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terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Rita Bonança desvenda-nos os segredos dos mais pequenos!

Ciúmes, “birras” e, por vezes, vocabulário menos adequado preênchem o dia-a-dia dos que cuidam do futuro deste planeta. Segundo Rita Bonança, a solução reside no diálogo e na compreensão!

AM – Nome Completo?
RB – Rita Margarida Carvalho Simas Bonança.
AM- O que a levou a seguir esta carreira?RB- Sempre gostei muito de crianças! Além disso, senti necessidade de me envolver com os mais novos. Sinto-me bem com eles até mais do que com os adultos. No fundo, as crianças é que são espontâneas, pois não estão tão estereotipadas. E é também uma maneira de, de alguma forma, tentar melhorar o mundo deles.
AM – Que comentários faz às crianças de hoje?
RB - Antes das crianças, penso que devemos falar dos pais, porque a educação inicia-se fundamentalmente no meio familiar e, muito do que a criança é hoje é um espelho da infância dos próprios progenitores, desde tenra idade, e da própria gravidez. Se esta foi planeada, aceite, assistida, calma e tranquila.O próprio comportamento da criança depende muito da atenção e carinho dispensados e das regras e costumes estabelecidos em casa. As escolas e creches não são os únicos agentes de educação. Temos também que ter em conta a família, a sociedade e todo o meio envolvente. Só assim a criança poderá ser, no futuro, uma pessoa autónoma capaz de exprimir os seus sentimentos, capacidades e motivações. Ela tem que sentir que existe um mínimo de regras para se sentir motivada, tendo em conta todos os conhecimentos que já adquiriu.
AM - O que se deve ou não fazer perante o uso de linguagem menos adequada?
RB- É frequente as crianças entre os 3 e os 5 anos usarem as chamadas “palavras feias” para chamar a atenção e desafiar a autoridade dos adultos, ou apenas para se armarem em engraçadas. Muitas vezes a criança ouve este tipo de linguagem na rua e em casa repete-a, não tendo o mínimo de consciência do que está a dizer. Mas também pode acontecer serem os irmãos mais velhos a usarem certos vocábulos menos adequados e aí a criança já começa a ter uma certa consciência. Além disso, torna-se necessário descobrir o motivo que a leva a ter este comportamento, porque só assim poderemos escolher a melhor forma de lidar com a situação. Perante estas situações, os pais, educadores e professores devem, tendo em atenção a idade do menor, explicar da melhor maneira que há certas palavras que não se devem utilizar. Outro factor importante no meio deste contexto é a sua reacção. Se não reagir aos “palavrões”, a criança provavelmente desistirá de os dizer, pois percebeu que não lhe consegue atingir. É igualmente importante elogiar a criança no caso de se aperceber que esta não utiliza este tipo de linguagem, tentando sempre verificar o que poderá estar a influenciar o seu vocabulário.
AM - Na sua opinião, como se deve lidar com as “birras” e teimosias próprias destas idades?
RB- A maioria das crianças entre os 2 e 5 anos faz birras de variados graus. Algumas podem ser prevenidas com preparação e cuidados, mas outras são inevitáveis. O importante é reconhecer o tipo de birra e com que frequência estas acontecem. Sim, pois o seu filho (a) pode já ter a noção de utilizar a birra como um meio de manipulação.Quando a criança está cansada, excitada e com fome pode sentir-se frustrada e explode. Mas esta pode também tentar manipular alguém para obter o que quer, gritando e batendo com os pés no chão. Depois de avaliar a situação, deverá alertá-la e fazê-la compreender que o seu comportamento não foi o mais correcto. Mas, às vezes, o melhor é ignorar a birra e a criança acabará por desistir. Trata-se de uma técnica que vale a pena tentar. Pode também expressar alguma empatia, sentando-se perto dela e sussurrando-lhe palavras calmas ao ouvido, até que esta se sinta melhor.
AM - É defensora de uma boa palmada na hora certa ou considera esta uma atitude anti pedagógica?RB- Como educadora, considero a palmada ou qualquer outra coisa que apele à violência como soluções anti-pedagógicas, que não se devem aplicar em situação alguma. Claro que, tal como os progenitores, o nosso trabalho é zelar pelo bem-estar da criança e estes devem confiar em nós. No caso de surgirem problemas em alguma instituição, os pais são chamados e alertados sobre o sucedido. Sim, pois o nosso objectivo é avaliar a situação da melhor maneira, se necessário com a ajuda de agentes especializados, para que a criança possa efectivamente alterar um pouco os seus hábitos e comportamentos.
AM - E a noção de “castigo”, em que idade é apreendida pelas crianças?
RB- É muito difícil precisar em que idade a criança entende o que é um castigo, pois cada caso é um caso. Mas esta apercebe-se de algo desde pequena, pois tem sensibilidade para isso. O castigo é uma consequência que causa na criança dor, humilhação e sofrimento. Esta é uma das razões que faz com que seja mais apologista de explicar porque é que certo comportamento é errado, não devendo ser repetido. Além disso, o termo por si só, já conduz a sentimentos de vingança e não de arrependimento. No caso de não resultar, podemos também estabelecer uma espécie de contrato e discutir a situação, fazendo com ela mesma reconheça que agiu mal, porque as crianças são muito rigorosas e exigentes consigo próprias neste aspecto e cumprem à risca o castigo em causa. Talvez por isso estejamos perante uma táctica que resulta quase sempre.
AM- O que nos pode dizer sobre o ciúme de um novo irmão?
RB- Todas as crianças desejam ser sempre o centro das atenções, o que faz com que, frequen temente, os filhos mais velhos reajam mal à chegada de um novo irmão. Quando isso acontece devemos dar-lhe também muita atenção, segurança e fundamentalmente incutir-lhe o sentido de responsabilidade, pedindo-lhe ajuda em pequenas tarefas, nas quais estes tratam do membro mais novo da família. Sem cair no erro de lhe fazer pedidos constantes, esta é uma boa maneira da criança se sentir útil e de adquirir auto-controle. Outro aspecto essencial é fazer com que a criança compreenda que o seu irmão nunca poderá tomar o seu lugar.
AM - E quanto às creches e jardins de infância, o que nos pode dizer sobre as condições que estes oferecem e quanto à sua legitimidade?
RB- Sei da existência de creches e jardins de infância com óptimas condições a nível de instalações, de espaço físico e com recursos humanos excelentes, mas também tenho conhecimento de que algumas creches não obedecem a alguns requisitos de segurança, nomeadamente quanto ao espaço físico, por criança, por metro quadrado. Estes serviços deveriam funcionar num único piso, pois muitas vezes as crianças em idade de creche encontram-se instaladas no primeiro andar e muitas delas não sabem andar, o que não seria muito benéfico na ocorrência de alguma catástrofe natural ou outra qualquer situação de perigo. Outros dois factores fundamentais são a existência de um espaço físico exterior, no qual as crianças possam exprimir os seus sentimentos e conviver umas com as outras, e casas de banho para crianças com necessidades educativas especiais. Cada sala deveria também dispor de uma educadora. O que nem sempre isso acontece, muitas vezes por motivos de ordem financeira, sendo estas substituídas por técnicas auxiliares.
AM- Que conselhos dá a quem queira seguir esta profissão?
RB- Uma pessoa para enveredar por esta carreira tem de gostar muito. Costumo dizer que não existem educadores perfeitos e se os há, não são educadores. A educação não parte de receitas nem de protocolos, mas sim da espontaneidade, atenção e bom senso. Cada criança é um caso e deve haver uma equipa consistente de educadores e psicólogos, que trabalhem em conjunto com os pais para avaliarem da melhor maneira os problemas que possam surgir.“(…) não existem educadores perfeitose se os há, não são educadores. A educação não parte de receitas nem de protocolos,mas sim da espontaneidade, atenção e bom senso”.

