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terça-feira, 29 de abril de 2008

Teatro: Almeno Gonçalves Uma grande "crise" no Teatro

O teatro está a atravessar uma “crise profunda” e as entidades competentes têm de agir, para não perdermos este importante veículo de “cultura humana”, que junta na mesma sala pessoas de todas as idades e mentalidades, em espectáculos que, de uma maneira ou de outra, as marcam para sempre em questão de horas.
Natural de Braga, Almeno Gonçalves foi para Lisboa aos 21 anos e lá ficou, depois de ingressar no mundo do teatro, no qual se mantém até hoje em paralelo com a televisão e o cinema.

Almeno Gonçalves, António Melo, Joaquim Nicolau e Fernando Ferrão, conhecidos actores dos Malucos do Riso, vieram a Ponta Delgada apresentar a comédia A Crise dos 40. Segundo Almeno Gonçalves, trata-se de uma versão adaptada de uma comédia do original espanhol La Curva De La Felicidad, da autoria de Eduardo Galán e Pedro Gómez, que conta “a história de um homem, cuja mulher o deixa e troca por outro”. A casa dos dois é posta à venda, porque ela quer a sua parte. Surgem, então, três compradores na mesma situação do que ele, e acabam por ficar a viver os quatro, pois “vivem uma situação semelhante”.
“É uma abordagem à problemática, que é ficarmos a viver sozinhos, neste caso separados das mulheres, aos 40 anos de idade, uma altura dramática” - esclarece.
A ideia, revela, partiu do encenador Celso Cleto, que no início queria encenar a peça em Madrid, mas os quatro actores queriam fazer algo em conjunto. Celso Cleto sugeriu a peça, “nós gostamos e resolvemos pô-la em palco”.
Um divertido espectáculo, que já percorreu mais de 40 cidades, um pouco por todo o país, tendo sido já aplaudido por mais 47.000 espectadores.
Avança ainda que já há uma alteração “muito grande”, em relação ao espectáculo inicial, pois houve uma série de “propostas, que foram surgindo por parte dos actores”. Para ter uma ideia da mudança, “o espectáculo estriou com cerca de uma hora. Neste momento, tem quase 3 horas e está quase há dois anos em palco”- acrescenta.
Nascido numa freguesia de Braga, Concelho de Cabeceiras de Basto, Almeno Gonçalves foi para Lisboa com 21 anos, para “fazer o curso de teatro da Comuna”, onde ficou até hoje.
Diz gostar muito de fazer, tanto teatro como televisão, pois o teatro faz parte da sua vida, desde que é profissional, mas também fez sempre cinema e televisão “paralelamente, mais televisão do que outras coisas”-admite, salientando gostar “muito” de representar e serem duas coisas completamente distintas.
O actor aproveita para distinguir o teatro da televisão, afirmando que este tem uma “exigência na preparação, que é impossível ter com uma novela”, devido ao “ritmo de gravação”.
Além das “possibilidades que a televisão tem do ponto do vista técnico, de se poder organizar as coisas, no sentido de extrair o melhor que se faz naquela cena, no teatro não é possível. Temos uma cena apresentada tal qual foi ensaiada e preparada e é um plano geral”.
Por outro lado, na televisão, muitas vezes uma cena pode ser dividida em 2 ou 3 takes e estes, depois, são “montados de maneira diferente”.
“Há um aspecto mais artesanal ligado ao teatro, que a televisão não tem” - reconhece.
Abordando a evolução das telenovelas portuguesas, o actor defende que estas percorreram já um longo caminho, desde os Jardins Proibidos, que, em 1995, foi a “primeira telenovela portuguesa a destronar uma brasileira”, concretamente, evidência, com a liderança da TVI, que tem sido a “grande impulsionadora” das telenovelas portuguesas.
De facto, têm havido “melhorias muito grandes”, podendo as telenovelas portuguesas ser equiparadas às brasileiras, “em alguns aspectos”.
O teatro “continua em crise”, lamenta, mencionando a crise “profundíssima” que existe no teatro. “Mas desde que me conheço, que ouço dizer que a crise está associada ao teatro”, o que a seu ver acontece, porque não temos, desde novos, o “hábito” de ir ao teatro.
Segundo Almeno Gonçalves, “o teatro é um bocadinho feito por pessoas com grande amor, porque é algo muito exigente”. Por outro lado, caracteriza os espectadores como pessoas que por alguma razão foram ao teatro, “gostaram e continuaram a ir, ou vão muito particularmente a certos tipos de espectáculo, que têm grande público”.
O actor aproveita a ocasião para fazer um alerta ao país, afirmando haver um trabalho “muito grande a fazer por parte das entidades responsáveis, porque o teatro é essencial à cultura humana”. Este reconhece ser um trabalho que têm vindo a fazer, mas refere-se a algo mais “específico e bastante mais melhorado”, para que possamos ter um teatro “mais dinâmico, mais interventivo e mais contemporâneo e para que os nossos jovens tenham muito gosto em ir ao teatro também”.
Referindo-se às faixas etárias que mais vão ao teatro, afirma que este é essencialmente frequentado por “mulheres e por jovens, porque as mulheres são mais sensíveis a este tipo de veículo artístico”. Por seu lado, os jovens têm uma “disponibilidade muito grande, porque estão ansiosos por ver, conhecer e sentir algo novo e por isso têm uma grande ligação ao teatro”. As mulheres acabam, depois, por “trazer os homens atrás, que lhes fazem companhia”- aponta, dizendo falar de pessoas “de meia-idade”.
No caso da crise dos 40, como é um teatro “mais ou menos generalista, não é específico, nem voltado para um certo tipo de público”, afirma ter um público muito “diversificado, que vai desde os jovens até às pessoas mais idosas que, com muita regularidade” vão ao teatro.
O actor revela também que, actualmente, o projecto em televisão que lhe dá mais prazer é “a telenovela que estou a fazer, intitulada A Outra, que tem tido um grande êxito e dá-me muito gozo fazer”.
Em teatro, diz adorar O Dia do Pai, que é a próxima produção que estão a preparar, para estrear “a 8 de Maio”, no teatro Mundial, onde ficará até “Setembro, mês em que se inicia a tournée”. Por isso, sente-se “perfeitamente realizado” a este nível.
Em termos de projectos, lembra O Dia do Pai, que classifica como uma comédia “moderníssima, tanto do ponto de vista da temática, quer a nível da construção do próprio espectáculo”. Esta, conta, passa-se numa clínica de inseminação artificial, onde três homens, completamente diferentes a todos os níveis, são convocados para um deles ser o pai da criança de uma mulher que, tendo namorado com os três em alturas diferentes da sua vida, acha que cada um deles reúne as condições, para ser pai do seu filho e deixa isso ao cuidado deles. Eles, por sua vez, pensam que é para fazer um teste de paternidade.
No fundo, é uma reflexão sobre “as razões que levam os homens a quererem ser pais”, pois nas mulheres, esclarece, é “evidente a existência de um apelo constante”. Nos homens, isso já não acontece, “não se sabe” - admite.
Há muitas razões, que são levantadas na peça com as diferenças de cada um, num tom de comédia, numa “situação divertida, mas que ao mesmo tempo levanta questões que são muito actuais. A própria questão da inseminação artificial é um tema ainda muito pouco abordado, daí o interesse do texto”- conclui.

BIOGRAFIA

O actor e encenador Almeno Gonçalves nasceu, em Braga, no ano de 1959, e foi casado com a actriz Rita Salema, da qual tem uma filha, Francisca.
Iniciou-se no Teatro de Pesquisa da Comuna, onde se formou como actor, tendo sido dirigido por
João Mota em espectáculos como Má Sorte Ter Sido Puta, de John Ford ou Um Eléctrico Chamado Desejo, de Tennessee Williams.
Continuou a trabalhar em teatro, passando pelo
Teatro Experimental de Cascais, Teatro Nacional D. Maria II ou Teatro Aberto, tendo estado em palco ao lado de figuras como Luís Miguel Cintra, Christine Laurent e Luís Assis no Teatro da Cornucópia onde interpretou, entre outros, peças de Beaumarchais, Francisco de Holanda e William Shakespeare. Como encenador, dirigiu espectáculos de Wedekind, Abel Neves, Jaime Rocha, Camilo Castelo Branco ou Raymond Dutherque.
Almeno Gonçalves é também um actor regular na televisão, participando em séries e novelas, como em Os Malucos do Riso ou A Ilha dos Amores. No cinema participou nos filmes Zona J e Um Tiro No Escuro, de Leonel Vieira
, Debaixo da Cama, de Bruno Niel, e Uroboro, de Luís Gomes.

Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Abril de 2008.



UMA FORÇA !!

Todos os anos, vemos várias pessoas a percorrem as ruas da cidade, de joelhos e carregando sírios, na procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Para além da óbvia fé, da vontade e do desejo de cumprimento das promessas feitas por doença de familiares, ou outra qualquer desgraça que se abate sobre as famílias, há algo mais que as move, que as motiva e, sobretudo, que lhes dá força para fazerem todo o caminho, chegando ao fim cheias de feridas nos joelhos. É nessas alturas, que até os menos crentes têm de ‘dar o braço a torcer’ e reconhecer a existência de uma força superior que nos guia. Uns chamam-lhe Deus, outros não, a verdade é que ela existe.
E cada vez que olhamos para a natureza ou que pensamos no milagre da concepção somos ‘forçosamente’ conduzidos a acreditar na existência deste poder sobrenatural, que nos transcende a todos e ao qual recorremos todos, nem que seja uma única vez na vida, chamando-o ‘Meu Deus’ ou algo parecido. Infelizmente, o ser humano funciona assim. Muitas vezes, afirma não acreditar em nada, mas na chamada ‘hora de aflição’ dá por si a chamar por Aquele que lhe deu vida.
Acreditar, acreditamos todos, mesmo quem, por vezes, diga o contrário. Resta saber, que nome dão à força que os impele para seguir em frente, seja na procissão ou ao longo da vida.
Olhando para as diferentes capas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, já pararam para pensar quantas histórias contam cada uma das lindas jóias que as ornamentam? Quantas vidas envolvem cada brilhante e cada sinal de luz escondido por entre todo aquele ouro, prata e restantes materiais? Quantas famílias estiveram ‘à beira’ de perder um ente querido e vieram depois agradecer tal tragédia não ter acontecido nas suas vidas? E, acima de tudo, quantos crentes doaram os seus pertences apenas por devoção, por fé?
Cada vez que olhamos para a procissão, ou para a imagem do Senhor Santo Cristo, se cada uma daquelas peças falasse, seria infindável o número de histórias, de alegrias e de tristezas que estas teriam para contar. Seria um emaranhado de vozes, imperceptível a quem as quisesse conhecer a todas. São anos de vida, anos de histórias de açorianos, e não só, que todos os anos caminham pelas ruas da cidade, para serem vistos e admirados pelos locais e também, em grande escala, pelos emigrantes que propositadamente se deslocam a São Miguel, por altura das festas. Matar saudades da terra e rever a família são os motivos de que mais se ouve falar, mas o facto é que o mês de Maio é quase sempre o escolhido para voltarem às suas origens, durante anos a fio.
As festas são imperdíveis para os seus corações, tal como as lágrimas lhes escorrem pela cara ao fim da tarde de domingo, enquanto ouvem o maravilhoso hino desta divindade. Uma música com poderes nunca vistos, uma música que nos faz pensar e repensar na nossa vida, olhar para trás e desejar, bem no fundo, que tudo melhore. É nesta altura, que nos apercebemos do real valor da vida e da importância de estarmos vivos, sem sequer nos lembrarmos de coisas que, em outra altura, muitas vezes nos preocupam e ocupam o dia inteiro. É nesta altura que queremos dizer a alguém (seja quem for) ‘gosto muito de ti e tenho medo de não o conseguir dizer antes de nos deixares. Muitas vezes, o orgulho, próprio da raça humana, impede-me de o fazer, o que não significa que não o queira’. E quando tal acontece, quando essa pessoa nos deixa para partir para ‘muito longe’, aí arrependemo-nos de nada termos dito e lá vamos vivendo, um dia após o outro, tristes, na esperança de que esta pessoa soubesse o que nos ia no coração. Vencer uma luta ou uma discussão, torna-se imensamente insignificante perante toda a plenitude de, como disse o filósofo Sócrates, constatarmos que nada sabemos. É ao descobrir esta verdade, que ficamos a saber tudo, pois termos consciência da nossa pequenez em relação ao Divino, é meio Caminho para lá chegar.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Abril 2008.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

JOÃO DE MELO: Um açoriano que foi longe

Desde finais dos anos 60 que João de Melo nos encanta com as suas obras literárias. Gente Feliz com lágrimas e O Meu Mundo não é Deste Reino são uma pequena amostra deste escritor micaelense.
Os leitores, “foram eles que mudaram a minha vida por um livro, Gente Feliz com Lágrimas, sem que eu o esperasse”.

T.N.- Está há algum tempo afastado da sua terra natal. Até que ponto é que nascer numa ilha ainda influencia a sua escrita?

J.M.- A distância enche-nos de algumas saudáveis nostalgias (difusas, algo indefinidas), e estas são como que o alimento moral da minha escrita. Não distingo entre a distância geográfica e a outra, a temporal. Os livros podem ser uma forma compensatória de regresso, talvez na busca da completude psicológica ou espiritual que não encontro neste mundo grande por onde ando. Escrevo sempre a partir da periferia, a partir de um território de fronteira que me ajuda a melhor compreender o centro e o todo – Portugal.

