, colada e com os acabamentos terminados”- recorda, avançando que antes de se armar a porta, esta foi toda “avaliada, inclusive os pormenores de encaixe”. No terceiro dia o trabalho consistia em fazer uma “janela basculante, para ser adaptada” à porta.
Como já tinha “alguma” experiência dos concursos anteriores, no fim das provas cada um “olhava” para os trabalhos dos outros e, claro, sempre encontrava uns “melhores” do que outros. Na cerimónia de encerramento, Bruno Medeiros afirma ter ficado “muito feliz”, por ser campeão europeu, o que, admite, “não se consegue num abrir e fechar de olhos”.
Tanto a família como os amigos, diz estarem todos muito “satisfeitos” e acrescenta que lhe têm dado parabéns, “muitas” vezes.
Na sua ida para o campeonato europeu, resolveu que não irá continuar na empresa onde se encontra a trabalhar actualmente. “Aprendi muito mesmo e abri muito os olhos, mas só lá fico até 21 de Novembro””, explica, pois já tem outra “proposta” de trabalho na Região, de alguém que já o conhecia e “sempre” gostou do seu trabalho. Questionado sobre uma eventual ida para o estrangeiro, Bruno afirma que gosta muito de estar “perto da família”, mas tudo iria “depender” da proposta em si.
“Planeio também dar formação e sempre tive o sonho de ter o meu próprio negócio”- revela. Diz estar em fase de “estudo”, tendo chegado mesmo a discutir o assunto com Rui Bettencourt, director regional do Trabalho e Qualificação Profissional, que logo lhe indicou a “possibilidade” de fazer o curso de formação para formadores.
A quem pense seguir a via profissional, o jovem aconselha as pessoas a “acreditarem” nas escolas profissionais, pois “aprende-se muito”.


Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Outubro de 2008.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O livro é um abrir de expectativas


Workshop de Banda Desenhada

Nos Açores, a banda desenhada “não está muito divulgada”, há apenas “casos pontuais”, mas no continente há uma “gama muito boa” de jovens a trabalhar nesta área. Gosta de fazer as letras “manualmente” e utiliza o Powerpoint apenas como “apoio”. Caso contrário, José Ruy, desenhador, defende que chega a um ponto em que já “nem sabe se continua a ter arte ou é a máquina que a faz”. O computador é na sua opinião o “terminal dos jogos e afasta-os um pouco”do livro, que deve ser bem analisado antes de ser escolhido, não pela “cor da capa”.

O livro é um bem precioso e nem o computador o pode substituir. José Ruy, desenhador, nasceu em 1930, na Amadora, e dedicou-se à banda desenhada, ou melhor “histórias em quadrinhos”, como gosta de dizer.
Referindo-se ao workshop, conta que tudo começou com um “convite” de Luís San-Bento, director da Biblioteca Publica da cidade da Horta, para lá ir e fazer umas sessões. Já tinha estado várias vezes na Horta, para o lançamento de livros como “A ilha do futuro” e para realizar sessões nas escolas, altura em que conheceu o director da biblioteca.
Segundo José Ruy, trata-se de uma “explanação”, da sua experiência neste campo, que aborda questões como as “origens” da banda desenhada e, a diferença entre banda desenhada e histórias aos quadrinhos. Isto, passando pela sua “estrutura, as proporções e a técnica” até à planificação das histórias. Por exemplo, é fundamental saber se é a adaptação de um romance, uma história inventada, ou baseada em documentação histórica.
Depois, vem a “composição” de cada vinheta, que por sua vez irá compor toda a prancha, a cor e, a “rotulação” (o desenho das letras nas legendas, nos balões).
Não menos importante, é saber como utilizar o “modelo vivo” do melhor processo para ser original, em que se desenha “directamente num modelo que tem atitudes, expressões e que é uma base para se trabalhar”, sem o recurso a fotografias ou a trabalhos já realizados por outros, coisa que, alerta, “não se deve fazer”.
Outros pontos importantes são o trabalhar as histórias, no caso de haver outras “versões” noutras línguas, e o “equilibrar” dos espaços de texto.
O workshop dividiu-se em duas horas de manhã e outras duas horas à tarde, durante cinco dias. Claro que em tão pouco tempo, reconhece, “não é possível” ensinar a desenhar, mas ensina-se a “manusear a linha de pesca”.
Referindo-se ao público-alvo, lembra que este foi desde os 12 anos até aos adultos.
A “sequência” também é fundamental, pois quando se desenha a lápis faz-se uma construção, cobre-se a tinta e essa construção “desaparece”. Inclusive, o lápis que está a mais é “apagado” e depois é posta a cor em cima, logo há fases que vão desaparecendo na sequência do trabalho.
“Através do Powerpoint, apresentei as diversas fases do processo antes de serem sobrepostas, o que explica a evolução do trabalho desde o papel em branco até à arte final”- esclarece.
Questionado sobre o que mudou nos hábitos dos jovens, que há uns anos atrás adoravam banda desenhada e, actualmente, muitos já a substituíram pelas consolas, José Ruy acredita que “nos Açores a banda desenhada não está muito divulgada” havendo apenas “casos pontuais”, mas no continente afirma haver uma “gama muito boa” de jovens a trabalhar nesta área. Naturalmente que não é, reconhece, um trabalho “rentável”. E para uma pessoa com alguma experiencia e trabalhos publicados, há “sempre” um trabalho contínuo, mas para um jovem aparecer é “mais difícil”. Isto leva a que muitos elementos com valor derivem para a “publicidade” e outros tipos de trabalho.
O desenhador lembra ainda terem há 19 anos um grande “festival” de banda desenhada na Amadora, no qual aparecem “sempre valores novos e alguns realmente muito bons”. Afirma gostar de fazer as letras “manualmente”, por ser “diferente”, e utiliza o Powrpoint apenas como “apoio”. Caso contrário, diz chegar a um ponto em que já “nem sabe se continua a ter arte ou é a máquina que a faz”.Mas, por outro lado, tem dois colegas, José Pires e João Amaral, que fazem “tudo” no computador e são duas pessoas com “muito valor” com trabalhos realmente “muito bons”.

