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terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Paulo Gonzo Não imagina a vida sem o "Vicio" da música "Sem música morríamos todos"

Extremamente simpático e sociável, Alberto Ferreira Paulo ou Paulo Gonzo - como ficou conhecido no mundo da música - é acima de tudo uma pessoa simples, “alegre, divertida” e que gosta do que faz. Diz não gostar muito de falar de si, mas acaba por revelar ser nativo de Escorpião, afirmando que “há pessoas que dizem que temos mau feitio, mas, falando por mim, penso que não”. Por outro lado, defende que se tivéssemos todos bom feitio, o mundo seria “uma chatice e as pessoas muitas vezes dizem que tem bom feitio, mas é mentira”. Para sermos todos boas pessoas, o cantor acrescenta ainda, bem disposto, que o segredo está num bom “café logo pela manhã”. Nascido em Lisboa, a 1 de Novembro de 1956, e membro de uma família numerosa, Paulo Gonzo é o segundo rapaz, num total de quatro irmãos ( três rapazes e uma rapariga).Quando era pequeno, relata que “era um bocado malandro, mas no fundo tinha bom coração”, avançando que a mãe o via como um bocado “empreendedor”. Lembrando-se de uma história engraçada das brincadeiras que tinha com os irmãos, o músico conta que “uma vez, o meu irmão estava escondido debaixo da cama e tinha a sua imagem projectada no espelho e eu atirei com um sapato ao espelho”. Quanto a sonhos de criança, Paulo Gonzo afirma que não queria ser nada de especial, quando fosse «grande», acrescentando: “não sei, as crianças têm sempre tantos projectos, pois a irreverência faz sempre parte das nossas vidas e ainda bem que assim é”. Além disso, o cantor recorda ainda que “quando se começa a prever o futuro, normalmente ele sai errado. Daí, o devermo-nos guiar mais pela nossa intuição”- aconselha. Não sabe porque optou pela música, mas actualmente considera-a um” vício”, que leva muito a sério. “A música é um “dom” e foi uma honra ter tido algum jeitinho para isto, pois é das melhores coisas que há no mundo e a única que nos dá alguma alegria. Ainda mais, da maneira como o mundo se encontra actualmente – lamenta.E continua, dizendo que se trata de “uma espécie de ar para a boca. Sem música, morríamos todos!.”O músico acrescenta também que se considera “um privilegiado”, por fazer aquilo que quer e de que gosta, com prazer e, poder continuar a fazê-lo. “Como a música, felizmente, não é uma ciência exacta, o próximo disco é sempre o melhor”- refere .Ao compor as suas canções, Paulo Gonzo revela que se inspira em tudo, limitando-se a fazer uma “triagem” das suas vivências. O resto “vem intuitivamente e instintivamente ao de cima”. São alguns momentos, “uns melhores outros piores”, que codifica ao longo do seu percurso de vida. Mesmo assim, o ponto alto da inspiração, que fez com que escrevesse músicas tão célebres, como Jardins Proibidos acontece “à noite. Aliás, as pessoas também são muito diferentes de noite”- salienta.Paulo Gonzo afirma que, quando canta, “não me lembro de nada, do início ao fim”. Apenas sabe que se sente “muito bem”. Para o artista, a música é fazer o bem, é gostar do que se faz e, sobretudo dar ás pessoas algo agradável, porque as pessoas quando pagam bilhete para ver um espectáculo é porque precisam disso. “A música é como pão para a boca ou como a água. Não imagino a vida sem música”-refere, mostrando mais uma vez o amor pela profissão. Quanto aos famosos “Jardins proibidos”, o músico afirma que não há história nenhuma por traz de tão grande sucesso, dizendo somente que “tive a felicidade de escrever essa canção. Há músicos que passam a vida inteira à procura “daquela música” e eu tive essa felicidade, como o