T.N.- Acompanha o que se produz nos Açores, em especial no campo da literatura? Tem algum escritor de eleição na Região? Nacional e estrangeiro?

J.M.-
Tento manter-me a par do que se escreve e publica, tanto dentro como fora dos Açores, bem entendido. Beneficio do facto de ser amigo de um número apreciável de escritores açorianos, com quem mantenho relações de amizade quase fraterna. Recebo os seus livros, leio-os. Alguns fazem mesmo parte do meu núcleo restrito de amigos, como acontece com Fernando Aires, que muito prezo e admiro.
Os Açores são um território de talentos literários, como se sabe. Basta lembrar os nomes de Gaspar Fructuoso, Antero, Teófilo, Nemésio, Mesquita, Natália e o meu particularmente saudoso amigo Emanuel Félix. É preciso atender à obra de escritores como Dias de Melo, José Martins Garcia, Cristóvão de Aguiar e outros. É impossível nomeá-los a todos, incluindo os mais novos, como a Judite Jorge, o Eduardo Bettencourt Pinto, o Joel Neto, etc.
Repare, publiquei uma “Antologia Panorâmica do Conto Açoriano” em 1978, fiz crítica literária, colaborei bastante em suplementos culturais com Carlos Faria, Álamo Oliveira, J.H.Santos Barros, Emanuel Jorge Botelho, Urbano Bettencourt, Onésimo Teotónio Almeida, Daniel de Sá, Adelaide e Vamberto de Freitas. Eles são a minha geração dos Açores. Mas pertenço também a uma outra geração no Continente: entrei na onda narrativa dos anos 80, que trouxe para a literatura nomes como António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Lídia Jorge, Teolinda Gersão, Mário Cláudio, José Saramago e uma quantidade imensa de outros – romancistas, poetas, etc. Sou, em alguma medida, produto literário dessas duas margens, de dois mundos verticais (um rural, outro urbano), e sinto que consigo ouvir o coração do mundo na dupla sintonia daquilo que escrevo. Mas os meus mestres moram noutras casas. Não fui influenciado nem por Nemésio (que foi, aliás, um mestre sem discípulos entre nós), nem por nenhum desses que nomeei. Ninguém teve melhor mão em mim do que o discurso bíblico, os livros de Eça de Queirós, Fernão Lopes, Mendes Pinto, Camões, Pessoa e Nuno Bragança. Não sei qual foi o melhor livro que li até hoje – mas frequentei os franceses (Stendhal, Flaubert, Baudelaire), os italianos (Lampedusa, autor de “O Leopardo”, Moravia, Dino Buzzati, Tabucchi), os russos (Dostoievsty, Tolstoi, Gorki, etc.), o checo Franz Kafka, que veio a ser crucial na minha viragem interior, os ingleses (Virginia Woolf, absolutamente genial), os norte e latino-americanos (Julio Cortázar, García Márquez, Roa Bastos, Alejo Carpentier) e os espanhóis: penso que Miguel de Cervantes, autor de “Don Quijote”, é um dos maiores génios literários da humanidade, a par dos clássicos antigos.

T.N.- Qual a obra que, até hoje, lhe deu mais prazer escrever? Porquê?

J.M.- Hesito sempre entre o meu livro de viagens “Açores, O Segredo das Ilhas” e o romance “O Meu Mundo Não É Deste Reino”, que acaba de publicar-se em Espanha juntamente com a novela que lhe dá sequência, “A Divina Miséria”, e que completa a minha trilogia açoriana. “O Meu Mundo Não É Deste Reino” fez de mim um “escritor” – dando-me a posse de um universo imaginário próprio e de uma linguagem criada para ele: barroca e musical. Nunca mais senti a necessidade de procurar fora de mim nem esse mundo nem essa linguagem. Mesmo o livro seguinte, o meu romance sobre a guerra em Angola, “Autópsia de Um Mar de Ruínas”, colhe parte da sua energia narrativa no mesmo movimento de descoberta de uma linguagem personalizada, reconhecível, só minha.

T.N.- Em contrapartida, publicou algum livro que, a seu ver, não transmitisse mesmo a mensagem que queria passar?

J.M.-
“O Homem Suspenso” conheceu apenas três edições, talvez tenha ficado aquém das minhas expectativas de público. Também esperei ter mais leitores para “Açores, o Segredo das Ilhas”, o tal livro de viagens que escrevi com a intenção de “actualizar” o olhar de Raul Brandão sobre “As Ilhas Desconhecidas”, que continua a ser o texto clássico, a par de “Mulher de Porto Pim”, de Antonio Tabucchi, dessa literatura de viagens. Mas esse meu livro teve a desvantagem de ser editado em álbum ilustrado e a um preço porventura excessivo. Não chega às mãos dos seus destinatários. Vamos tratar de o devolver a uma edição popular, porque acredito ser uma boa narrativa da paisagem física e social dos Açores.

T.N.- Neste momento, o que está a escrever? Pode levantar a ponta do véu?

J.M.- Um livro de contos e um romance muito grande, talvez maior do que o “Gente Feliz com Lágrimas”, que este ano comemora 20 anos de edição. É cedo ainda para falar deles. Não têm título, são apenas crias que mal se têm de pé. Acredito que vão ser os meus melhores livros, e que um e outro me ajudarão a regressar a Portugal quando deixar a Espanha e retomar os passos que fui perdendo na literatura portuguesa contemporânea.
Mas quem somos nós para fazer prognósticos? Devemos ter a humildade de reconhecer que só aos leitores compete ter a palavra. Foram eles que mudaram a minha vida por um livro, “Gente Feliz com Lágrimas”, sem que eu o esperasse. Ainda bem que existe esse lado imponderável quanto à sorte e ao destino dos livros. Se assim não fosse, os escritores tornavam-se nuns seres calculistas, frios, contabilísticos (que os há por aí, mas não lhes dou credibilidade).

J.M.- Costuma dizer-se que qualquer um pode ser artista? Na sua opinião, o que distingue o verdadeiro artista nos dias de hoje?

J.M.- As pessoas em geral sabem isso, não precisam que seja eu a dizê-lo. Nas artes plásticas, por exemplo, as coisas estão à beira do limite extremo e até da negação do objecto artístico essencial. A espectacular recuperação da fotografia e do vídeo para o campo da criação artística pode significar que a pintura e a escultura entraram já na derradeira encruzilhada (o Surrealismo é porventura o último movimento criativo puro), e que em breve se iniciará o caminho do regresso a um novo classicismo, a um segundo renascimento.
Sentimos em redor, com poucas excepções, a ideia da decadência e do fim dos novos tempos. A decadência chegou também à música, à escultura, e até à poesia, e não apenas às artes plásticas. O único discurso que se tem mantido vivo e ascensional parece-me ser o narrativo. Mas também tem sido alvo de muita perversão por falsos escritores e por traficantes de prosa que só geraram falsos leitores. A crise da literatura seria também uma crise de leitura, que se deve ao facto de vivermos num tempo que aposta na negação dos valores éticos, sociais, ideológicos que sustentavam a ideia de cultura).

T.N.- A crítica costuma ser simpática!? Já teve comentários que lhe surpreendessem?

J.M. - Já tudo me aconteceu, do melhor ao pior, pelo que me considero vacinado e até imune tanto ao licor como ao veneno dos críticos. Não devo queixar-me. Tive a sorte e o azar de receber prémios, de ser lido por meio milhão de portugueses, de estar traduzido em 10 países. Tudo isso me foi escondendo por detrás de um arquivo monstruoso (sobretudo algo caótico) de críticas, opiniões, cartas, etc. Fizeram-se dezenas de teses sobre alguns dos meus livros que fazem parte de um espólio, um património que por enquanto não quero ver separado da minha biblioteca pessoal, mas que um dia terá de ser catalogado a preceito, antes de lhe dar um destino final. Recebi cartas magníficas de escritores como Ferreira de Castro, Assis Esperança, Miguel Torga, Fernando Namora, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires e outros. Nunca tive uma crítica desagradável em nenhum dos países onde tenho livros traduzidos. Talvez devesse ser estrangeiro também em Portugal.

T.N.- A sua literatura, está marcada pela sua participação na guerra colonial angolana e pela sua vida nos Açores. Qual a relação entre a ficção e a realidade?

J.M.-
Nós somos a geração que tudo viveu e que acerca de tudo escreveu. Fomos educados no seio de uma ditadura rural e eclesiástica, estudámos pelos chamados “livros únicos” do regime salazarista, fomos à guerra colonial sem termos nada a ver com África, regressámos a tempo de assistir ao golpe-de-estado, à revolução, à chamada transição democrática e ao regresso de Portugal à Europa. Seriam motivos bastantes para justificarem os nossos actos criativos. Depois, cada um de nós codificou a sua escrita à luz da sua própria sensibilidade estética. No meu caso, a guerra colonial em Angola funcionou como uma autêntica descida ao inferno. Vi morrer e matar muita gente da minha idade e mais nova ainda, e nada disso era estritamente nem politicamente necessário. Salazar não aceitou negociar, nem descolonizar. Negou a própria existência de “guerra” (chamando-lhe “missões de soberania” nas colónias de África (que designava por “províncias ultramarinas”). Para mim, a guerra foi uma história de logros, uma experiência de tragédia e inutilidade. E uma iniquidade histórica. Escrever sobre ela, contra ela, foi um imperativo ético, um movimento natural da consciência e da criação. A literatura não pode ver-se separada nem da ética criativa nem da vida que se viveu. Ninguém escreve fora de si.
Não sei, nem me importa saber, que livros teria escrito se tivesse vivido noutro tempo e noutro mundo, porque também não sei que espécie de pessoa seria. O que mais me espanta é que tão pouco dessa memória histórica tenha sido passada de uma geração para a seguinte.

T.N.- Olhando para o seu percurso de vida, como escritor, mas também como homem, há aspectos que teria alterado? Pode exemplificar?

J.M.- É um simples exercício de estilo, bem sei. Mas vou responder. Alteraria praticamente tudo o que vivi. Não teria nascido na Achadinha, no meio de vacas e galinhas, não teria ido para o seminário nem para a guerra colonial. Talvez nem quisesse ter nascido em Portugal. O que não significa desprezo nem arrogância acerca das minhas origens. Ninguém amou Portugal como Eça de Queirós, creio eu. E por isso também ninguém foi tão cáustico nem tão verdadeiro naquilo que sobre ele escreveu. A minha vida consistiu sempre em fazer das fraquezas força, caminhar adiante sem olhar muito para trás e merecer chegar ao alto da minha montanha. Do alto dela, dessa minha montanha, vê-se todo o universo que me pertence. É uma visão de cultura, história e humanidade. Hoje sou muito mais urbano do que rural. Mas entendo que a vida e a literatura passam continuamente pelas cidades e pelos campos.

Raquel Moreira
Public in jornal Terra Nostra, Abril de 2008.

Quadros a menos, Enfermeiros a "mais"!

Promover a defesa da qualidade dos cuidados prestados à população, a garantia da regulação, o controlo do exercício profissional e; o respeito pela ética e pela deontologia profissional” são estes os desígnios da Ordem dos Enfermeiros. Falamos com a Enf. Margarida Rego Pereira, presidente do Conselho Directivo Regional, para saber um pouco mais sobre os enfermeiros nos Açores, face à questão do emprego e às mudanças eminentes dos hospitais em EPE’S, entre outros temas relevantes.

T.N.- Fale-nos um pouco de si
M.R.P.-
Nasci em São Vicente Ferreira, Capelas. Sou casada e tenho 2 filhas. Apesar de nenhuma delas ter seguido a minha profissão, estão ambas ligadas à área da saúde. Costumo dizer que tiveram um exemplo de alegria e satisfação com a profissão escolhida. Uma é pediatra e a outra é dentista.
Fiz o curso de enfermagem geral em 1972, na escola de enfermagem de Ponta Delgada. Após o curso, como havia poucos enfermeiros, comecei logo a trabalhar no Hospital de Ponta Delgada, que pertencia à Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada.
Curiosamente, a enfermagem surgiu muito tarde na minha vida. A minha ideia inicial era ser professora. Sempre estudei para ser professora e nunca tive a mínima vocação para ser enfermeira. Mas já no 6º Ano do liceu, tinha eu 16 anos, comecei a pensar que talvez não fosse gostar muito de ser professora. A única matéria em que eu tinha melhores notas era Inglês em que tirava uns 14, o resto andava nos 10,11. Nunca fui boa aluna no liceu.
Então, comecei a pensar que quando acabasse o 7º Ano, como estava na área de germânicas, ia para um banco ou uma agência de viagens. Entretanto, a cunhada de uma amiga minha estava em enfermagem e, na hora do almoço, costumávamos visitá-la no hospital, quando ela estava em estágio. Foi aí que se iniciou o meu contacto com o hospital e comecei a pensar que, se calhar, enfermagem era uma profissão que eu ia gostar, principalmente pela relação que se estabelece com o outro. Sim, porque enfermagem é uma profissão de inter-relação com as pessoas. Comecei a equacionar esta hipótese, porque provavelmente era uma profissão na qual me iria sentir realizada. Hoje já estou aposentada e digo-lhe que foi a escolha certa. A quem pretenda seguir enfermagem, digo que a vertente humana é muito importante. Nem sempre se vê na prática a componente técnica com a competência relacional, mas os doentes que estão à nossa frente valorizam muito mais as competências humanas e relacionais, do que as competências técnicas e de conhecimentos. É a vertente mais importante para os cidadãos que são alvo dos nossos cuidados. Obviamente, que a parte técnica, a experiência é muito importante, mas o lado humano não fica atrás.

