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terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Santa Clara: um clube multifacetado

ALGUNS JOVENS DE FAMÍLIAS HUMILDESE O DESEJO DE VENCER, FORAM O SUFICIENTEPARA FAZER NASCER UM CLUBE TÃO ACARINHADO PELOS MICAELENSES: O SANTA CLARA!
O Clube Desportivo de Santa Clara nasceu a 31 de Janeiro de 1921, pelas mãos do Tenente José Joaquim de Sousa, António José Carreiro e João Travassos que decidiram reunir alguns rapazes de famílias humildes. Estes brincavam, nas chamadas “Pedreiras da Doca”, com a tradicional bola de trapos para distraírem os sócios, trabalhadores rudes.Como meio de financiar o clube, e sabendo não contar com a simpatia do público que via estas brincadeiras com alguma indiferença, o Tenente José de Sousa criou uma aula para ensinar os futuros desportistas, cobrando-lhes dois escudos e meio. O Dinheiro era investido na compra da bola e nos custos da equipa.Para que tenhamos uma noção das condições precárias nas quais nasceu o Santa Clara, o equipamento (tradicionalmente composto por camisola vermelha e calções brancos) eram os jogadores que traziam de casa. As primeiras camisas eram meias tingidas de vermelho, as primeiras peúgas de lã de Santa Maria e, as primeiras botas eram de couro de bezerro, com tacos de solas e tacões velhos encontrados, por vezes, no lixo perto do farol de Santa Clara.Até as primeiras bolas eram feitas com atacadores pesados, chegando a primeira bola de futebol aos Açores pelas mãos de um jesuíta do antigo Colégio Fisher.A própria sede começou por ser um quarto emprestado em Santa Clara, a que se seguiu a Escola da mesma freguesia, o Campo de São Francisco, a actual sede de Micaelense Futebol Clube e, finalmente, a sede que o clube tem hoje, na Rua Comandante Jaime de Sousa, em Ponta Delgada.Outra particularidade algo curiosa reside no facto de, durante muitos anos, a equipa ter sido constituída apenas por jogadores nascidos em Santa Clara. Os que de lá não eram, só podiam entrar para o Santa Clara casando com uma mulher desta freguesia e residindo na mesma.Apelidado primeiramente de “Santa Clara Futeball Club”, só em 1927 o Santa Clara adquiriu o nome, pelo qual é hoje conhecido.O clube ganhou em 1922 o seu primeiro campeonato distrital, organizado pela, então, Associação de Futebol de São Miguel e foi também agraciado com a medalha de Cobre da Cruz Vermelha Portuguesa, pelos serviços prestados às “Casas de Caridade” de Ponta Delgada, e com a medalha de Mérito Municipal pelos serviços à edilidade, ambas em 1999, sendo ainda considerado uma Instituição de Utilidade Pública.A maior transferência do futebol açoriano deu-se em Dezembro de 1999, quando o jogador Clayton foi vendido ao Futebol Clube do Porto por 360 mil contos, a verba mais elevada até hoje.Acontecimento que ninguém esquece e que marcou igualmente a história do clube, foi, sem dúvida, a sua subida à I Divisão na Época 1998-1999. No último jogo do campeonato da II Divisão de Honra (Santa Clara – Aves), Eurico marcou o golo decisivo, perante uma assistência recorde de 25 mil pessoas.O seu primeiro símbolo foi um leão em cima de uma bola. Só aquando da sua filiação no Sport Lisboa Benfica é que adquiriu o símbolo que ainda hoje mantém. O clube, que tem como lema “Mente Sã em Corpo São”, conta actualmente com 3760 sócios.