Ficha Técnica: Rita Bonança
Nascida em Ponta Delgada, a 15 de Julho de 1977, Rita Bonança formou-se na Escola Superior de Educação Almeida Garret, em Lisboa. Após o curso estagiou ainda no Colégio Manuel Bernardes e no Real Colégio de Portugal, dois estabelecimentos de grande prestígio na capital. Tendo concluído o curso em 2002, esta fã dos mais pequenos regressou à sua terra natal e iniciou a sua carreira no Centro Social e Paroquial de São Pedro, onde, logo no primeiro ano, ficou responsável pela coordenação pedagógica de três salas, perfazendo um total de 45 crianças com menos de dois anos. Depois de leccionar no “Ninho”, no Cabouco, esta optou por deixar as IPSS e enveredar pelo ensino público, pois, a seu ver, oferecia melhores condições de trabalho.Passando ainda pela Escola EB1/JI de Santa Clara, Rita Bonança encontra-se actualmente colocada na Escola Manuel Inácio Sousa na freguesia da Salga, Nordeste.Para além da sua actividade profissional, esta colabora também com a revista mensal “Educadores de Infância”, desde Setembro de 2004.LEGISLAÇÃOAlgumas normas essenciais- “ Os espaços destinados às crianças deverão desenvolver-se em piso térreo”.- É indispensável a existência de “ espaços de jogo ao ar livre”.- As salas de actividades devem ter “de 40 a 50 metros quadrados”, devendo ser ocupada por “20 a 25 crianças”, sendo a área por criança de “2 metros quadrados”.- As instalações sanitárias deverão ter “pelo menos 1 sanita com apoios para as crianças com dificuldades de locomoção”.Despacho conjunto nº 268/97 de 25 de Agosto.

Raquel Moreira
Public "Açores Mundo", Janeiro 2006.

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