T.N- Como surgiu o convite para este cargo?
M.R.P.-
Eu já fazia parte dos Órgãos Sociais da Ordem dos Enfermeiros, que é uma organização nacional muito pesada e envolve muita gente. A Ordem tem 5 secções regionais. Somos 38 pessoas como membros efectivos e suplentes na secção regional e eu faço parte dos Órgãos Sociais da Ordem desde o 1º mandato. Este é o 3º mandato, pois a Ordem é muito jovem. Este ano vamos comemorar os seus 10 anos de existência e as primeiras eleições foram em Junho de 1999.
No 1º mandato, que terminou em 2004, eu estava no Conselho Directivo (composto por secretário, tesoureiro e 2 vogais). Era secretária e substituía a presidente nos seus impedimentos, que, para seu azar, foram vários, por motivo de doença. No 2º mandato, eu saí do Conselho Directivo e estive no Conselho de Enfermagem. Chegou a altura de se formarem listas para as eleições. Até, porque não se pode estar no mesmo cargo mais do que 2 mandatos, como acontece com o presidente da república. A presidente do Conselho Directivo cessante contactou-me para a substituir. Entretanto, a senhora bastonária (que era a bastonária que se recandidatou) também falou comigo neste sentido. Acabei por aceitar com algum receio e preocupação pela responsabilidade que tenho, mas veremos.
T.N.- Quais as suas principais tarefas?
M.R.P.-
Eu tenho a meu cargo toda a gestão do funcionamento da secção regional, as decisões, a intervenção a nível político. O Conselho de Enfermagem é o Órgão tétrico, o Conselho Directivo é o Órgão da gestão dos serviços e do funcionamento da Ordem.
T.N.- Qual a situação actual dos enfermeiros nos Açores, a nível de emprego?
M.R.P-
Neste momento, ainda há enfermeiros que terminaram o curso em Julho de 2007 e que não estão empregados. De 2006, não há desempregados. No entanto, abriram vagas para os 3 hospitais e a Região não tem enfermeiros para cobrir aquelas vagas todas. Isto, porque abriram mais de 100 vagas e as escolas formam-se a cada 90 enfermeiros. Já tinham aberto 48 vagas nos centros de saúde. A Secretaria Regional abriu 35 vagas na 1ª fase, 13 na 2ª fase e agora os 3 hospitais abriram cerca de 119 vagas.
Este ano houve uma abertura de vagas em número muito superior a qualquer ano de que me lembre e é muito bom que assim seja, porque faltam ainda muitos enfermeiros nos nossos serviços de saúde, quer nos hospitais, quer nos centros de saúde. Os enfermeiros estavam desempregados, mas não era por falta de trabalho. Não se agilizava a forma de os contratualizar e essa demora teve a ver, segundo o meu ponto de vista, com o facto dos 3 hospitais terem passado a Empresas Publicas Emprealizadas (EPE), no início do ano passado.
2007 foi um ano de clarificação para as administrações dos hospitais. Como é a gestão normal, em regime de EPE? E há coisas que ainda não estão tão bem definidas. Daí, esta demora na contratação dos enfermeiros, porque, habitualmente, os enfermeiros novos entram em Outubro, Novembro, o que este ano vai ser um bocadinho mais tarde.
T.N.- Apesar desta não ser uma das competências da Ordem, pergunto-lhe como enfermeira, quais as reivindicações da classe?
M.R.P.- Pelo que sei a insatisfação tem a ver com o facto dos enfermeiros serem licenciados e não receberem como licenciados, com as carreiras que estão previstas, a passagem dos hospitais para EPE’s (onde passarão a ter contractos individuais de trabalho, em vez de pertencerem aos quadros). São várias vertentes resultantes da nova política de saúde.
T.N.- A nível da saúde, mantêm-se situações precárias, nomeadamente de grávidas que têm de ser transportadas inter-ilhas. O que pensa sobre isso?
M.R.P.-
Penso que devem continuar a serem transportadas entre as ilhas. Uma maternidade para se manter aberta tem que ter um “X” de partos por ano. Os profissionais de saúde que aí trabalham têm que ter casuística para se manterem hábeis, com competências desenvolvidas, uma maternidade tem que ter um obstetra em presença física. Onde é que têm obstetras para estarem nestas ilhas 24h por dia? Tem que ter enfermeiros especialistas em serviço de materno obstétrica. Nós não temos enfermeiros em número para cobrir outra maternidade. O Hospital da Horta ainda há bem pouco tempo recebeu uma enfermeira, que veio do continente, para poder ter enfermeiros 24 horas.
Antes de anunciar estas medidas, é necessário pensar um bocadinho no que isto implica. Tem de haver médicos e enfermeiros especializados em número suficiente. Há alguns anos atrás e, se calhar, continua a ser assim em algum dos 3 hospitais da Região, não havia médicos obstetras nas 24 horas. Na altura em que as minhas filhas nasceram ainda não havia, mas, actualmente, não é isso que se preconiza, que se pressente. O facto de já termos vivido e sobrevivido de uma determinada forma, não quer dizer que vamos compactuar com a abertura de serviços sem ter garantidas as mínimas condições de segurança para os utentes daqueles serviços. Onde é que está uma neonatologia para receber um recém-nascido que nasça com problemas na ilha do Pico? Vai de barco para o Faial. Não me parece que esta (refere-se à abertura de maternidades nas ilhas em falta) seja uma boa solução.
T.N.- Quanto ao fecho dos serviços de atendimento urgente, no continente?
M.R.P.-
Eu não me posso pronunciar muito sobre os serviços que fecharam, na medida em que não conheço com muita exactidão a abrangência em número de doentes que atendiam. Agora, penso que há serviços que realmente deveriam ser fechados. Se calhar até todos, mas isso não posso confirmar. Antes de se fecharem os serviços, o governo tinha que ter assegurado forma de responder às necessidades daquelas populações. Quanto a mim, foi o que falhou. É assim! O Serviço Nacional de Saúde é o grande consumidor dos nossos dinheiros. E temos que ver que mantinham serviços abertos 24 horas, para ter situações em que atendiam 2 ou 3 pessoas por noite. E muitas delas, não eram situações de urgência.
Ainda há outro pormenor, a grande percentagem de doentes que acorre aos serviços de urgência não é em situações de urgência. Vão lá, porque não lhes foram assegurados os meios necessários para dar resposta às necessidades que eles tinham, neste caso, uma consulta médica. Manter um serviço de urgência durante 24 horas sai muito caro. Têm que sem manter onde se justifique, onde haja casuística. Agora o governo fez mal, tinha que ter assegurado viaturas médicas, meios alternativos de resposta às necessidades daquelas populações. Aquelas crianças teriam morrido mesmo com as urgências abertas. Eram casos graves, como os próprios pais de uma criança disseram.
T.N.- Que projectos pretende desenvolver até 2001?
M.R.P.- Este vai ser um mandato, em que vamos ter de trabalhar a nível nacional na implementação de um novo modelo de desenvolvimento profissional, aprovado na Assembleia Geral de 2007 e que agora tem de ser operacionalizado. Trata-se de um modelo que traz algumas alterações àquilo que existia. Nomeadamente, os licenciados em enfermagem terão de fazer um ano de internato, durante o qual irão desenvolver o seu currículo profissional, sob tutela de um enfermeiro mais experiente de forma a adquirirem as competências necessárias para poderem exercer autonomamente a profissão.
Outra alteração aponta para que todos os enfermeiros façam um percurso profissional, tendo em vista a sua especialização, para que se possa oferecer aos cidadãos, em resposta às suas necessidades, que cada vez são mais complexas, cuidados cada vez mais especializados.
São estas as 2 grandes alterações que este modelo vem implementar no desenvolvimento da profissão de enfermagem. Isto proporciona à Ordem vantagens a vários níveis, na medida em que lhe permite regular efectivamente os seus desígnios. O que acontece, actualmente, é que qualquer licenciado em enfermagem chega à Ordem com o seu diploma de licenciatura e é-lhe atribuída uma cédula profissional, não tendo experiência profissional. A cédula profissional que nós todos temos hoje foi-nos passada, pois possuÍmos um diploma que nos habilita ao exercício desta enfermagem. Mas isso não significa que tenhamos competências desenvolvidas. Enquanto que, com o ano de internato, esta realidade altera-se.
Esta nova medida também traz vantagens para os novos profissionais, porque nos últimos anos tem-se verificado um grande período de tempo, que medeia entre o fim da licenciatura e o inicio da actividade profissional. Estamos nos finais de Fevereiro e temos profissionais que terminaram a licenciatura em Julho e ainda não iniciaram funções. Ora isso vai permitir aos recém-licenciados iniciarem logo uma actividade em contexto clínico de prestação de cuidados. O que lhes vai possibilitará a consolidação dos conhecimentos que adquiriram durante o curso e desenvolver as competências necessárias e, mais facilmente, depois ingressarem no mercado de trabalho.
A população terá a vantagem de saber que os enfermeiros que a atendem têm competências já desenvolvidas para o fazer e, vai permitir melhorar a qualidade dos cuidados que prestamos aos nossos cidadãos. Neste mandato vamos ter que operacionalizar este modelo, nomeadamente definir critérios para tutores, para a idoneidade dos tutores e dos espaços formativos e implementá-lo já no terreno, pelo menos a título experimental. A nossa intenção é esta e pretendemos fazê-lo ainda durante este mandato. No fim do internato é feita uma avaliação até o interno atingir as novas competências, já publicadas pela ordem, necessárias para um enfermeiro de cuidados gerais.
A nível regional, vamos dar continuidade a um projecto que iniciamos numa data anterior, que tem a ver com a implementação dos padrões de qualidade dos estudantes de enfermagem. Trata-se de um projecto elaborado em parceria com instituições da Região que quiseram aderir. Aderiram quase todas, à excepção de 2 ou 3 centros de saúde. Cada instituição nomeou um formador e vão implementar programas de melhoria contínua dos cuidados de enfermagem.
Temos ainda um projecto de Comunicação e Imagem, que dá visibilidade aos resultados dos cuidados de enfermagem. Este consta da publicação de um artigo mensal num jornal de São Miguel, da Terceira e do Faial. Dispomos também de uma newsletter que enviamos mensalmente aos enfermeiros.
Queríamos ver se conseguíamos ainda se voltávamos a ter uma participação na Rádio. A que tínhamos foi cancelada por questões de programação.
Temos também uma rede de colaboradores, porque somos um arquipélago separado por muita água. Solicitamos às instituições que nos indiquem um enfermeiro em representação de cada unidade. Conforme a extensão da instituição, os directores indicaram o número de enfermeiros que entenderam. Enfermeiros estes que se reúnem connosco 2 ou 3 vezes por ano, de modo a conversamos sobre os assuntos que estão a ser trabalhados pela Ordem, como o modelo de desenvolvimento regional, os padrões de qualidade nos cuidados de enfermagem, entre outros.
Fazemos também uma reflexão sobre as práticas com base nos padrões de qualidade, a análise do que fazem comparativamente ao que deve ser. Os enfermeiros depois vão para as suas unidades replicar estes trabalhos que foram discutidos. Também pensamos continuar a fazer visitas institucionais, porque é uma forma de chegarmos ao maior número possível de enfermeiros.
Não esquecer também a implementação do sistema de informação e saúde em todas as instituições de saúde da Região. Este sistema terá que ser compatível com o aplicativo informático da Classificação Internacional da Prática de Enfermagem (CIPE). Trata-se de uma linguagem comum a nível mundial, com vista ao registo das práticas de enfermagem, o que nos vai permitir termos indicadores sobre os nossos cuidados de enfermagem.
Raquel Moreira
Public in jornal Terra Nostra, Marços de 2008.

Jovens recorrem cada vez mais cedo ao Psicólogo

Problemas de agressividade, impulsividade e excessiva agitação psicomotora associam-se, muitas vezes, ao insucesso escolar, desmotivação, abandono escolar e a dificuldades de aprendizagem. O que conduz os jovens cada vez mais cedo ao Psicólogo. Isto, já sem falar em rupturas e grandes transições de vida, como o divórcio dos pais, a morte ou doença grave de um familiar, o nascimento de um irmão, o ingresso na escola e a entrada na adolescência.
A Psicóloga Mónica Domingues aborda esta realidade.