Paulino de Jesus PavãoPaulino Pavão é membro do Santa Clara sensivelmente há quinze anos e Presidente há cerca de seis ou oito. Como costuma dizer, “quando fazemos as coisas por paixão, é difícil contabilizá-las no aspecto temporal”. Lembra-se apenas que desde criança que é do Santa Clara, clube pelo qual nutre “uma grande paixão, e hei de sê-lo até morrer. Mas estar num cargo destes é uma tarefa muito desgastante”- confessa.A seu ver, a situação do clube, comparada à vida política e económica do país, não é “nem excelente, nem péssima”. “A crise é nacional, passa por todos e, os clubes não estão isentos”- acentua, reconhecendo que, mesmo assim, o Santa Clara pode dar-se por “feliz”, pois tem cumprido e honrado alguns compromissos prioritários. Outros estão atrasados, mas serão também honrados após a conclusão do plano de negócios que o Santa Clara já apresentou aos sócios. “E espero que isto se concretize em breve. Aí o Santa Clara ficará em muito boa situação”- revela ainda.Quanto à entrada na I Divisão, o presidente do clube regional afirma que foi sempre “um sonho dos Açores ter uma equipa nas Ligas profissionais. O Santa Clara conseguiu-o, naturalmente com um grupo de pessoas que não se pouparam a esforços e foram de uma extrema paixão e dedicação ao clube, tal como o apoio substancial do Governo Regional”. Mas reconhece não ser fácil estar numa Liga Profissional de Futebol, muito menos num clube que está numa Região como a nossa, no meio do oceano e longe dos grandes palcos de decisão do futebol.“Era um clube que não tinha grandes estruturas para permanecer na Super Liga. Estruturas estas que se vão-se construindo e triando no dia-a-dia, inseridas num processo que está sujeito a diversas oscilações, tal como acontece com outros clubes, e que temos de aceitar com naturalidade”- acrescenta.Referindo-se ás dificuldades com que se depara na administração do clube, Paulino Pavão afirma serem várias, reconhecendo ainda que “as de ordem financeira existem, mas por vezes deparo-me com aspectos ainda mais preocupantes, como quando se escolhe um bom grupo de trabalho, um bom treinador e isto não leva a nada de positivo”.O presidente do Santa Clara lembra ainda as diversas vertentes desta equipa regional, como a Formação, o Futebol Feminino, a Natação, o Ginmnico e o Hóquei Patins. “Poderíamos ter mais modalidades, mas seria necessário haver mais pessoas disponíveis para estarem à frente de cada uma delas, o que não é fácil encontrar”-lamenta.No que toca a projectos, Paulino Pavão enfatiza que “o maior e mais urgente” projecto do clube é, no momento, a construção do Centro de Treinos e Formação Desportiva.Luciano MeloPor seu lado, Luciano Melo, Presidente Adjunto (desde 2004) e Gestor de Negócios do Santa Clara, a situação financeira do clube está a “melhorar”, em função das medidas implementadas pelo plano de negócios, aprovado pelos sócios do Santa clara em Junho de 2004. “Ainda temos o passivo elevado, cerca de 13 milhões de euros, uma dívida de 11,3/4 milhões de euros, mas com os orçamentos equilibrados e com o desenvolvimento de um conjunto de projectos já em curso, pensámos que este passivo pode ser substancialmente reduzido ou até mesmo eliminado”. Aí o clube terá novamente capacidade para voltar a dispor, a nível do futebol profissional, de um orçamento “totalmente disponível” para afectar à equipa de futebol, pois a maior parte dos apoios recebidos é aplicada na redução do passivo e no serviço da dívida.A maior dificuldade do Santa Clara é, na sua opinião, “a gestão da dívida do clube”, que reconhece ser “elevada” e que lhes coloca “diariamente” processos de credores.“Os acordos com os credores, a gestão com a entidade bancária, que nos levou a uma consolidação do passivo e ao arrumar da casa a este nível, isso já foi conseguido”-revela, lembrando que os sócios também deram o seu parecer favorável em Outubro de 2005. Luciano Melo avança ainda que, no momento, dispõem de um processo de consolidação do passivo, que lhes permite “respirar bem”.“As maiores dificuldades radicam única e exclusivamente da gestão da dívida anterior a Abril de 2004”-acrescenta.Em termos de projectos, o clube dispõe de um processo na Câmara Municipal de Ponta Delgada, que se encontra já em fase final de apreciação. Trata-se de um pedido de informação prévia, para construção de algumas centenas de apartamentos, nos terrenos onde actualmente se situa o complexo desportivo de São Gonçalo.