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terça-feira, 15 de janeiro de 2008

PRAXES: TEMPOS QUE NÃO VOLTAM MAIS

Ir para dentro do lago, levar com ovos na cabeça e cantar ao desafio, são algumas das actividades a que os calouros são sujeitos nas semanas da Praxe, já para não falar em medir, com um palito, toda a área de um edifício ou de um campo de jogos. Praticamente por todo o país, o início do ano académico é marcado por estes e outros rituais, que costumam também incluir as chamadas festas “do calouro”- para satisfação dos novatos nestas andanças universitárias, que esperavam já por momentos um pouco “diferentes”. Um mundo onde anseiam entrar, de onde anseiam sair e para onde depois desejam voltar, recordando para sempre e com carinho a camaradagem, as habituais festas, os amigos que ganharam e até mesmo as aulas e muito do que lá aprenderam, muitas vezes sem se darem conta disso.Um caminho que termina com a popular “Queima das Fitas” e muitas lágrimas nos olhos, de filhos e pais! A concretização de sonhos de uma vida inteira. Etapas que vão e que ficam! São memórias que perduram!Resta-nos viver esses tempos com “espírito académico” e poder dizer seja a quem for “Quem me dera voltar a estudar!”.
Começou mais um Ano Lectivo! Desde fins de Setembro, que as portas da Universidade dos Açores se abriram, para assistir à entrada dos alunos. Uns novos, outros nem tanto, mas todos partilham o desejo de novas experiências, de novos amigos e de tudo o que vida tem para lhes oferecer!Como não podia deixar de ser, o início do ano académico é sempre marcado pelas famosas “praxes”. Há quem as receba com um sorriso ou mesmo uma gargalhada, há quem não goste. Mas, é assim! Tudo faz parte!
Veteranos
Segundo Sérgio Simões, natural de Coimbra e actual presidente da Comissão de Veteranos da Universidade dos Açores, as praxes este ano “estão a correr muito bem. Tivemos uma boa adesão, cerca 260 calouros, mais 120 na segunda fase de candidatura”. Quanto ao programa de actividades, a quinzena do Calouro iniciou-se no Sábado passado com a recepção aos novos alunos, depois “tivemos no dia 6 a Procissão das Velas, a 9 o Baptismo e, no sábado seguinte temos o julgamento”. Já sem falar nas famosas “troops” ( de cada curso e uma mista no final ), onde se realizam os “jogos mais divertidos, como os matraquilhos humanos”. Além de que é a única actividade da praxe onde se pode praxar “fora do recinto académico”. Pelo meio, puderam ainda desfrutar de Karaoke no dia 7, realizado no Bar Académico e nos dias 8 e 9 tivemos festas na Universidade com entrada gratuita para os calouros”.As queixas dos calouros perante as praxes prendem-se mais com o “esforço físico. Eles vêm muito fraquinhos e não estão habituados a tanta flexão. Precisam de uma dietazinha e nós “tratamos-lhes da saúde”. Eles têm de ser bem tratados e nós zelamos pelo seu bem-estar físico – comenta bem disposto o presidente da Comissão.Falando na sua própria praxe, Sérgio Simões recorda que “foi muito mais “puxada” do que as deste ano. Há exageros em todos os anos, pois “há sempre quem sabe e quem não sabe praxar. Mas, eu adorei a minha praxe e há por aí calouros, que dizem estar a adorar”.Entre o que lhe disseram para fazer na sua praxe, o presidente da Comissão relembra que teve de fazer “um Striptease virtual para um poste, a ver se ele derretia e tive de praticar um acto sexual com uma salsicha como pena do meu julgamento”. Mas, comenta que foi “engraçado. O que mais gostei de fazer foram as troops, onde somos “praxados” à noite pela cidade fora”. O estudante de Coimbra defende ainda que “é onde se cria mais aquele espírito de união entre os calouros, pois eles unem-se e conhecem-se uns aos outros e aos seus próprios limites e ajudam-se entre si, tanto na praxe com na universidade. Acabamos por criar grandes amizades na praxe” – comenta Sérgio Simões com um sorriso.A praxe não é vista por todos os calouros da mesma maneira. Uns encaram-na como algo divertido, outros nem tanto. Para Sérgio Simões “tudo depende da maneira como o veterano “praxa””. Segundo o mesmo, a praxe deve ser feita como um “acto de integração do calouro”, de modo a criar união e amizade entre calouros e na relação com os veteranos também. Mas, lamenta haver sempre “alguém que exagera, acabando por haver calouros que acham que a praxe “não é nada de jeito””. Estes desistem ou “chegam ao fim da praxe com alguma raiva” e na sua vez de praxarem “vingam-se nos calouros que apanham”. Sérgio Simões defende tratar-se de um “ciclo vicioso”, daí a existência da Comissão, que tenta ao máximo “regular todas as actividades, para evitar excessos”- explica o veterano.Quem não adere às praxes sofre algumas penalizações. Apesar de não haver “grandes penalidades”. Não proíbem o uso do traje, pois este “pertence à Associação Académica” e é um “símbolo de todos os alunos da universidade”. A única desvantagem é que mesmo participando na bênção das pastas, “não podem “queimar fitas””. Uma ocasião de “tradição”, e de um “simbolismo total em que quando se acaba o curso vêm cá os “papás” ver os filhinhos queimar as fitas e “fartam-se” de chorar” – relembra Sérgio Simões.