Mónica Domingues, licenciada em Psicologia e actualmente Secretária e membro cooptado da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Vila Franca do Campo, em ambas as modalidades de funcionamento (Restrita e Alargada), defende que as pessoas recorrem ao psicólogo muito “mais do que antes”, devendo-se esta procura de apoio às “exigências quotidianas do mundo actual e à desmistificação da visão anacrónica de que um psicólogo só se consulta quando alguém está louco”.
Acrescenta ainda que a ideia de que um psicólogo é alguém a quem se recorre “apenas quando sentimos que estamos a ficar doidos, ou “à beira de um ataque de nervos”, ou em situação de grande perturbação emocional ou comportamental é, como já referi, arcaica e, infelizmente, cada vez menos frequente”- afirma, realçando que esta visão tem sido ultrapassada pelas mais recentes formas de fazer Psicologia, assentes em filosofias preventivas e de desenvolvimento de competências, “em detrimento das de remediação e tratamento de perturbações já instaladas”.
A psicóloga admite que “todos” temos dificuldades na vida, com as quais não somos capazes de lidar sozinhos, todos temos uma ou outra característica pessoal que pode ser melhorada, potenciada ou substituída para um melhor bem-estar. Por isso, se a pessoa sente que precisa de apoio especializado para lidar como os seus filhos, problemas pessoais, conjugais, ou na relação com as pessoas de família: “como alguém dizia, “não seja doido, vá ao psicólogo!”- afirma Mónica Domingues, brincando com as palavras.
Actualmente, os jovens começam cada vez mais cedo a recorrer a ajuda psicológica. A seu ver “estamos, sobretudo, perante crianças a quem se exige e se dá tudo, ou nada” –esclarece, explicando que a umas são impostas regras “rígidas e limites que não têm em conta as suas opiniões e sentimentos”. A outras, “é dada toda a liberdade e todo o poder de decisão sobre as suas vidas”.
“A umas, dá-se tudo, porque não temos tempo para nos “darmos a nós”. A outras, não se da nada, porque o seu melhor não é suficiente para nós”- acrescenta, lamentando o facto de vivermos “num tempo sem tempo, em que o tempo nos faz esquecer que é o equilíbrio entre a disciplina e o amor”. Sentimento que considera ser a “chave mágica” para a educação das crianças que queremos que se tornem em adultos “responsáveis, autónomos, seguros, tolerantes e felizes”.
Normalmente, estas crianças ocultam diversas problemáticas a nível dos “afectos, emoções, das relações com os outros, do comportamento”- afirma, salientando estar a falar de “depressão, ansiedade, isolamento social, agressividade e intolerância à frustração, entre outras”.
Quanto à relação destas problemáticas com o meio escolar, Mónica Domingues afirma que como as crianças e jovens passam grande parte do dia na escola, “é muitas vezes neste contexto que estas problemáticas são sinalizadas e diagnosticadas”. Por isso, é “fundamental” que os professores e auxiliares de acção educativa estejam atentos às vidas dos alunos e estabeleçam com eles “relações de proximidade, baseadas na confiança e na empatia”.
No que diz respeito à responsabilidade que pode ser imputada à família e à sociedade, a psicóloga entende que esta última apresenta “grandes desafios às famílias”, que não têm sido tarefa fácil de resolver da melhor forma.
“Mas mais importante do que apurar responsabilidades é equacionar soluções…”- enfatiza, conscienciosa.
Mónica Domingues levanta também a questão de um documento publicado pela Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES), que anuncia um “mal-estar difuso” entre os portugueses.
A nível da Região, a psicóloga defende que, tal como no continente, “os açorianos ‘trazem com eles’ uma cultura tendencialmente depressiva e pessimista”- revela, dando o exemplo do “fado, a nossa canção nacional, quantas vezes melancólica e reveladora de que o destino nos rege, ou a palavra ‘saudade’, que é tão nossa e sem tradução directa noutras línguas e que é vivida como uma obstinada nostalgia pelo passado”.
Além disso, acrescenta que vivemos num “momento histórico em que o drama, a desgraça, as maldades, incompreensões e os insucessos fazem notícia e cativam audiências”.
Aproveitando a ocasião, Mónica Domingues transmite ainda uma mensagem de optimismo, lembrando que “para quem acredita e tem esperança num futuro melhor”, a ciência prova que uma atitude “positiva” interveniente pode conduzir a uma “maior vontade de viver, melhor saúde física e mental e a uma maior estabilidade emocional”. Daí, ser fundamental que “estejamos todos conscientes que está nas nossas próprias mãos o destino que queremos construir, para nós e para os outros”-salienta.
Segundo a sua experiência profissional com crianças e adolescentes, Mónica Domingues afirma que as questões mais frequentes estão relacionadas com problemas de comportamento, como a “agressividade, a impulsividade, a excessiva agitação psicomotora e o seu desenvolvimento; rupturas e grandes transições na vida, como o divórcio dos pais, a morte ou doença grave de um familiar, o nascimento de um irmão, o ingresso na escola e a entrada na adolescência, para além de insucesso escolar, desmotivação, abandono escolar e dificuldades de aprendizagem”.
Quando se trata de questões comportamentais, normalmente “ a intervenção de um psicólogo é mais solicitada para os rapazes”.

Raquel Moreira
Public in jornal Terra Nostra, Março de 2008.

terça-feira, 8 de abril de 2008

A televisão para a educação


A televisão não é uma escola e não a substitui, mas muitas vezes é considerada a culpada de "todos os males da sociedade".
Lopes de Araújo, director da RTP Internacional, afirma ser necessário "educar para a televisão, orientar a televisão para a educação e ensinar a debater a sua temática", pois, a seu ver, as pessoas "não se sabem exprimir".


"Apesar de durante muitos anos ter sido vista como tal, especialmente desde que o serviço público de televisão assentava num triângulo de informar, educar e entreter/recriar (como se a televisão se pudesse substituir em matéria de educação!), a televisão não é uma escola, não a substitui e, muitas vezes, culpamo-la de todos os males da sociedade. A televisão não tem culpa da falta de leitura. (…) A função fundamental da televisão é de entretenimento e espectáculo" – foram palavras de Lopes de Araújo, director da RTP Internacional, num painel intitulado Televisão e Formação da Consciência Critica do Cidadão, integrado no III Colóquio de Educação – Educação e Comunicação Social: Caminhos de Cidadania, na Universidade dos Açores.
Lopes de Araújo iniciou a sua intervenção, dizendo que podemos ser o que quisermos, mas quando nascemos jornalistas, "um dia que se morra as pessoas dizem: morreu o jornalista X", no lugar do seu nome – Situação que ilustra bem a "responsabilidade" inerente à profissão e que os seus profissionais sentem. "Não é só a responsabilidade do dia-a-dia, mas também a de contribuir para a formação de uma melhor mentalidade do cidadão, de forma activa e critica"-acrescenta.
Referindo-se à sua vinda aos Açores, afirma sentir-se "bem e feliz" cada vez, que visita a Região, avançando ainda que o seu "modesto" contributo resulta de uma "reflexão de um profissional que leva 32 anos de profissão".
Na opinião do director do canal internacional da RTP, "educar para televisão" é a grande questão que se coloca, órgão que atravessa, actualmente, um "momento crucial".
E continua, dizendo que a ruptura do digital é "a maior ruptura da história da televisão,
uma grande descontinuidade".
Lopes de Araújo fez também referência a um artigo de Constança Sá e Cunha, publicado no jornal "O Publico", que classifica a escola de hoje, sobretudo, como um local "giro".
Avança ser esta a realidade, argumentando que, actualmente, os professores têm "medo" que os alunos se aborreçam, mas a ideia de "fugir ao ensino por este ser só aborrecimento, é errada".
A própria natureza do meio televisivo faz com que toda a programação seja "divertida", pois "a televisão de hoje é diversão". E a escola, "não que seja aborrecida, mas não tem de ser divertida".
Apelida ainda a publicidade de uma espécie de "líquido amniótico que alimenta, que envolve a programação, remetendo-nos para um mundo edílico".
"Não há publicidade má, no sentido de mostrar um mau produto"- acrescenta, lembrando que esta transporta "coisas boas".
Falando sobre as diferenças entre a televisão e a escola, Lopes de Araújo argumentou que a televisão lança o saber por "igual a todos", reúne todos por igual, enquanto o professor é visto como o que "deve saber tudo", o mediador de televisão é o que "nada sabe e pergunta o que queremos saber".
Além disso, a escola impõe "distância" aos assuntos e a televisão faz o contrário.
"A televisão come o tempo, suprime o tempo e a distância e não pergunta se o espectador percebeu"- enfatizou, salientando que o saber da escola é "estruturado e consolidado" ao longo de anos.
"A televisão vomita a informação e passa à frente", por isso, se não percebemos algo, não há forma de o recuperar.
Lopes de Araújo vai mais longe, ao lembrar que a televisão não tem culpa de que os jovens não tenham muita inclinação para a leitura, ressalvando existirem "velhos problemas".
Defende a televisão como um órgão de uma "capacidade sedutora fabulosa", mas em Portugal só recentemente se começou a estudar este media de um modo "científico".
"28 horas semanais é muito tempo a ver televisão e interessa, também, o modo como se vê televisão"- argumenta, dizendo que "a criança de 3 ou 4 anos não distingue" a realidade da ficção. "Mesmo as crianças de 6 ou 10 anos, podem creditar em tudo o que vêem" no grande ecran – acrescentou, salientando que é para elas que "temos de olhar" hoje.
O director da RTP Internacional chamou, também, a atenção para o facto de que, se a criança pensar que a televisão mostra a verdade, depois com vinte anos é "difícil" saber se assim é, ou não.
"É muito complicado inverter essa lógica, e a criança ocupa mais tempo na televisão, do que em qualquer actividade"- admitiu, avançando que, hoje em dia, as crianças têm "poucas actividades extra curriculares".
Por outro lado, segundo um estudo realizado em universidades dos Estados Unidos, as crianças de 5 anos que assistem a programas educativos para a sua idade, têm "melhor capacidade de aprendizagem".
Os jovens, defende, estão também "limitados" durante as férias, não podendo ir a um centro comercial sozinhos nem andar de bicicleta, porque é "perigoso".
Mencionando o tema da violência na televisão, Lopes de Araújo explicou que a exposição à violência e a comportamentos violentos conduzem a "baixos níveis de sociabilidade e a um receio do mundo. "A criança vê a violência e fica com medo da sociedade, o que é tremendo"- sublinhou.
Segundo um estudo realizado em 1997, pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), da maioria da violência na televisão portuguesa, nos canais nacionais, "50% não era justificada, 19% era motivada pela raiva e ódio e apenas 15% era em legitima defesa e 8% em cumprimento do dever". Referindo-se à violência em cumprimento do dever, o director do canal internacional da RTP avança que, "se a criança vir um polícia matar uma pessoa, ela entende, pois a violência aqui é atenuada por um motivo".
Na sua opinião, a violência nos media leva a uma "dessensibilização em relação à morte, aumenta a agressividade para com outras crianças e esta fica receosa do mundo".
Os próprios jogos, alerta, funcionam de modo que, "quanto mais matar mais prémios a criança ganha".
Outro factor agravante, é que cada casa normalmente tem "mais do que uma" televisão. E, muitas crianças, hoje em dia, "erradamente, têm televisão no quarto", o que, a seu ver, as deixa ainda mais "isoladas" da família e do acompanhamento de que necessitam.
"Não me refiro a proibir, mas há que acompanhar os programas a que os filhos assistem".
Falando da Internet, afirmou ser "ainda mais perigosa do que a televisão", pois as crianças registam-se em sites "de adultos, que até ensinam a construir uma bomba, dando dados falsos". Em Portugal, a sua taxa de penetração é "superior a 59%".
Referindo-se à informação disponível actualmente na televisão, afirma tratar-se de um jornalismo mais "interpretativo, do que descritivo, no qual a prioridade é o tema" e, não os factos. É pedido ao jornalista para agir como "analista do acontecimento", a pontos do sound bite nos Estados Unidos, ser de "12 segundos e passar a 10, em 1988"- enfatiza, salientando que "por cada minuto que um candidato presidencial fala, o jornalista fala cinco".
Para mais uma vez mostrar que nem tudo o que a televisão transmite é verdade, o director lembra que, muitas vezes, as pessoas se queixam de que o que apareceu no ecran não corresponde à verdade, que "a frase está fora do contexto". O que, na sua opinião, é um sinal da "diminuição da capacidade crítica do espectador".
O jornalista deve apresentar factos que o espectador interpreta, mas, lamenta, "a papa está toda feita". E esta situação não pode continuar, alerta, defendendo que temos que demonstrar ter uma "atitude crítica" em relação ao que vemos e duvidar".
Na opinião de Lopes de Araújo, a televisão mudou "profundamente nos últimos dois anos". Actualmente, a pessoa escolhe o que quer ver e, no "Youtube, pode ver conteúdos de vários canais quando quer".
Argumenta, também, que "os media, em especial a televisão, não substituem os educadores e a família e os pais não podem pôr a criança em frente à televisão, por terem trabalho".
"Não há uma criança que não deixe de ver televisão, para um dos pais lhe contar uma história"- enfatiza.
Falando sobre os tipos de público da televisão, apresenta as crianças como o mais procurado, pois elas "assistem ao mesmo programa várias vezes, vêem o programa todo de seguida e adoram publicidade".
No que toca a agir, o director afirma ser necessário "educar para a televisão, orientar a televisão para a educação e ensinar a debater a sua temática", pois, a seu ver, as pessoas "não se sabem exprimir".
Segundo Emanuel Oliveira de Medeiros, professor e presidente do Conselho Coordenador dos Estágios Pedagógicos, o Colóquio teve como grande objectivo proporcionar uma "reflexão interdisciplinar" que saliente a possível interligação entre a Educação e a Comunicação Social, numa perspectiva de "cidadania".

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Abril de 2008.

TELEVISÃO: VER E CRITCAR

A televisão ocupa cada vez mais um lugar de destaque na vida das famílias. Seja um ecran plasma ou um aparelho mais convencional, a verdade é que logo depois do jantar, na maioria das casas, o passo seguinte é sentar em frente ao televisor e esperar pelos programas a que habitualmente se assiste, como se nada mais houvesse para fazer. Mas é fundamental, saber ver televisão e ter capacidade crítica.
Lopes de Araújo falou ao Terra Nostra da televisão, do seu papel na vida de adultos e crianças e das consequências do seu excesso, por parte destas últimas, sem o devido acompanhamento.

