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terça-feira, 29 de abril de 2008

Teatro: Almeno Gonçalves Uma grande "crise" no Teatro

O teatro está a atravessar uma “crise profunda” e as entidades competentes têm de agir, para não perdermos este importante veículo de “cultura humana”, que junta na mesma sala pessoas de todas as idades e mentalidades, em espectáculos que, de uma maneira ou de outra, as marcam para sempre em questão de horas.
Natural de Braga, Almeno Gonçalves foi para Lisboa aos 21 anos e lá ficou, depois de ingressar no mundo do teatro, no qual se mantém até hoje em paralelo com a televisão e o cinema.

Almeno Gonçalves, António Melo, Joaquim Nicolau e Fernando Ferrão, conhecidos actores dos Malucos do Riso, vieram a Ponta Delgada apresentar a comédia A Crise dos 40. Segundo Almeno Gonçalves, trata-se de uma versão adaptada de uma comédia do original espanhol La Curva De La Felicidad, da autoria de Eduardo Galán e Pedro Gómez, que conta “a história de um homem, cuja mulher o deixa e troca por outro”. A casa dos dois é posta à venda, porque ela quer a sua parte. Surgem, então, três compradores na mesma situação do que ele, e acabam por ficar a viver os quatro, pois “vivem uma situação semelhante”.
“É uma abordagem à problemática, que é ficarmos a viver sozinhos, neste caso separados das mulheres, aos 40 anos de idade, uma altura dramática” - esclarece.
A ideia, revela, partiu do encenador Celso Cleto, que no início queria encenar a peça em Madrid, mas os quatro actores queriam fazer algo em conjunto. Celso Cleto sugeriu a peça, “nós gostamos e resolvemos pô-la em palco”.
Um divertido espectáculo, que já percorreu mais de 40 cidades, um pouco por todo o país, tendo sido já aplaudido por mais 47.000 espectadores.
Avança ainda que já há uma alteração “muito grande”, em relação ao espectáculo inicial, pois houve uma série de “propostas, que foram surgindo por parte dos actores”. Para ter uma ideia da mudança, “o espectáculo estriou com cerca de uma hora. Neste momento, tem quase 3 horas e está quase há dois anos em palco”- acrescenta.
Nascido numa freguesia de Braga, Concelho de Cabeceiras de Basto, Almeno Gonçalves foi para Lisboa com 21 anos, para “fazer o curso de teatro da Comuna”, onde ficou até hoje.
Diz gostar muito de fazer, tanto teatro como televisão, pois o teatro faz parte da sua vida, desde que é profissional, mas também fez sempre cinema e televisão “paralelamente, mais televisão do que outras coisas”-admite, salientando gostar “muito” de representar e serem duas coisas completamente distintas.
O actor aproveita para distinguir o teatro da televisão, afirmando que este tem uma “exigência na preparação, que é impossível ter com uma novela”, devido ao “ritmo de gravação”.
Além das “possibilidades que a televisão tem do ponto do vista técnico, de se poder organizar as coisas, no sentido de extrair o melhor que se faz naquela cena, no teatro não é possível. Temos uma cena apresentada tal qual foi ensaiada e preparada e é um plano geral”.
Por outro lado, na televisão, muitas vezes uma cena pode ser dividida em 2 ou 3 takes e estes, depois, são “montados de maneira diferente”.
“Há um aspecto mais artesanal ligado ao teatro, que a televisão não tem” - reconhece.
Abordando a evolução das telenovelas portuguesas, o actor defende que estas percorreram já um longo caminho, desde os Jardins Proibidos, que, em 1995, foi a “primeira telenovela portuguesa a destronar uma brasileira”, concretamente, evidência, com a liderança da TVI, que tem sido a “grande impulsionadora” das telenovelas portuguesas.
De facto, têm havido “melhorias muito grandes”, podendo as telenovelas portuguesas ser equiparadas às brasileiras, “em alguns aspectos”.
O teatro “continua em crise”, lamenta, mencionando a crise “profundíssima” que existe no teatro. “Mas desde que me conheço, que ouço dizer que a crise está associada ao teatro”, o que a seu ver acontece, porque não temos, desde novos, o “hábito” de ir ao teatro.
Segundo Almeno Gonçalves, “o teatro é um bocadinho feito por pessoas com grande amor, porque é algo muito exigente”. Por outro lado, caracteriza os espectadores como pessoas que por alguma razão foram ao teatro, “gostaram e continuaram a ir, ou vão muito particularmente a certos tipos de espectáculo, que têm grande público”.
O actor aproveita a ocasião para fazer um alerta ao país, afirmando haver um trabalho “muito grande a fazer por parte das entidades responsáveis, porque o teatro é essencial à cultura humana”. Este reconhece ser um trabalho que têm vindo a fazer, mas refere-se a algo mais “específico e bastante mais melhorado”, para que possamos ter um teatro “mais dinâmico, mais interventivo e mais contemporâneo e para que os nossos jovens tenham muito gosto em ir ao teatro também”.
Referindo-se às faixas etárias que mais vão ao teatro, afirma que este é essencialmente frequentado por “mulheres e por jovens, porque as mulheres são mais sensíveis a este tipo de veículo artístico”. Por seu lado, os jovens têm uma “disponibilidade muito grande, porque estão ansiosos por ver, conhecer e sentir algo novo e por isso têm uma grande ligação ao teatro”. As mulheres acabam, depois, por “trazer os homens atrás, que lhes fazem companhia”- aponta, dizendo falar de pessoas “de meia-idade”.
No caso da crise dos 40, como é um teatro “mais ou menos generalista, não é específico, nem voltado para um certo tipo de público”, afirma ter um público muito “diversificado, que vai desde os jovens até às pessoas mais idosas que, com muita regularidade” vão ao teatro.
O actor revela também que, actualmente, o projecto em televisão que lhe dá mais prazer é “a telenovela que estou a fazer, intitulada A Outra, que tem tido um grande êxito e dá-me muito gozo fazer”.
Em teatro, diz adorar O Dia do Pai, que é a próxima produção que estão a preparar, para estrear “a 8 de Maio”, no teatro Mundial, onde ficará até “Setembro, mês em que se inicia a tournée”. Por isso, sente-se “perfeitamente realizado” a este nível.
Em termos de projectos, lembra O Dia do Pai, que classifica como uma comédia “moderníssima, tanto do ponto de vista da temática, quer a nível da construção do próprio espectáculo”. Esta, conta, passa-se numa clínica de inseminação artificial, onde três homens, completamente diferentes a todos os níveis, são convocados para um deles ser o pai da criança de uma mulher que, tendo namorado com os três em alturas diferentes da sua vida, acha que cada um deles reúne as condições, para ser pai do seu filho e deixa isso ao cuidado deles. Eles, por sua vez, pensam que é para fazer um teste de paternidade.
No fundo, é uma reflexão sobre “as razões que levam os homens a quererem ser pais”, pois nas mulheres, esclarece, é “evidente a existência de um apelo constante”. Nos homens, isso já não acontece, “não se sabe” - admite.
Há muitas razões, que são levantadas na peça com as diferenças de cada um, num tom de comédia, numa “situação divertida, mas que ao mesmo tempo levanta questões que são muito actuais. A própria questão da inseminação artificial é um tema ainda muito pouco abordado, daí o interesse do texto”- conclui.