“Temos estado em conversações com o Governo Regional e com a Câmara Municipal de Ponta Delgada, para adquirirmos o respectivo terreno. Para isso, candidatamo-nos ao próximo Quadro Comunitário de Apoio, para a construção do nosso Centro de Treino e Formação Desportiva, que será patrocinado em larga escala pela Companhia de Seguros Açoriana”-explica, acentuando que o Centro “permitirá às nossas escolas, infantis, iniciados juvenis e juniores desenvolverem a sua actividade de Formação. Falamos de sete equipas, o que perfaz sensivelmente 150 atletas em prática contínua”.Segundo Luciano Melo, outro projecto do Santa Clara é a reformulação da sua publicidade, da publicidade estática e dos patrocínios, junto de uma empresa líder do mercado. “Começamos a desenhar o nosso plano de Marketing, para a próxima época desportiva, que irá contemplar algumas inovações”.Alguns retoques finais no site da equipa regional e a conclusão de um “acordo com a empresa que fornece os artigos desportivos ao Santa Clara, para comercialização dos produtos desportivos marca Santa Clara, são outros projectos do Santa Clara”- afirma, admitindo a existência de mais alguns projectos, que não sendo ainda do conhecimento dos sócios, não devem, por isso, ser divulgados.Quanto à renovação do plantel, o Gestor de Negócios do Santa Clara defende que,”enquanto a equipa não tiver definido o seu futuro na presente edição da Liga de Honra, não iremos pensar no seu reforço. Irá depender de onde nos situarmos no final da época”-esclarece, acrescentando ser algo “prematuro”, reflectir agora sobre o reforço da equipa para a próxima época.“Claro que temos sempre jogadores referenciados, para qualquer posição. Quando temos necessidade de novos jogadores, sabemos onde estão aqueles que o clube consegue adquirir. Falo de adquirir o direito económico-desportivo deste atleta a custo zero, pois o Santa Clara jamais irá adquirir, o que vulgarmente se conhece como ‘Passe’, pois não tem condições financeiras para isso”.As outras vertentes do Santa ClaraRelativamente à Formação de Futebol, Luciano Melo afirma ser uma área “muito importante” no clube, na qual o investimento foi de “mais de 75 mil euros”. O objectivo é “aumentar o montante”, mas para que isso aconteça é fundamental que o Centro de Treinos e Formação Desportiva esteja concluído. “Aí teremos boas condições de trabalho, para que possamos falar a sério de Formação Desportiva”-acentua.Segundo o Gestor de Negócios do clube, neste momento, há uma “grande colaboração de dirigentes e pais de atletas, com o coordenador e todos os treinadores” da área, que têm a seu cargo as tarefas de formação dos jovens futebolistas do clube.Referindo-se ao futuro, Luciano Melo afirma estar “convicto” de que, quando o clube puder dispor dos seus próprios relvados virtuais e sintéticos, “iremos ter uma maior capacidade para formar jogadores de qualidade, que nos possam ser úteis na equipa de futebol profissional”.O Gestor de Negócios do Santa Clara aproveita ainda a ocasião para lembrar que, “qualquer jovem com sete/oito anos pode procurar as nossas escolas e fazer parte das nossas equipas de escolas e, mais tarde, juntar-se-á aos infantis e prosseguirá o seu caminho até aos juniores. Depois, se tiver valor suficiente para competir a nível do futebol profissional, será integrado no plantel sénior. Caso isso não aconteça, há um conjunto de equipas açorianas a beneficiar da série Açores na II Divisão B, um muito bom trabalho desenvolvido nos nossos calouros da formação”- explica.No que diz respeito ao Gimnico ( que se encontra sob a gerência de um membro do clube, Luís Raposo), Luciano Melo lembra que este passou por um período de recuperação física das instalações que estavam “bastante deterioradas”, necessitando de uma remodelação bastante profunda no verão de 2005. Além disso, o Gimnico está num processo “crescente” de novos sócios e utilizadores, havendo também uma outra situação que está a ser estudada e que permitirá trabalhar na “recuperação” dos atletas e de outros cidadãos. “Estamos a procurar maximizar as receitas de uma infra-estrutura que ainda há bem pouco tempo era bastante necessitada, em todas as suas valências”- enfatiza.Quanto ao Futebol Feminino, afirma ser uma actividade de “recriação”, pela qual têm “muito carinho”. O Gestor de Negócios do Santa Clara lembra ainda que já foram campeões de São Miguel, acrescentando que o investimento nesta área é “estritamente necessário” à manutenção da equipa. “Só temos que agradecer a disponibilidade, o voluntariado que existe à volta da equipa de futebol feminino”.No que diz respeito ao Hóquei Patins, o objectivo é “manter a equipa na II Divisão Nacional”, o que admite não estar a ser fácil.Luciano Melo acrescenta ainda estar “convencido” de que, no final da época estarão novamente preparados para garantir a permanência da equipa na mesma posição, participando, no próximo ano, em mais um campeonato. Campeonato que, “para nós, é o máximo que poderemos atingir. Não temos condições para deslocar para este departamento meios financeiros capazes de sonhar com uma subida à I Divisão. Não temos esta disponibilidade”- confessa.

Raquel Moreira
Public in "Atlantida Magazine, Mar. 2006.

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