Há muitos anos atrás, muitas pessoas não souberam o que é o fenómeno da televisão. Hoje em dia, é difícil imaginar viver sem ela.
Segundo Lopes de Araújo, director da RTP Internacional, a televisão não é um “inimigo da escola, mas, sim, um adversário poderoso”, relativamente à capacidade que tem de “seduzir o público em geral e em particular os jovens e as crianças, que são públicos mais expostos e cuja personalidade ainda não está formada e cuja consciência crítica ainda não existe”.
A atenção a ter por parte dos pais como educadores e, dos professores é de uma certa literacia para a televisão. Há que “ensinar a ver televisão” desde casa e depois na escola, para que a criança e o jovem olhem para a televisão numa atitude “crítica e que sejam capazes de questionar e de duvidar, muitas vezes, do que a televisão lhes mostra e, essencialmente, terem consciência de que tudo o que a televisão mostra não é necessariamente verdade, não é só a verdade”. A seu ver, esta atitude crítica tem de ser educada, ensinada pelos pais em primeiro lugar e pela escola também.
O director do canal internacional da RTP avança que a escola durante muitos anos olhou para a televisão com “desconfiança”, o que lhe parece “errado”.
“É chegada a altura da escola e a televisão em conjunto olharem para um fenómeno social importante e com consequências muito graves, do ponto de vista da sociedade que estamos a criar que é a da sociedade não conhecer ou não ter capacidade de distinguir o que a televisão lhe apresenta e, de tomar tudo o que a televisão apresenta por verdade”- salienta.
Se isso começar a acontecer desde a primária, se as crianças forem habituadas a “questionar” tudo o que vêem e se aperceberem como se faz televisão, como a esta constrói as historias e a “distinguir” a realidade da ficção em televisão, a “duvidar da publicidade que a televisão mostra, estamos perante uma tarefa de cidadania importantíssima e de criação e afirmação de uma consciência crítica para o futuro”.
A televisão tem também a missão de educar, reconhece, afirmando que esta não é “exógena” à sociedade, é um meio de comunicação social, mas entendamos que “a televisão hoje é também uma actividade industrial, actividade económica, uma indústria rentável e há uma actividade privada da televisão”. É evidente tratar-se de um produto muito particular, que tem valores ou pode formar valores éticos e, portanto, tem alguma responsabilidade a esse nível. Mas não devemos, explica, pretender que a televisão privada tenha como preocupação uma “formação exclusivamente maioritariamente educativa”.
“A televisão é essencialmente e por natureza diversão e lazer. Logo, a actividade privada da televisão é feita com o objectivo de lucro e de audiência, mas é evidente que cabe, segundo o meu ponto de vista, mais do que à televisão, aos pais, aos educadores e à sociedade a tarefa de educar para a televisão” - acrescenta.
Lopes de Araújo vai ainda mais longe nesta temática, defendendo que deveria ser criada uma disciplina desde cedo, que “ensine as crianças a verem televisão, a perceberem como a ela é feita e, a realidade e a parcialidade da realidade que ela mostra”, pois assim estaríamos a criar uma sociedade mais “esclarecida” e esses jovens depois terão muito mais facilidade em ensinar isto aos seus filhos.
Quanto a um eventual excesso de órgãos de comunicação social em Portugal, afirma que “talvez haja jornais em demasia” para o mercado, porque também há jornais gratuitos, mas pensa ser uma pluralidade “muito saudável”.
Reconhece ainda que há sempre alguns que triunfam e outros que ficam pelo caminho, porque “o mercado não dá para todos, mas não me parece que haja um excesso” de órgãos comunicação social.
Mencionando os constrangimentos que a comunicação social tem, diz serem “impostos pelo mercado” que é de grande concorrência.
Lopes de Araújo aborda ainda uma outra questão fundamental, a Internet e o acesso a conteúdos online que vieram “mexer muito com as audiências tradicionais dos jornais”, mas, por outro lado, defende que os órgãos de comunicação social têm também a vida muito mais facilitada do que há 20 anos, porque estes mesmos constrangimentos trazidos pela internet são também “novas oportunidades”, lembrando haverem jornais que têm uma edição online e outra edição impressa.
“Há outras formas de rentabilização, nomeadamente em portais ou nas próprias edições online de publicidade e de banners publicitários, que acabam por rentabilizar os recursos. Por isso, não creio que seja constrangimentos que possam levar a um colapso social a nível da imprensa escrita”- acrescenta.
Admite que a imprensa está a passar por uma “crise complexa” que, a seu ver, tem mais a ver com a Internet e com a disponibilização de conteúdos online, a facilidade de acesso aos mesmos e “o aparecimento de jornais gratuitos, que é já um reflexo que alguma coisa não está bem”. Mas entende que esta, como todas as crises é passageira e que o jornal escrito e impresso nunca será substituído e tem um valor “insubstituível”. Em Portugal, o director lamenta o facto, que considera “evidente”, de haver, com os baixos níveis de literacia e de educação, “pouca gente a ler imprensa escrita e a comprar jornais”, o que encara como um resultado também da própria “crise em que vivemos e da falta de dinheiro, pois as pessoas cortam onde supostamente lhes faz menos falta”. “Mas o jornal continua ser para mim e para a minha geração uma referência importantíssima no acesso à informação. Leio o jornal todos os dias”- salienta.
Referindo-se ao desenvolvimento dos Açores, Lopes de Araújo afirma sentir uma “grande diferença nos Açores, de onde saí há 13 anos”. Diz visitar a Região cerca de uma vez por ano, sempre em visitas rápidas de um dia ou dois no máximo e nota um “progresso e desenvolvimento geral”, o que para si é “muito positivo”. Por outro lado, crê não termos características para sermos mais uma Madeira, ou mais umas Canárias, desde logo “pelo clima e a própria paisagem é muito diferente”.
“Temos um tipo de oferta de contacto com a natureza e que tem sido muito bem promovido pelo governo regional na sua publicidade e na sua propaganda dos Açores. A natureza é uma riqueza inigualável que nós não temos na Madeira e em Portugal continental, outro igual, nem no Algarve” -enfatiza.
Mesmo sabendo que o clima se está a alterar em todo o mundo, reconhece que “se não tivermos nos Açores o sol que na Madeira ou nas Canárias tem outra latitude, nunca teremos um turismo de massas”, que procura sempre o sol basicamente.
Sabendo que a Região nunca será bem uma oferta de praia, pois não temos “quilómetros de areia branca”, Lopes de Araújo chama a atenção para um turismo de “contacto com a natureza, de tranquilidade e aí ninguém nos bate”.
Quanto à televisão, o director lembra que, como todos sabemos, a televisão corta o diálogo entre as famílias e todos sentimos isso nas nossas casas. Alerta também que “quando passamos o tempo a assistir a programas de televisão, obviamente não estamos a passar tempo com os nossos filhos, cônjuges ou pais”. Desde que apareceu a televisão transformou muito a vida da família e, como costuma dizer “a tradicional lareira foi substituída pelo televisor”.
“As pessoas agrupam-se na sala em torno do aparelho, como antes faziam à volta da lareira. A televisão marca o centro da sala, quando uma pessoa compra uma casa, olha para a sala vazia e vê logo onde está a ligação da televisão, para a partir daí mobilar a sala. A televisão dispõe da casa e acaba por jogar um papel muito determinante da vida e do espaço familiar”- salienta, afirmando ser uma situação “incontornável”. E há que ter consciência disso, desse peso e da importância da televisão e da sua capacidade de “atrair e seduzir”. Temos de educar a nossa família, de nos auto-educarmos, de nos tornarmos mais críticos, olharmos a televisão e, sobretudo, termos a capacidade de a “desligar quando necessário, para termos uma boa conversa ou para receber uns amigos” que vão lá a casa, como tem o hábito de fazer na sua própria casa.
Avança ainda ser “terrível” quando se recebem amigos em casa e se deixa a televisão ligada, porque é sinal evidente de que não se quer falar nem conviver com os amigos.
“O ser capaz de desligar a televisão é também um acto de cidadania, é o ser capaz de substituir a televisão por outra coisa. A televisão não é tudo na nossa vida, é um meio de comunicação importante, mas não é tudo e temos que ter a capacidade de ultrapassar este fetiche, esta capacidade sedução extraordinária que a televisão tem”- evidencia.
Referindo-se à situação actual da televisão pública e privada em Portugal, começa por dizer que a televisão pública, que é concessionada à RTP, tem feito “um bom trabalho e mantido uma boa audiência no conjunto dos canais portugueses sem descuidar as suas preocupações de serviço público”.
Apesar de ter como objectivo primordial “ganhar dinheiro, facturar, pois é isso que faz qualquer negócio privado”, a televisão privada em algumas circunstâncias, nomeadamente na informação da SIC e em alguns aspectos de produção da ficção da TVI tem dado também um “contributo importante à sociedade portuguesa e até de padrões culturais elevados”, factor que regista “com prazer”.
A nível do canal regional, afirmou não saber nada da estação desde que se mudou para Lisboa, cidade à qual, “infelizmente”, o canal não tem acesso, mas entende tratar-se de um elemento muito importante para a “coesão” da identidade açoriana.
Quanto à introdução da RTP Açores na Cabo nacional, defende ser algo “positivo”, desde logo para os açorianos que vivem lá fora poderem ver a informação e conteúdos regionais.
“Às vezes dou conta que os nosso conterrâneos que vivem nos Estados Unidos sabem mais dos Açores, do que nós que vivemos no continente”- acrescenta, revelando a existência de um “défice muito grande mesmo na imprensa, pois é raro, esta no continente dar notícias dos Açores”. Por isso, tudo o que seja para fazer chegar e divulgar os Açores ao resto do país é “positivo”.
Lopes de Araújo aproveita a ocasião para mandar uma mensagem aos espectadores açorianos, aconselhando a que sejam “muito críticos em relação ao que passa na televisão e que tenham a capacidade de fazer outras coisas para além da televisão, como conversar, dialogar, ler, passear, sair à rua”, pois, a seu ver, as cidades e os espaços tornam-se “seguros” se as pessoas saírem de casa.
Lamenta também o facto de que a televisão “prende muito” as pessoas em casa, ganhando estas “hábitos sedentários”.
As pessoas “acabam de jantar e ficam a olhar para a televisão” e há muito para fazer fora de casa. Actualmente, “os Açores têm uma grande oferta de espaços culturais, de cinema”, actividades que sabe que custam dinheiro, mas há outras alternativas, há espaços para passear.
“Mesmo as cidades mais pequenas têm uma actividade cultural muito interessante e é muito importante que as pessoas sejam capazes de olhar para o mundo para além da televisão e saberem que há muito mais coisas para fazer, para além de ficar a olhar para a televisão terem uma atitude crítica e duvidarem muitas vezes do que a televisão mostra, tanto a nível de informação como de ficção”.
Lopes de Araújo termina, reconhecendo a existência de muitos “viciados” em televisão, principalmente “as crianças, que passam em média 3 a 4 horas diárias em frente ao aparelho, o que é preocupante”.
“Mas pior do que o tempo de exposição, é as crianças não verem televisão acompanhadas por um adulto que possa ensinar à criança algumas coisas que vê na televisão”- conclui.

TELEVISÃO: O APARELHO

A televisão é um sistema electrónico de transmissão de imagens e som, de forma instantânea. Funciona a partir da análise e conversão da luz e do som em ondas eletromagnéticas e da sua reconversão, num aparelho que recebe o mesmo nome do sistema ou pode também ser chamado de aparelho de tv. O aparelho de tv capta as ondas eletromagnéticas e através de seus componentes internos converte-as novamente em imagem e som.

O primeiro sistema semi-mecânico de televisão analógica foi demonstrado por
John Logie Baird, na Londres de Fevereiro de 1924, com uma imagem do desenho animado Felix the Cat e, posteriormente, imagens em movimento A 30 de Outubro de 1925. Um sistema electrónico completo foi demonstrado por Philo Taylor Farnsworth, em 1927. O primeiro serviço analógico foi a WGY em Schenectady, Nova Yorque, inaugurado a 11 de Maio de 1928.
Os primeiros aparelhos de televisão eram rádios com um dispositivo, que consistia num tubo de néon
com um disco giratório mecânico (disco de Nipkow) que produzia uma imagem vermelha do tamanho de um selo postal. O primeiro serviço de alta definição apareceu na Alemanha em Março de 1935, estando disponível apenas em 22 salas públicas. Uma das primeiras grandes transmissões foi a das Olimpiadas de 1936, em Berlim. O uso da televisão aumentou enormemente depois da Segunda Guerra Mundial, devido aos avanços tecnológicos surgidos com a guerra e à renda adicional disponível (e havia pouca programação disponível).
A televisão a cores surgiu em 1954, na rede americana NBC. Um ano antes o governo americano aprovou o sistema de transmissão em cores proposto pela CBS, mas quando a RCA apresentou um novo sistema que não exigia alterações nos aparelhos antigos em preto e branco, a CBS abandonou sua proposta a favor da nova.
Em Portugal, as primeiras experiências com a emissão de televisão a preto-e-branco, começaram em 1949 mas a inauguração oficial da televisão a nível nacional teria a sua data marcada para Setembro de 1956, quando, no recinto da Feira Popular em Lisboa, se dá a emissão das primeiras ondas hertezianas, com a presença de uma enorme massa popular.
Relatos do Jornal de Noticias da época diziam que, "na Praça dos Restauradores o movimento foi além do que era de esperar e, por isso, parou o trânsito e criaram-se dificuldades que a PSP resolveu ordenando a abertura de um canal, não de TV, mas sim para carros e pessoas poderem circular".