BIOGRAFIA

O actor e encenador Almeno Gonçalves nasceu, em Braga, no ano de 1959, e foi casado com a actriz Rita Salema, da qual tem uma filha, Francisca.
Iniciou-se no Teatro de Pesquisa da Comuna, onde se formou como actor, tendo sido dirigido por
João Mota em espectáculos como Má Sorte Ter Sido Puta, de John Ford ou Um Eléctrico Chamado Desejo, de Tennessee Williams.
Continuou a trabalhar em teatro, passando pelo
Teatro Experimental de Cascais, Teatro Nacional D. Maria II ou Teatro Aberto, tendo estado em palco ao lado de figuras como Luís Miguel Cintra, Christine Laurent e Luís Assis no Teatro da Cornucópia onde interpretou, entre outros, peças de Beaumarchais, Francisco de Holanda e William Shakespeare. Como encenador, dirigiu espectáculos de Wedekind, Abel Neves, Jaime Rocha, Camilo Castelo Branco ou Raymond Dutherque.
Almeno Gonçalves é também um actor regular na televisão, participando em séries e novelas, como em Os Malucos do Riso ou A Ilha dos Amores. No cinema participou nos filmes Zona J e Um Tiro No Escuro, de Leonel Vieira
, Debaixo da Cama, de Bruno Niel, e Uroboro, de Luís Gomes.

Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Abril de 2008.



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