A seu ver, o computador é o “terminal dos jogos e afasta-os um pouco” do trabalho em que se utilizam as mãos. Os jovens começam a habituar-se a usar só as “pontas dos dedos” para teclar, explica, avançando ser uma questão de “modas”, porque também quando apareceu a televisão disseram que o cinema ia “acabar e que o livro iria desaparecer”. E actualmente, todos eles coexistem.
Quanto ao que poderá ser feito para melhorar os passatempos dos jovens, o desenhador avança que têm tentado “encaminhá-los” para o livro, que “abre todas as perspectivas”, de conhecimento, da agilidade e de olhar. A seguir ao texto, vem a imagem e através desta cria-se realmente uma “habituação” que deve ser utilizada, sem ser apenas por fotografia ou numa sequência de cinema.
Em termos de projectos, diz ter em mãos uma “nova edição dos Lusíadas passada para banda desenhada”, com tradução para língua mirandesa, a segunda língua do país. O filósofo Leonardo Coimbra e a história da cidade de Coimbra, são alguns dos muitos projectos que estão em estudo.
No que toca a hábitos de leitura, José Rui aconselha os açorianos a “lerem e a descobrirem depois se o livro lhes agrada”, ou não, pois sabe naturalmente que na literatura tanto há o bom, como o mau. “Tem que se ver o conteúdo e descobrir, não é dizer que o livro não agrada por ter uma capa muito escura, por exemplo”- explica.
É preciso ler muito, mas no papel, sublinha, pois ler no computador torna-se “pouco pensativo” e no papel volta-se a folha, há o “cheiro” da tinta e uma serie de influências que “atraiem” o leitor.
O primeiro dia do Workshop incidiu sobre “Histórias em Quadrinhos ou Banda Desenhada”; as origens da banda desenhada; o que não se deve fazer; a estrutura versátil das histórias em quadrinhos; guião e texto para legendas; a adaptação de um romance; planificação do texto original; a inspiração; proporções da figura humana e de animais e esquema da figura humana. No segundo dia, os alunos puderam aprender algo mais sobre documentação; arquivos; organização de um ficheiro; a pesquisa nos locais onde se desenrola a acção; o desenho do natural; como se recolhem elementos num museu; composição gráfica dos quadrinhos; linhas de radiação e os planos. O suspenso; a rotulação; os balões; a perspectiva e modelos vivos foram os assuntos do dia seguinte.
Os últimos dois dias desenvolveram temas como a utilização do modelo vivo no desenho de ilustração; desenho ao vivo, com modelo, na sala; a cor e sua aplicação nas pranchas; versões das histórias em quadrinhos para outras línguas e; versões em línguas completamente diferentes da nossa.


Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Outubro de 2008.