BIOGRAFIA

José Maria Lopes de Araújo nasceu, em São Miguel, há 48 anos. Licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa, exerceu advocacia e foi admitido na RTP como jornalista, com apenas 18 anos.
Chefe de redacção da RTP e apresentador do Telejornal do Canal-1 entre 1981-84; director da RTP Açores durante 11 anos; director de Produção da RTP durante seis anos; administrador da FOCO, SA e Edipim Estúdios; assessor do Conselho de Administração da RTP
; assistente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra onde leccionou na Licenciatura de Jornalismo; monitor do Centro de Formação da RTP e da Universidade de Verão de Comunicação Social de Carcans-Maubuisson-Bordéus, foram alguns dos cargos que desempenhou.
É ainda membro do Instituto Açoriano de Cultura e do Instituto Histórico da Ilha Terceira.Desde Janeiro de 2004, é director dos Canais Internacionais da RTP, para além de Assistente da Universidade Católica Portuguesa, onde rege as cadeiras de História dos Média e de Comunicação Televisiva.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Abril 2008.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Mais actividades e menos centros comerciais

Circuitos pedestres, de jipe, a cavalo, de bicicleta, provas de vinhos e de queijos e, até piqueniques que são muito apreciados pelos europeus nórdicos, são algumas das ideias de Carolina, da Sol Resor, para melhorar o turismo nos Açores.
Em declarações ao nosso jornal, a empresária critica as obras da avenida, que apesar de não impedirem os turistas de visitarem a ilha deixam-nos “desiludidos”, imagem que levam de volta ao país de origem. Menos lojas e mais iniciativas é outro segredo para o sucesso.
São Miguel é encarado como um lugar muito bonito, pacífico e calmo, de gentes muito agradáveis e sempre dispostas a ajudar.

Carolina Anderson, gerente do operador turístico Sol Resor, começa por dizer que a Região recebeu este ano “a mesma quantidade” de turistas nórdicos, em relação a 2007. “Houve apenas um pequeno decréscimo, mas os números são quase os mesmos. Ninguém reparou”-especifica.
São seis voos semanais, desde o 1º de Maio até ao final do ano, um da Finlândia, dois da Dinamarca, dois da Suécia e um da Noruega.
“Os voos chegam uma vez por semana, transportado cerca de 200 turistas, que ficam na ilha uma semana ou duas”- acrescenta.
Segundo Carolina, os países de onde vêm mais turistas são a Dinamarca, todo o inverno, e a Suécia.
Referindo-se à imagem que os turistas levam de São Miguel, afirma ser a de uma ilha “bonita, pacífica e calma”. Salienta ainda que os turistas têm sido muito activos em quererem conhecer “toda a ilha”, mas lamenta o facto de não ficarem assim tão “impressionados com a comida, pois são sempre os mesmos pratos, tanto de carne como de peixe”. Além disso, a comida tem “pouco picante”.
São Miguel é ainda um “óptimo destino de golfe”, pois a estação é muito longa.
Carolina reconhece também que os Açores são um destino “muito difícil de vender” no inverno, devido ao clima. “Não há garantias de bom tempo. Muitas vezes, o turista vem e volta sem ver nada das paisagens, por causa do nevoeiro”.
Quanto às polémicas obras da avenida, avança não serem o problema. “ Isso não assusta os clientes, mas quando eles chegam ficam desapontados e vão-se embora a pensar que é uma terra de obras e barulhenta”.
Revela ainda ter “muitas reclamações devido ao barulho”, por isso está “ansiosa” que as obras acabem.
Mencionando os destinos que os Açores podem cativar, a empresária fala principalmente na Holanda, mas afirma serem “todos os países europeus” de um modo geral.
“Estou cá há oito anos a trazer turistas. A Suécia é um país muito pequeno, não podemos forçar o mesmo número de turistas a virem todos os anos”- enfatiza.
Por outro lado, Carolina afirma tratar-se, “muitas vezes, de uma questão de moda”.
Actualmente, estão na moda viagens de “longa distância”.
Quanto ao que podia melhorar no turismo local, aponta a “falta de barcos para Santa Maria, que permitam aos turistas irem e virem no mesmo dia, com pacotes activos, com almoço, tudo incluído” e, também, barcos para a Terceira por “2 ou 3 dias”.
São necessários ainda “folhetos simples com toda a informação, incluindo o horário dos autocarros” e bilhetes de autocarro para “dez viagens”.
A empresária salienta ainda a necessidade de haverem “mais actividades ligadas à vida rural”, relacionadas com leite, chá ou, “provas de vinho e de queijo”.
Outro aspecto útil seria existirem “mais restaurantes fora da cidade, para as excursões, e abertos só para grupos”.
A empresária aproveita a ocasião, para dizer que a ilha não precisa de mais “centros comerciais”, de mais lojas, defendendo, também, que “o Casino não é importante”, pois não vai atrair mais turistas nórdicos.
Os turistas gostam, é da “natureza, de passeios de bicicleta, de jipe, a cavalo, de carro, de fazer piqueniques, de golfe”.
“Os turistas suecos poupam muito dinheiro para virem aos Açores e preferem gastá-lo em actividades, não em refeições”- acrescenta.
Segundo Carolina, as Furnas são muito famosas. “70% dos turistas que cá vêm, vão às Furnas e provam o Cozido”.
As estradas estão “muito melhores”, mas o facto é que “o turista quer ir pelos caminhos antigos, quer ver a natureza”. Quer um ambiente de campo, não de cidade.
A empresária avança ainda que, os Açores deviam apostar, em trazer “portugueses para o golfe, mesmo por curtas estadias de 2/3 dias”, e não só estrangeiros. “É mais importante trazer portugueses”-defende.
Quanto ao serviço dos restaurantes, afirma que, no início, havia “muitas queixas”, de que “a comida estava, fria, não chegava ao mesmo tempo para todos e, tinha pouco picante (queixa que ainda se mantém)”.
O serviço, afirma, “melhorou muito”, pois a princípio os empregados tinham “medo de falar inglês, medo de errar” e por isso preferiam ficar calados. Agora, isso já não acontece.
Actualmente, se um turista estiver na rua de mapa na mão, “há sempre alguém que se aproxima a perguntar se este precisa de ajuda”- ressalva, dizendo que antes isso não acontecia.
“Os açorianos são vistos como um povo amigável, que gosta de ajudar e muito calmo”- características, que reconhece que o turista “não esquece” numa próxima vez que queira viajar.
Outra questão que tem gerado alguma polémica é a dos guias turísticos.
“Não há guias turísticos locais que falem fluentemente sueco, finlandez, dinamarquez e norueguez, daí a necessidade de trazermos guias turísticos dos países nórdicos, que estagiam na Região por seis meses e, vendermos excursões com guias próprios”. Na formação, aprendem os dois juntos. “Se os guias locais pudessem trabalhar connosco, era óptimo”- reconhece.
Revela ainda que a comunicação social tem sido “muito dura” com as agências nesta matéria, ao dizerem que tiram trabalho aos locais. “Apenas tentamos causar uma boa impressão aos turistas”- conclui.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Março de 2008.

Turismo nos Açores: "Assim não se vai longe"

Ainda há muito para fazer, no que toca ao turismo nos Açores e, a construção de grandes unidades hoteleiras não é o suficiente. Há que dinamizar e dar uso aos diversos edifícios abandonados e espalhados por toda a cidade de Ponta Delgada. Outro passo significativo seria a diminuição das tarifas aéreas, do continente para a Região.
Segundo Ana Pavão Câmara, deveriam haver voos lowcost para o continente português, mas “depende da vontade politica do governo, que nesta altura, penso não ter vontade para coisa nenhuma”.

O turismo nos Açores tem ainda um longo caminho a percorrer. Um dos factores que pode contribuir para a sua melhoria é, sem dúvida, o turismo de habitação.
Ana Pavão Câmara, proprietária da Quinta da Abelheira, começa por contar que a casa remonta ao “início do séc. XX”, tendo sido adquirida por António Câmara para ser um sanatório. “Naquela altura havia muita tuberculose e como a quinta tem um clima muito propício, uma espécie de microclima, esta seria óptima para a recuperação” dos doentes. Mas com a 2ª Guerra Mundial, o projecto foi “por água abaixo”, pois a quinta passou a ser utilizada como um “ponto estratégico de observação” durante o conflito. “Dai ter trincheiras” - esclarece.
Mais tarde, a quinta passou a residência de férias e “têm sido criados por toda a quinta e com uma grande dose de “arte e engenho”, por parte de António Câmara, recantos muito curiosos e muito bonitos, com azulejos de Jorge Colaço, o maior azuleijista português, e também de Victor Câmara e com poetas dos maiores poetas açorianos”.
A partir de certa altura, conta que esta “deixou de ser uma casa de veraneio para ser uma casa a tempo permanente, já com o filho de António, Nuno Câmara”.
Depois do falecimento do sogro, Ana Pavão Câmara e o marido decidiram, no ano 2000, que “para aguentar uma quinta desta envergadura, a melhor forma de a rentabilizar e manter na família era transformá-la em turismo rural”.
Em termos de afluência de turistas, a empresária revela que o ano passado foi “extremamente bom”, pois teve clientes de Janeiro a Dezembro. “Em 2008, ainda estou para averiguar o que se passa, porque só no começo de Abril é que tenho clientes”- lamenta, acrescentando que “foram cancelados muitos voos, não sei se devido às obras da Avenida”. A verdade é que há um “decréscimo muito grande este ano” no turismo.
“Infelizmente, enquanto tivermos só duas companhias de aviação a voar para os Açores, estamos limitados. Não podemos desenvolver o turismo de qualquer maneira”- salienta.
A proprietária da Quinta da Abelheira vai ainda mais longe ao afirmar que, sendo a SATA um serviço público, os bilhetes deviam ter um tarifário “muito mais concorrencial”, pois viajar de Lisboa para Londres é “muito mais barato, e são as mesmas duas horas, do que vir do continente para os Açores”. De momento, classifica o mercado como “extremamente instável”, avançando que, em 2008, este estabiliza “somente a partir de Abril”, com os voos de Inglaterra e da Alemanha. “Assim, não se vai longe” - sublinha.
Quanto à Quinta da Abelheira fazer parte do itinerário da conhecida Volta à Ilha dos Clássicos, realizada anualmente, no mês de Setembro, em São Miguel, Ana Medeiros Câmara revela que tudo começou, por ter um carro antigo e também participar. Por isso, resolveram fazer da quinta um ponto de paragem, para “um pouco de convívio e para dar a conhecer que não só os grandes hotéis têm condições para receber o rallye dos carros antigos. As pequenas quintas também fazem ou poderão fazer parte destes eventos”- enfatiza.
Referindo-se ao que pode ser feito para melhorar o turismo nos Açores, a empresária diz estarmos a “andar como o caranguejo”, o que lamenta bastante, mas “não temos as pessoas certas no lugar certo”.
Além disso, acrescenta que “a SATA em vez de financiar, “como fez anos seguidos”, os voos para a Suécia – povo que apelida de “ ‘praga dos piolhos amarelos’, que não nos traziam nada” - devia financiar “pura e simplesmente o mercado português”, argumentando que ainda somos Portugal, “felizmente ou infelizmente”.
Na opinião da proprietária da herdade e considerando que somos portugueses, “não se justifica de forma alguma que um voo do continente para aqui custe 300 e tal euros, para um residente. Logo, para um continental vir para aqui é muito mais caro”.
Quanto ao preço das passagens áreas, defende que estas deviam ser “financiadas pelo governo regional”, para os continentais viajarem dentro do seu país. A seu ver, aí teríamos uma “grande afluência de continentais”, que considera serem, “sem dúvida, o nosso maior cliente”.
Ana Câmara caracteriza ainda o continental, como “o turista que gosta de comer, gosta de provar os nossos petiscos, gosta de levar uma prenda ao afilhado que vive no norte ou no sul, para o vizinho, reconhecendo ser este que nos dá “grande movimentação em todos os sectores inerentes ao turismo e não “os suecos que não gastam, que vão comprar as suas bebidas ao hiper”. Segundo a empresária, o continental não faz isso, ele quando vem está predisposto a ganhar, a gastar, a provar, a saborear as suas férias”.
Por tudo isto, a proprietária da quinta faz uma critica aberta ao governo, avançando que deveriam haver voos lowcost para o continente português, o que “depende da vontade politica do governo, que nesta altura, penso não ter vontade para coisa nenhuma”.
Segundo a empresária, o “futuro do turismo nos Açores reside no turismo rural”, que “não tem concorrência com os grandes hotéis. São dois tipos de turismo completamente diferentes e um não se sobrepõe ao outro, não são incompatíveis”.
Esta acrescenta ainda, e segundo o que tem lido sobre o tema, que “em todo o mundo cada vez mais se aposta em turismo em espaço rural”. Outro aspecto do turismo regional que não passa em branco aos olhos de Ana Câmara, é o facto de se construírem “hotéis de grande dimensão, como se tem feito” sem “recuperar o património”.
“Nós temos edifícios lindíssimos, até no centro da cidade e transformá-los em pequenas unidades de turismo seria um grande passo a dar, até para recuperação das casas que estão ao abandono”- salienta, avançando que a cidade teria “muito mais vida, seria muito mais bonita”. Termina dizendo que o futuro está nas “pequenas unidades com um serviço personalizado e de maior qualidade” e, não nos grandes hotéis.
Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Março de 2008.