Prince teve o “Purple Rain”. Afirma também que muitas vezes, não aproveita algumas músicas que compõe e “até esqueço que elas existem. O presidente da editora apareceu no estúdio e disse que faltava música para completar o disco, uma balada. Em cinco minutos fiz a balada e aconteceu”.Lembrando que não foi a primeira vez que visitou o Arquipélago, Paulo Gonzo refere que “o público dos Açores é um público muito especial”. Desta vez, o cantor veio dar dois espectáculos intitulados “Concertos Íntimos”. Um no Centro Cultural em Angra e o outro, no Teatro Micaelense em Ponta Delgada, “duas salas magníficas onde é uma honra e um prazer actuar”.Quanto ás ilhas, o músico avança que “mesmo não sendo católico, sítio onde Deus pôs a mão foram os Açores”, acrescentando ainda que os açorianos são povo de uma “sorte imensa”.A Go Graal Blues BandPaulo Gonzo estudou Belas Artes na Escola de Artes Decorativas, em Lisboa, onde conheceu os músicos com quem viria, em 1975-76, a formar a Go Graal Blues Band, do qual era co-fundador, compositor e vocalista. “Gostávamos muito dos Blues e fizemos o primeiro espectáculo ao vivo com os Tan-Tan, no Instituto Superior Técnico, em 1975”- relembra. Hoje em dia, o seu repertório ultrapassa já os “vinte” discos gravados.O artista acrescenta que começaram a passar na Rádio as primeiras maquetas com as músicas da banda cuja gravação se deu “em 1976”. O primeiro disco também intitulado Go Graal Blues Band produzido por Jaime Fernandes, em 1979, foi seguido do single Outside. Nos fins de 1979, chegou a vez dos Go Graal Blues Band darem o seu primeiro concerto no Coliseu, em Lisboa. O artista recorda ainda, uma situação caricata pela qual passou, para entrar no recinto. Quando deu o primeiro espectáculo no Coliseu, o porteiro obrigou Paulo Gonzo a ir para o fim da fila e a comprar bilhete, pois não acreditou que era ele a estrela do espectáculo. “Havia uma fila enorme à entrada e eu cheguei-me ao pé do porteiro e, disse que era eu que ia cantar. Ele virou-se para mim e respondeu: Isso é o que todos dizem. Estás a ver aquela fila? Vai lá para o fundo e compra bilhete como os outros” e eu fui”. “Já paguei para me ver!”- sublinha.Em 1980, Paulo Gonzo grava um novo single Touch Me Now do álbum, White Traffic. Um ano mais tarde, o single Lonely precede a publicação de Black Mail e Colectânea, ambos de 1983.No ano de 1986, gravou Somewhere In The Night, que lhe valeu a assinatura de um contrato discográfico com a Sony Music Entertainment (na época, CBS Portugal), editora com que se mantém até hoje.O ano de 1986, fica marcado pela estreia do álbum My Desire, que continha originais de Charlie Midnight, Dan Hartman, Daniel Lavoie e Jimmy Scott, bem como uma grande interpretação de These Arms Of Mine, de Ottis Redding.Em meados de 1987, foi a vez de Stay, que esteve classificado várias semanas consecutivas no Top Nacional, vendendo mais de 10.000 cópias.Nos anos de 1988 e 1989, temos a edição do máxi-single My Girl/She Knocks Three Times, célebre tema de Smokey Robinson, também popularizado por Ottis edding e o lançamento do máxi-single Can’t Be With You, respectivamente.Em 1992 iniciam-se as gravações de Pedras da Calçada, o seu primeiro álbum a solo, desta vez produzido por Luís de Oliveira, onde pode contar com as participações musicais de João Allain (ex-companheiro da Go Graal Blues Band) nas guitarras, Alexandre Frazão na bateria, Yuri Daniel no baixo e contrabaixo acústicos, Ricardo Cruz também no baixo, Alexandre Manaia nos teclados, José Salgueiro nas percussões e Edgar Caramelo no sax alto. Os coros ficaram a cargo de Rita Guerra e Isabel Campelo.