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terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Teatro Micaelense: de Convento a Centro de Congressos

O Teatro Micaelense reabre a 5 de Setembro como Centro Cultural e de Congressos, após obras de remodelação orçadas em 8 milhões de euros. A inauguração, propriamente dita, terá lugar a 17 de Setembro com a actuação do cantor lírico espanhol José Carreras.O edifício que funcionou como sala de cinema da maior cidade açoriana durante décadas, passará a anfitrião de congressos, reuniões, exposições e espectáculos de teatro e ópera, após ter estado em obras desde Agosto de 2003.A sala de congressos dispõe de 830 lugares (também adaptados para deficientes motores), sala de ópera e teatro. Haverá ainda espaço para exposições, reuniões e áreas específicas para tradução simultânea, régie, bar e camarins.O objectivo do projecto encomendado pelo governo açoriano e desenhado pelo arquitecto Rodrigues Lima - responsável também pelo Monumental em Lisboa – era o de manter as características arquitectónicas do edifício.
FUTUROS PROJECTOS PARA O CENTRO DE CONGRESSOS
Em Setembro do próximo ano a cidade de Ponta Delgada acolhe, pela primeira vez em Portugal, o Congresso Internacional de Genética Forense. O evento tem a duração de seis dias (entre 12 e 17 de Setembro) e contará com a presença dos maiores especialistas e investigadores mundiais na área. Esperam-se à volta de oitocentos participantes no antigo Teatro Micaelense.“A atribuição da organização a Portugal é o reconhecimento internacional pleno do elevado nível científico da genética forense portuguesa, pois havia outros países interessados” disse o presidente do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML), entidade encarregue da organização em acção conjunta com o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP).No parecer de Duarte Nuno Vieira, trata-se do congresso mais importante e de maior prestígio científico, no qual alguma vez já participou o INML com excepção do Congresso Mediterrânico de Genética Forense.Pela primeira vez, será feita abordagem à genética aplicada à patologia forense. O sindroma da morte súbita poderá também ser explicado, através do estudo dos marcadores genéticos. Para além destes, temos ainda temas “tradicionais” como a investigação da paternidade, criminalística, o cromossoma Y, mutações pontuais, genética de populações, ADN mitocondrial entre outros.Este é um dos vários eventos que terão lugar no novo Centro de Congressos de Ponta Delgada.Há já muito tempo que a cidade estava a precisar de um espaço desta natureza. Resta-nos apreciá-lo e dar-lhe o devido valor. Espectáculos, ópera, bailados, exposições; são muitas as hipóteses.A cultura veio para ficar.
O PRIMEIRO TEATRO MICAELENSE
A 28 de Dezembro de 1856, a Sociedade dos Amigos das Letras e Artes aprovou a proposta de edificação do Teatro Micaelense na área das ruínas da Igreja de S. José. Na primeira reunião de accionistas em 1859, segundo Francisco Maria Supico, em as “Escavações”, alguns cidadãos de Ponta Delgada apresentaram então a “ideia grandiosa e altamente civilizadora” da construção do teatro. Ainda no mesmo ano, chega de Lisboa o plano para o grande teatro de Ponta Delgada, sendo também aprovados os estatutos da sociedade gestora do mesmo. Dois anos mais tarde, tem início a demolição das referidas ruínas, terminando as obras a 30 Março de 1864. A 2 de Junho é dado um concerto no salão.Curiosamente, segundo Francisco Maria Supico, Ponta Delgada foi a primeira terra portuguesa em que se cantou ópera com LIBRETTO português, por vozes locais e composta na cidade para na mesma se representar a “Hayde”.Depois, este passou a ser onde é hoje o jardim Sena Freitas. Mas, após um grande incêndio em 1929, o edifício ficou em ruínas. Veio a crise bancária, seguida da dissolução da “Sociedade do Teatro Micaelense” e surgiu, então o referido jardim.No verão de 1946, Ponta Delgada recebeu a visita de Santos Costa, Ministro de Guerra. Desde uma reunião da Câmara Municipal realizada a 11 de Fevereiro, que circulava já a ideia de pedir autorização para construir um novo teatro no antigo Convento de S. João – utilizado como quartel durante a 2ª Guerra Mundial. Assim, depois da passeio do Ministro pela cidade, o Governador, Aniceto dos Santos aproveitou a ocasião para fazer o pedido a Santos Costa. O antigo edifício teria de ser demolido, para dar lugar à nova estrutura. Perante as razões que lhe foram apresentadas, o Ministro de Guerra propôs-se logo a tratar da transferência daquele serviço militar para o antigo Hospital Militar dos Arrifes e da respectiva cedência do edifício, propriedade do Ministério de Guerra. Libertos o terreno e o edifício, o referido Ministro entregou-os à Câmara Municipal, que por sua vez cedeu-os à “Sociedade Teatro Micaelense”, que se havia erguido novamente e deu início às obras. Também de realçar na actividade de construção do Teatro Micaelense, foi a preciosa colaboração dos “Carregadores Açorianos”, que sugeriram a construção de um novo Teatro na cidade. Nomeadamente, de Luís Tavares, Director-Delegado.Quatro anos depois, o teatro abre as portas ao público. Um elemento de valor na vida cultural da cidade e que, testemunharia às gerações vindouras a época de prosperidade que se vivia e o espírito de iniciativa das entidades particulares já mencionadas, apoiadas pelos poderes públicos.
INAUGURAÇÃO DO TEATRO MICAELENSE
A 31 de Março de 1951, a partir das 20 horas, quem estivesse no Largo de S. João podia calmamente observar várias filas de carros vindas de todas as direcções, para assistir à inauguração do Teatro Micaelense. O programa incluiu para além da sessão solene, um espectáculo, baile e outras homenagens.Subiu o pano! No palco estavam o Conselho de Administração dos Carregadores Açorianos, o Conselho Fiscal, um Delegado do Governo, a Direcção da “Sociedade Teatro Micaelense” e empregados da companhia armadora. Seguiram-se os discursos do Director-Delegado Francisco Luís Tavares e do Governador Civil Ângelo Casimiro.Curiosamente, até o Senador Herbert H. Lehman, antigo Governador do Estado de Nova Iorque e grande figura política norte-americana, tendo conhecimento da inauguração do Teatro Micaelense telegrafou a José Bensaúde, congratulando-se pelo evento.
O HOMEM DO TEATRO
Quando se fala do Teatro Micaelense, torna-se quase impossível deixar de mencionar o nome de Santos Figueira (nasceu a 14-9-1922 e faleceu a 19-12-2003).António dos Santos Figueira foi durante toda a segunda metade do século XX, um dos mais conhecidos promotores de teatro e cinema em S. Miguel. Responsável na ilha pela empresa proprietária do Teatro Micaelense, foi figura de destaque em todos os espectáculos ali realizados, definindo também os filmes a exibir. Junto com Teófilo Frazão e Victor Cruz, organizava ainda os conhecidos e afamados Bailes do Coliseu, por alturas do Carnaval.O advogado Melo Bento descreve-o brevemente aos microfones da Antena 1, como um “Homem que colocava um entusiasmo incrível em tudo o que fazia. Trazia o que havia de melhor para S. Miguel, com um calendário de filmes que encantaram a minha geração, mas também espectáculos de teatro, aplicando valores e ordem em tudo o que promovia”.
Raquel Moreira
Public, "Correio dos Açores", 2004.


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