A Devoção no Feminino

Actualmente, são várias as mulheres que, rezando, percorrem as estradas da ilha a pé, faça chuva ou faça sol. Não é tarefa fácil, mas a devoção fala mais alto.
Maria do Espírito Santo Medeiros conta-nos, o que levou a estes actos de fé.
Há vários anos, que estamos habituados a ver os romeiros a viajarem a pé por toda a ilha, numa tradição originária de São Miguel, que a esta altura já se ramificou até à Terceira. A novidade é que agora também as mulheres o fazem, principalmente em idas a Nossa Sra. da Paz.
Maria do Espírito Santo Medeiros, criada na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, começa por explicar que no sítio onde vivia, ocorriam muitos tremores de terra e as pessoas faziam muitas romarias a Nossa Sra. da Paz, a pedir que acalmassem. “Havia falta de água, não chovia e também pedíamos por isso”. Faziam romarias com velas à noite, indo até ao monte, por atalhos. “Não era como agora” – esclarece, salientando que ficou “com aquele 'bichinho' de ir ali.
Em 1998, aquando da guerra em Timor-leste Maria Medeiros juntou-se com um “compadre, já falecido, uma tia dele, uma senhora, sogra de um outro romeiro”, pois havia a “possibilidade de fazermos isto a Vila Franca, para pedir a paz em Timor. E assim foi, juntamo-nos e fomos e viemos a pé, ainda no mesmo ano. Essas pessoas deixaram de participar, mas acompanharam-me enquanto puderam”. E tudo continuou até hoje.
Chegaram a ser “170 pessoas, mas neste momento somos 97” – explica, lembrando terem também “5 ou 6 senhores que querem participar, entre eles o meu genro que é romeiro e vai-nos ajudar”.
A ideia dos homens lhes poderem acompanhar surgiu, pois é uma maneira de estarem “protegidas. Sim, porque senão estaríamos sozinhas durante toda a noite. Então, vão um ou dois ao lado do rancho, um à frente e um atrás. Se temos mais dois ou três, eles fecham o rancho”.
Mas, normalmente aparecem muitas pessoas “mesmo na altura de partir”.
Em 2006 foram para a Nossa Sra. da Paz. Como de costume, “saímos daqui às 21h00,descemos o Pilar. Paramos na igreja dos anjos e fazemos a nossa oração. Oramos ainda na Sra. da Boa Nova, entramos na ermida da Casa de Saúde, descemos a canada dos Prestes e vamos ter a São Roque. Só paramos para descansar um pouco”.
O ano passado foi a vez das Capelas, da igreja de Nossa Sra. da Apresentação.
Este ano, a escolha recaiu nas Calhetas de Rabo de Peixe, na própria igreja de Nossa Sra. da Paz. “Saímos às 18h00 daqui, para chegarmos lá às 19h30 para a missa e, depois dormimos no salão paroquial. De manhã, regressamos, por volta das 5h30 ou 6h00”- conta, ressalvando que quando chegam, vão ainda na Procissão de Ramos para a missa das 11h30.
A romaria a que se refere dura “4 a 5 horas, não mais do que isso”. Por isso, saem às 15h00, para estarem na missa das 19h30.
Na romaria de Vila Franca do Campo, que é “a que costumamos fazer todos os anos”, saem às 21h00 de 6ª feira e, chegam cerca das 7h00 da manhã de Sábado.
Segundo Maria de Medeiros, o único projecto é “continuar até ter forças”. Sim, pois todos anos, por esta altura, “um mês ou dois antes, já tenho o telefone a tocar. Tratam-me a irmã Maria, que é como nos chamamos nas romarias. E realmente somos todos irmãos”- afirma, satisfeita.
Por outro lado, reconhece ser “difícil”, haver alguém que dê continuidade às romarias.
O que, a seu ver, acontece, porque “apesar de ser um acto de fé, as pessoas não querem responsabilidades. Sim, porque temos sempre de falar com o Sr. padre para pedir autorização. Gosto sempre de combinar tudo antes”.
Maria Medeiros termina, deixando uma mensagem às pessoas. Temos de pensar que a vida é difícil e que “ninguém é santo”. Somos todos “um bocado pecadores, embora às vezes sejamos pecadores sem termos a ideia de que o estamos sendo”- salienta, lembrando ser necessário ter “muita fé”, porque a caminhada torna-se pesada”.
“Há quem fale mal da nossa caminhada, mas para a fazermos é precisa muita fé. É o que nos faz andar e pedir, não só por nós, mas pelo mundo, por aqueles que necessitam mais”.
Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Março de 2008.

2000 mil Desempregados Sem Subsídio

Ajustar a escolha do jovem às necessidades do mercado e optar por "licenciaturas de banda larga", são as missivas de Rui Bettencourt, para tentar melhorar a questão do desemprego na Região. O recibo verde e o seu abuso, por parte das empresas que através deste obtêm mão-de-obra grátis, são mais uma realidade que vem dar um aspecto ainda mais negro a este quadro.
Estágios no estrangeiro são outra forma dos jovens terem mais empregabilidade no mercado de trabalho, alem de poderem, assim, adquirir uma nova cultura.

Os Açores têm 4 mil desempregados, metade destes sem receber qualquer tipo de subsídio. Estagiar no estrangeiro através dos programas Leonardo da Vinci, Eurodisseia ou Erasmus, pode ser uma boa táctica de aumentar a empregabilidade destes estudantes, facilitando a sua entrada no mundo do trabalho.
Rui Bettencourt, director regional do emprego e qualificação profissional classifica estes programas como algo de "muito positivo", por várias razões. Justifica-se, dizendo que "aumenta muito a prioridade, pois um jovem que está uns meses numa região, num pais europeu a aprender outras realidades, outra língua, evidentemente que tem outra potencialidade em termos de emprego, porque, não só aprende novas técnicas no seu emprego, como já conhece novas culturas, novas realidades de trabalho, uma nova abordagem do mundo laboral"-salienta.
Lembra ainda que "raramente", um jovem que faça estes estágios tem dificuldade de inserção profissional, de empregabilidade. Afirma fomentar muito estes programas, abordando a existência de um estudo divulgado recentemente, "sobre as perspectivas dos jovens licenciados que se encontram a estudar no continente, 40% deles quer fazer estágios no estrangeiro".
E continua, avançando estarmos "numa época de grande cultura, de jovens açorianos a estagiar no estrangeiro".O que é óptimo para Região, pois a Europa "é para nós um palco privilegiado". Quando são europeus a virem para os Açores, isto "também abre os Açores à Europa".
"Neste momento, temos 50 jovens açorianos a irem para a Europa e temos 50 jovens europeus, que chegam em finais de Abril, para estagiar 6 meses nos Açores no âmbito do programa Eurodisseia"- enfatiza, afirmando tratar-se de um intercâmbio "muito interessante, que além de aumentar a empregabilidade dos jovens, tem também uma outra consequência que é a aproximação e a construção" da União Europeia.
Refere também que nos aproximamos da Europa, que também se aproxima de nós e conhece-nos e que "todos os anos, temos 50 jovens europeus a estagiar nos Açores". Alguns regressam, mas nem todos. "Há sempre 2 ou 3 que ficam, nos Açores".
Isto é fundamental, porque "faz com que os Açores sejam conhecidos"-realça, apelidando-os de "embaixadores dos Açores" nos seus países de origem.
Segundo o director regional, existem de momento, "2 programas de intercâmbio e mobilidade".
O Leonardo da Vinci é um programa de iniciativa comunitária que tem 30 jovens. Dura de "3 a 4 meses", e destina-se a licenciados e não licenciados.
O programa Eurodisseia, é geralmente utilizado por licenciados. "Termos 50 jovens, mas vamos aumentar para 70. Começamos por fazê-lo com licenciados e não licenciados, pois o programa permite, mas temos dado prioridade aos licenciados e alunos do ensino profissional a nível do 12º ano, num caso ou outro"- explica.
O Eurodisseia, além de "promover de uma maneira muito forte a empregabilidade dos jovens, aproxima os Açores da Europa" e vice-versa.
"Trata-se de um programa de âmbito transnacional, entre regiões europeias, uma vitrine do regionalismo e da eficácia dos parceiros regionais"-acrescenta.
Rui Bettencourt aproveita para dizer que há uma grande preocupação em "construir a Europa das regiões e as decisões regionais são de muito maior pertinência"- afirma, registando serem "290 regiões só para a União Europeia". Sim, porque há regiões russas, turcas, ucranianas que "não sendo da União Europeia, pertencem à história das regiões da Europa e participam no Eurodisseia".
Revela que a direcção regional dirige este programa com todas estas regiões desde "há 2 anos", 2007 e 2008; e tiveram de novo "candidatos para continuar até 2010" o que os coloca com "muita credibilidade" no palco europeu.
"Leva a que os nossos parceiros vejam que somos eficientes, levam-nos a sério"- esclarece.
O director regional revela ainda, em primeira-mão, estar a organizar o Fórum das Regiões Europeias, sobre "a influência do regionalismo na construção da União Europeia". O evento realizar-se-á em Setembro deste ano, nas Portas do Mar e trará aos Açores um debate intitulado "A Identidade Regional e a Construção da Europa".
Através deste acontecimento, os Açores irão receber, não só todos os intervenientes no debate, como uma "mostra das regiões europeias".
"Os problemas de mobilidade têm efeito imediato na empregabilidade dos jovens e menos imediato, a médio prazo, sobre a construção da Europa", colocando os Açores no topo das decisões.
Explica que com estes programas da Eurodisseia, "criam-se paralelamente outras competências, como o facto, da Região pertencer agora ao bureaux político da Assembleia das Regiões", onde tem lugar fixo.
"Estamos envolvidos nesta dinâmica, com estas frentes de combate, tendo consciência de que a nossa participação europeia vai desde uma resposta muito individual a cada jovem até, de uma maneira mais global, colocar os Açores no palco das decisões"- evidencia.
Em termos de saídas profissionais, Rui Bettencourt considera estes programas como "uma mais-valia", pois os jovens são encaminhados "conforme as necessidades regionais" e os seus desejos. Além disso, estes jovens vão "criar competências" em diversos países europeus, regressando depois aos Açores, se assim o entenderem, e enriquecendo o mercado trabalho regional.
São vários os casos de sucesso. Desde jovens que vão para Barcelona nas áreas das Artes, da Arquitectura e do Design, a 3 jovens que vão para Paris também na área das Belas Artes e da Biologia. "Temos uma jovem que fez o curso de Biologia nos Açores, depois foi para o Instituto Pasteur, em Paris, e ficou lá a trabalhar - salienta, lembrando tratar-se uma "referência mundial".
O director regional vai ainda mais longe, ao afirmar que este é um "momento de viragem" neste programa de mobilidade, porque "as regiões de Leste vão entrar".
"Temos várias solicitações de empresas e de jovens da Europa de Leste, que querem estabelecer parcerias e receber estagiários nossos. Temos uma obrigação e um dever de dar a conhecer a Roménia, a Ucrânia e a Croácia, regiões com as quais vamos fazer intercâmbios". Lembra também que a Croácia é um país com características de turismo muito parecidas com as portuguesas e "podemos aprender muito com eles, pois têm uma tradição turística bastante grande". A Roménia tem um "desejo de crescimento bastante acentuado" e há empresas portuguesas a instalarem-se na Roménia e estão a solicitar alguns jovens para estagiar.
Na sua opinião, esta evolução da Europa tem se processado com uma "rapidez enorme", e os Açores querem "não só ir atrás, mas conduzi-la e temos a consciência que é uma época de completa viragem, que só conseguimos controlar conscientes do que há a fazer".
O importante é "unir os Açores à Europa" e permitir que muitos jovens açorianos consigam ir para lá. "Depois regressarão, ou não" - alerta, evidenciando que a taxa de regresso tanto dos açorianos, como dos europeus, "ronda os 80% e há 20% que fica", com a esperança de regressar mais tarde com outras competências.
Ainda existe muito pouco intercâmbio com os países de Leste, há que "dar um salto importante". Apesar de terem alguma experiência com jovens da Europa de Leste, também têm verificado um "acréscimo do fluxo entre países europeus de Leste/Oeste e vice-versa.
Conta que há pouco tempo, a Região recebeu uma jovem belga. "Ela trabalhou na SATA e foi-se embora a falar português impecavelmente e com uma óptima imagem dos Açores"-recorda, evidenciando que tudo isto, é um "indicador"de que a Europa está se está a construir com a participação dos Açores.
"O Erasmus é um programa universitário e tem uma lógica própria e características relacionadas com a aquisição de créditos universitários nos estados membros"- informa.
Existem outros programas que estão mais relacionados com a "inovação na área dos recursos humanos", nomeadamente a inovação de "políticas de instrumentos de recursos humanos".