O veterano conta ainda que são “exigidas” várias actividades aos novos alunos. Em termos de obrigações diárias, têm que “ir buscar os cafés, a comida, tirarem os tabuleiros das mesas na cantina”...Na praxe, propriamente dita, Sérgio Simões gosta de se “divertir ao mesmo tempo que o calouro”. Desde pô-los a “berrar” qualquer coisa, ou a “cantar à frente de toda a gente”. Chegaram a pôr os calouros a “fazer uma serenata às empregadas do Bar”. Também existe a praxe física, onde “fazemos perguntas e quando eles erram a resposta têm de fazer flexões”. São, normalmente, umas “vinte” de cada vez. Um pouco menos para as raparigas” – conta bem disposto o presidente da Comissão.O estudante de Coimbra revela também que tentaram este ano organizar o “jantar do calouro”, apenas com os veteranos e os calouros “que aderiram à praxe”. Mas, “é muito difícil arranjar um espaço para 200 pessoas jantarem”. Realizar o jantar na própria universidade “teria custos muito elevados” – lamenta Sérgio Simões.
No dia 8 do corrente, foram realizados “os Jogos de Praia, organizados pelos Serviços de Acção Social da Associação Académica”. Actividade “obrigatória, onde os calouros são levados para a praia e praticam um pouco de desporto, como volei, futebol, entre outras”.O presidente da Comissão chama a atenção ainda, para o facto de o único objectivo deste encontro ser o convívio. “Não vai haver praxe, apenas convívio. Além disso, as próprias faltas também são justificadas, para motivar os calouros a participarem” – explica o estudante de Coimbra.Quanto a histórias que acontecem durante as praxes, são muitas. Sérgio Simões revela a existência de “casalinhos de namorados” criados nas praxes.Um rapaz - já veterano –no seu ano de calouro apanhou “pena máxima”, dada aos calouros que “insultam os veteranos, recusam as praxes ou têm uma atitude desleixada, como era o caso”. Ele teve de ir para o lago da universidade (que é baixinho, a água dava-lhe pelos joelhos). “O calouro usava óculos e perdeu-os ao atirar-se para dentro do lago, porque escorregou” – relembra Sérgio Simões. Outra caloura, “não sabia nadar e estava aterrorizada e a gritar”- mesmo com a água pelos joelhos, por ter de estar dentro do lago!São inúmeras as histórias, que marcam o início de uma nova fase na vida dos estudantes.
Calouros
Os calouros, por sua vez, parecem estar a apreciar toda esta roda viva das praxes.“As praxes são um espectáculo”.
Segundo José Rui, “tem sido muito divertido”.Para este aluno de Biologia Marinha trata-se de “um meio de conhecermos pessoas novas”. Experiência que considera “mesmo muito estimulante”. O alentejano comenta ser “um tempo em que estamos divertidos, e não temos de nos preocupar em estudar”.José Rui, diz mesmo “as praxes são um espectáculo e estão a correr muito bem”. O calouro adianta ainda que, quando chegar à sua vez “também vou praxar”. Mas, contrapõe que esta deve ser feita “de maneira a que eles não se sintam postos de lado”. Pois, isso às vezes “acontece com alguns veteranos, mas é à parte. É um lado um pouco bizarro da praxe” - comenta.Quanto à sua vinda para os Açores, conta que “escolhi vir para aqui e era mesmo isso que eu queria”. Tanto que foi “a minha primeira opção de candidatura”. Já tinha estado cá há dois anos e achou a ilha “realmente, muito bonita. A natureza é um espectáculo”.
“Os Açores são os Açores”
André Medeiros, estudante de Biologia Marinha, veio para a região, porque “os Açores são os Açores. Não há que explicar. São estas ilhas espectaculares”.O estudante de Vila Real visitou o arquipélago já por diversas vezes e gostou.Além disso, conta que “tenho cá família e foi este o meu primeiro desejo”.Na opinião deste futuro biólogo, as praxes “têm corrido bem”. Manuel Medeiros confessa também que “estava com receio, devido a algumas histórias que ouvi, mas está a ser óptimo”.
“Tudo faz parte -Tudo é brincadeira”
Maria Irónia Tavares Rodrigues, natural de Ponta Delgada, tem gostado muito das praxes. “É muito divertido e além disso, conhecem-se imensas pessoas. As brincadeiras às vezes são um pouco esquisitas. Fazemos umas figuras, mas, tudo faz parte, tudo é brincadeira. A aluna de Psicologia afirma também que “vou praxar, só espero ser “suave” e não fazer brincadeiras estúpidas, mas não o têm feito comigo, por isso...”A actividade a que achou mais “piada” foi quando “levei com ovos na cabeça e na roupa”. A estudante de Ponta Delgada interpreta as praxes como algo “importante para a integração do aluno”. Mas, para Maria Rodrigues, estas “nunca podem ser um método de exclusão”. A futura psicóloga conta ainda, que “muitas vezes, os veteranos são um pouco exigentes” levando os calouros a sentirem-se “retraídos e excluídos”.
Tenho aderido às praxes
Por seu lado, Carolina, natural de Ponte de Lima e aluna de Medicina, afirma que as praxes “estão a ser boas”. A aluna de Medicina conta que “tenho aderido e não me têm prejudicado, mas não vou praxar muito quando for a minha vez”.Afirma ainda não ter “muito jeito”.

Raquel Moreira
Public, "Correio dos Açores", 2004.

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