É neste trabalho de doze temas, que surge a canção mais marcante da sua carreira, Jardins Proibidos. Considerada por muitos, pela sua melodia e sensualidade, a canção perfeita de Paulo Gonzo e uma referência na música portuguesa.Em Novembro de 1993, é publicado My Best, uma colectânea em inglês com as melhores canções de Paulo Gonzo. Dois anos mais tarde, é lançado o Fora D’Horas que conta com participações especiais de músicos de renome, nacionais e estrangeiros, como Nani Teixeira e Pedro Abrantes na secção rítmica, Alexandre Dinis nos teclados, nas guitarras João Cabeleira (Xutos e Pontapés), Luís Fernando e Xavier Tox Geronimi (habitual comparsa de Etienne Daho). Na composição de algumas das letras, os nomes são Pedro Abrunhosa, Rui Reininho e Pedro Malaquias. A produção foi de Frank Darcel (ex Marquis de Sade, produtor de Pascal Obispo, Etienne Daho, GNR e Quinta do Bill).Fora D’Horas é, segundo palavras do jornalista e cronista João Gobern, “um CD que respira alegrias, angústias, paixões, excessos, ironias, memórias, futuros, noites (muitas noites) na justa medida dos instintos, despreocupado com as regras da normalização e com o flagelo da pré-programação.”Temas como Acordar, Tiro à Queima Roupa, Leve Beijo Triste e Noite das Sete Colinas, tornaram-se autênticos marcos da música portuguesa.O álbum Dei-te Quase Tudo, editado em 1997, chegou a Sextúpla Platina. O melhor de Paulo Gonzo compilado num só disco, onde podemos ouvir a versão original de Jardins Proibidos e também com a participação especial de Olavo Bilac dos Santos e Pecadores), Pedras da Calçada, Caprichos da Lua, Sete Vidas e Acordar, entre outros.Em 1998, foi a vez de editar o álbum Suspeito, que foi Disco de Platina e que contou com a participação especial de James Cotton, uma autêntica lenda viva e referência obrigatória dos blues.Nomes como Bernardo Sassetti, Zé Pedro, Gonçalo Pereira, Texino (ex- companheiro de Etienne Daho) Dalú, Nani Teixeira, Phillipe Decock e Flak (ex- Rádio Macau) fazem igualmente parte deste projecto, tal como os temas Pagava P’ra Ver, Ser Suspeito, Fogo Preso e Humano e Pouco Mais.Paulo Gonzo Ao Vivo Unplugged surge, em 1999 e percorre uma grande parte do percurso a solo de Paulo Gonzo, desde So Do I, ao mais recente Ser Suspeito, passando por alguns dos seus êxitos mais óbvios e por outras preciosidades menos evidentes: Jardins Proibidos e Dei-te Quase Tudo inevitáveis num disco ao vivo e as interpretações do blues standard Georgia On My Mind, e de Coisas Soltas. Aqui, Paulo Gonzo surge acompanhado ao piano pela soberba performance de Bernardo Sassetti e em Coisas Soltas pela cumplicidade inebriante de Rui Reininho,Próximo do final, mais dois convidados impõem a sua presença. São estes Tim, na versão acústica de Chuva Dissolvente e, Zé Pedro dos Xutos e Pontapés que empresta a sua guitarra à energia eléctrica de Curva Fatal.Uma carreira a soloApós a edição do novo álbum, Dirty Brown City em 1984, Paulo Gonzo decidiu iniciar a sua carreira a solo, gravando o seu primeiro single, So Do I, que viria a transformar-se num enorme êxito.De momento, Paulo Gonzo está a preparar o próximo trabalho que se prevê sair em Março ou Abril e que afirma, ser meio Blues, Iron Mix, pois diz estar “a regressar ás origens”. “É um álbum muito interessante, que está a ser preparado desde há três anos e que tem algumas novidades, como um dueto com o Rui Veloso”- revela.Quanto a espectáculos, mesmo não dispondo, no momento, das marcações afirma ter já alguns marcados.Falando numa próxima vinda à Região, o cantor, encantado com as ilhas, responde, “quando quiserem” e acrescenta “por mim estava aí todos os dias!”.
Raquel Moreira
Public in "Açorianissima", 2005

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