Passaportes de Competências Profissionais

Rui Bettencourt aproveita a ocasião para falar sobre um projecto "muito interessante" e pioneiro a nível da Europa, que tem a duração de 2 anos, e está relacionado com Passaportes de Competências Profissionais.
Já há o Euro Passe, que é um documento de registo, uma espécie de Curriculum Vitae disponível em todos os países da Europa. Agora, "durante 2 anos e liderados pela França, temos junto com 7 parceiros europeus a responsabilidade, dada pela comissão europeia, de fazer um passaporte de competências e um eportfolio (e de euro)"- explica, salientando que o objectivo é fazer com uma pessoa em qualquer país da Europa possa ter um registo, ao longo da sua vida, com todas as suas competências, validando-as em toda a Europa". É um Curriculum universal.
O director regional chama a atenção para o facto de tudo isto contribuir para a "mobilidade, pois um dos aspectos que a entrava era precisamente a falta de um documento desta natureza" – afirma, acrescentando ser com "muita honra" que faz parte deste projecto, pois os Açores são o representante português que irá ter responsabilidade de em 2009 e 2010, "divulgar em Portugal este documento", o que está consciente de ser "muito trabalhoso do ponto de vista de conceito, de elaboração de projecto e do documento".
Relata também ao Terra Nostra, que os Açores escolheram por temáticas próprias 2 actividades, a "Construção Civil e o Turismo e como preocupação central a certidão de competências dos trabalhadores açorianos e dos jovens que saiem do ensino profissional". Esta metodologia será divulgada pelas empresas açorianas e depois a nível nacional.
"Um factor constante é a preocupação com a metodologia estratégica, ver sempre o que está a acontecer e entrar na porta certa para um projecto"- ressalva, lembrando que o projecto não é gerido por cada país, mas sim "transversal a toda a Europa".

Referindo-se aos programas de intercâmbio, Rui Bettencourt afirma estarem em "velocidade de cruzeiro", com "50 estudantes envolvidos e, para o ano, poderemos ter 80", porque já houve jovens licenciados, a manifestarem o desejo de fazer um estágio na Europa.
"Há 10 anos atrás, tivemos alguma dificuldade de começarmos com 3 ou 4 jovens. Tínhamos 3 ou 4 jovens no Eurodisseia e 2 ou 3 no Leonardo da Vinci" – recorda, lembrando que o programa Leonardo começou nos Açores em 1997/98.
"Os que os jovens ainda tinham um certo receio em sair, interrogando-se sobre o que iria acontecer. Os próprios pais também estavam preocupados. Agora de uns para outros, vão contando como foi" – acrescenta, tornando claro que tudo isto "exige uma atenção muito particular na rede de acolhimento". Mas não há motivos para preocupações, pois têm tido "absoluta segurança" nos seus parceiros para que o jovem seja acolhido "com qualidade". Actualmente, a Região faz parte de uma rede com 280 parceiros, com os quais trabalha regularmente e que a visitarão todos em Setembro".
Rui Bettencourt menciona ainda um outro programa, que faz parte também de uma rede europeia de emprego, o European Employment Service (EURES), à qual qualquer pessoa se pode candidatar, se quiser ir trabalhar para fora do país.
"Evidentemente, gostaríamos mais de trazer pessoas para os Açores, do que de deixar sair os açorianos. A Região tem 250 mil pessoas, se tivesse 400 mil pessoas seria muito melhor"- confessa, lembrando que é toda esta mobilidade que permite que se tenha "inovação e novas ideias".
Na sua opinião e ao contrário do que se possa pensar, os Açores são a região europeia mais jovem, "temos o dobro dos jovens em relação aos idosos. A nível nacional, há praticamente o mesmo número de idosos e de jovens, temos o dobro.
Isto, apesar desta região de jovens representar "uma percentagem ínfima do todo europeu".
Quanto ao projecto com mais adesão, Rui Bettencourt revela que o Eurodisseia tem "disparado", com 50 jovens, contra 30-40 do Leonardo da Vinci. Justifica esta realidade, com o facto do estágio na Eurodisseia ser "mais acolhedor, com um mês de aprendizagem da língua e tem mais acompanhamento". Enquanto, no Leonardo que tem duração de 3 meses, "o acompanhamento não é tão grande".
"No Eurodisseia têm à chegada um mês de língua e de Historia e Geografia dos Açores, para conhecerem a nossa realidade. E depois também têm uma maior proximidade com os gestores, com os responsáveis e com a população. Porque o Eurodisseia é um programa que está muito regional. Temos uns panfletos escritos em inglês e francês, que enviamos por toda a Europa a explicar como funciona o programa"- explica.
Para quem queira aderir a estes programas, o director regional informa que "as inscrições estão sempre abertas".
O programa Leonardo tem prazos próprios, mas o Eurodisseia está sempre aberto, o que lhes permite negociarem com os outros países, para receberem mais 2 ou 3 jovens.
"Já aconteceu a Suíça ter 7 jovens açorianos ao mesmo tempo, pois estes demonstraram grande interesse na área do Turismo e Hotelaria".
É tal o pormenor a que chega, para tentar diminuir o desemprego na Região, que até os
Jovens açorianos, actualmente, a estudar no continente, "sabemos eles quem são e estamos em vias de os contactar quando acabarem a licenciatura"-revela.
Estes programas têm uma idade limite de 28/29 anos, mas admite haver "margem de manobra para os recém-licenciados".
"É um programa com uma vantagem muito grande, porque há apoios que são diferenciados. Um jovem a estagiar na Croácia, não gasta tanto como a estagiar em Paris"- evidencia.
No que diz respeito ao investimento feito pela Região, os valores são de "15 mil euros por estudante, pois assume-se as passagens e uma bolsa. Os jovens que nos chegam da Europa têm a viagem paga, o alojamento e recebem uma bolsa mensal de 700 euros" – esclarece.
O jovem candidata-se, tem uma conversa com um conselheiro que lhe explica como o estágio funciona, quais as condições. O conselheiro tenta ainda descobrir se o jovem tem "maturidade suficiente para ir para a Europa, sair da casa e da família que conhece e ir, para um pais ou região, onde, às vezes, não há ninguém que fale a mesma língua".
Há ainda um factor importante na divulgação dos Açores.
Os jovens que ficam no estrangeiro, depois iniciam relações pessoais de amizades, namoro e casamento, que "vão ter influência na construção desta Europa que se deseja".
Por outro lado, muitos familiares dos jovens que vêm para os Açores, visitam-nos.

Desemprego

Referindo-se à temática do desemprego, o director regional avança que, "apesar das flutuações", os Açores representam "metade da taxa de desemprego nacional, flutuando entre os 3,5% e os 4,9%". Nos próximos meses, temos um total de "4 mil desempregados".
Rui Bettencourt afirma que "há 10 anos atrás, a percentagem de jovens à procura do 1º emprego era de 30/40%. Agora, é de 10%. Deu-se uma quebra bastante significativa, pois deve-se fazer tudo para o jovem ter uma 1ª experiência, a dar um 1º passo.
Quanto à ideia de que estamos em crise, defende que "de qualquer modo estaremos sempre, mas não é tanto assim".
Fazendo um balanço dos últimos 10 anos, avança: "pusemos de pé, várias medidas, como estágios tanto europeus com regionais, formação profissional". Mas, chegou a altura de avançar para uma fase de "apostar na formação de activos, porque a maior parte desses jovens já são trabalhadores".
O jovem entra num posto de trabalho e depois tem 5 anos pela frente com grande capacidade, com ajuda e incentivos próprios para se "manter sempre ao nível da empregabilidade".
"Temos de ter uma grande preocupação nesta próxima década de acompanhamento e formação profissional, porque as escolhas são muitas, as expectativas nem sempre são boas e é importante que o jovem saiba da existência de um mecanismo que lhe ajuda" –declara.
Rui Bettencourt reconhece também que, enquanto, há uns anos atrás um jovem que terminasse um determinado curso, já "sabia conseguir emprego em determinado sítio. Actualmente, a realidade é bem diferente". Daí a necessidade de um "acompanhamento,
e de orientação profissional junto com a formação de activos – que são, aliás, os 2 grandes "desígnios para os próximos 10 anos".
Muitas pessoas se queixam de que, ao se dirigirem ao centro de emprego, encontram normalmente empregos apenas nos quadros inferiores. A seu ver, esta situação dá-se
devido a 2 problemas, 2 extremos da balança. Por um lado, temos "3/4 de desempregados, que não tem o 9º ano, não tem qualificação profissional e para eles é muito complicado"- admite, revelando que a estratégia de acção consiste em levá-los a ter " mais empregabilidade, formando-se". Para isso, existe o programa Reactivar e outros do género.
Por outro lado, "felizmente em muito menor número - falo de 130/150, em relação a pouco mais de 3 mil sem o 9º ano - temos os licenciados".

Nesta questão, Rui Bettencourt sublinha que o importante, não são os números, mas a "grande injustiça" que aqui se verifica.
"Um jovem, e família, que investe anos da sua vida na formação do 12º ano com toda a sociedade a dizer que se este tiver sucesso, tira a licenciatura e depois arranja emprego!" É uma "frustração social grande", afirma explicando que o facto é que algumas licenciaturas "não estão ajustadas ao mundo do trabalho". Por isso, tem de ser feito um grande esforço de "ajustamento da saída universitária ao mundo do trabalho". Caso contrário, corre-se o risco do jovem entrar numa frustração social grave ou, as universidades ficam "desacreditadas".
Na formação profissional, os recursos são ajustados às necessidades das empresas e são aprovados cursos em função disso. Rui Bettencourt vai ainda mais longe, ao afirmar que era necessário que houvesse, "por parte das universidades", uma certa interrogação sobre que cursos estão a fazer. "Senão, os jovens deixam de ir para a universidade ou vão para cursos que têm outra empregabilidade" - lamenta.
Outra opção para combater o desemprego, é o jovem escolher uma "licenciatura banda larga", que se ajusta a várias profissões, devendo apostar depois na formação de Pós-Graduação e, essencialmente, em "reconversões permanentes".
Isto, porque "é falso pensar que há muitos licenciados, há poucos. Temos cerca de 5% da população activa de licenciados, na Europa têm 22 e 30%. As empresas, por sua vez, têm de reconhecer que um licenciado é alguém que tem uma formação superior e há que preparar as universidades para que os jovens fiquem com cursos apetecíveis aos empresários" –enfatiza.
Quanto às necessidades do mercado, o director regional revela haverem "3 áreas ainda muito necessitadas". Começando por mencionar, a nível superior as "engenharias (com excepção de engenharia de cerâmica, por exemplo), a medicina, a gestão e cursos de intérprete. No prazo de 5/6 anos pensamos que as biotecnologias podem disparar em termos de importância na nossa indústria agro-alimentar".
Afirma também a existência de uma "grande sede de quadros médios, em algumas áreas da informática, técnicos de gestão, de energias renováveis e de hectare".
"São por volta de 4 mil desempregados, metade com e, metade sem subsidio de desemprego", pois a legislação está um pouco mais "apertada" em relação a esta questão.
Quanto ao Estagiar L (que funciona em todas as ilhas) e ao facto de, como é conhecimento geral muitas empresas se aproveitarem deste programa para conseguirem mão-de-obra grátis, Rui Bettencourt afirma que "isso é verdade e temos tentado reagir contra ".
E continua, afirmando que foram tomadas algumas medidas. Por exemplo, "desde 1998, temos feito com que não haja estágios em juntas de freguesia, câmaras, e outras entidades que não têm empregabilidade".
Também em 2008, já "demos um passo importante, porque fomos ver quais as empresas regionais, que sistematicamente fazem isso e, nestes casos, vamos tentar aconselhar os jovens a não irem. É iludir as pessoas"- salienta, revoltado.
Por outro lado, há empresas que geralmente "ficam com todos os estagiários" que por lá passam.
Nos casos em que as empresas querem realmente ficar com os jovens, "30 /40% ficam logo no mês seguinte, os restantes ficam nos 6 meses posteriores". Metade dos jovens, não fica na própria empresa, mas sim numa que fique ao lado, numa empresa concorrente.
Actualmente, um jovem que termine o Estagiar L pode também fazer o curso de empreendedorismo.

Recibos Verdes

Abordando a questão do recibo verde e do seu uso indevido por parte de algumas empresas, Rui Bettencourt afirma não haver legislação para abolir este regime de trabalho. O que fizeram, há cerca de 1 ano e meio, foi uma "regulação. Temos insistido com o Tribunal e com a Inspecção Regional de Trabalho, na questão da precariedade. É verdade que nem sempre a economia permite ou as empresas precisam de pessoas no seu quadro definitivo". Agora, outra coisa é a precariedade que, "às vezes, temos de combater e que não é fácil de detectar".
O recibo verde merece alguma reflexão, pois existe apenas "para quando uma empresa adquire serviços a uma pessoa, não podendo esta ser vista como alguém que está permanentemente com um superior hierárquico e com horário"- alerta, avançando que têm tido "muita atenção" junto com a Inspecção de Trabalho, que tem instruções para "detectar todos os casos de falsos recibos verdes".
O facto é que "em 5 anos, e o governo já apresentou estes valores, o número de trabalhadores em quadro definitivo aumentou 23,8%, o número global de trabalhadores aumentou 10%, tendo caído fortemente as situações atípicas, como a do recibo verde, para 34%" – relata, satisfeito.
Em 2007, tivemos "17 mil informações, de orais a escritas, num total de 10 inspecções por dia, 10 visitas às empresas".

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Março de 2008.