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terça-feira, 8 de abril de 2008

A televisão para a educação


A televisão não é uma escola e não a substitui, mas muitas vezes é considerada a culpada de "todos os males da sociedade".
Lopes de Araújo, director da RTP Internacional, afirma ser necessário "educar para a televisão, orientar a televisão para a educação e ensinar a debater a sua temática", pois, a seu ver, as pessoas "não se sabem exprimir".


"Apesar de durante muitos anos ter sido vista como tal, especialmente desde que o serviço público de televisão assentava num triângulo de informar, educar e entreter/recriar (como se a televisão se pudesse substituir em matéria de educação!), a televisão não é uma escola, não a substitui e, muitas vezes, culpamo-la de todos os males da sociedade. A televisão não tem culpa da falta de leitura. (…) A função fundamental da televisão é de entretenimento e espectáculo" – foram palavras de Lopes de Araújo, director da RTP Internacional, num painel intitulado Televisão e Formação da Consciência Critica do Cidadão, integrado no III Colóquio de Educação – Educação e Comunicação Social: Caminhos de Cidadania, na Universidade dos Açores.
Lopes de Araújo iniciou a sua intervenção, dizendo que podemos ser o que quisermos, mas quando nascemos jornalistas, "um dia que se morra as pessoas dizem: morreu o jornalista X", no lugar do seu nome – Situação que ilustra bem a "responsabilidade" inerente à profissão e que os seus profissionais sentem. "Não é só a responsabilidade do dia-a-dia, mas também a de contribuir para a formação de uma melhor mentalidade do cidadão, de forma activa e critica"-acrescenta.
Referindo-se à sua vinda aos Açores, afirma sentir-se "bem e feliz" cada vez, que visita a Região, avançando ainda que o seu "modesto" contributo resulta de uma "reflexão de um profissional que leva 32 anos de profissão".
Na opinião do director do canal internacional da RTP, "educar para televisão" é a grande questão que se coloca, órgão que atravessa, actualmente, um "momento crucial".
E continua, dizendo que a ruptura do digital é "a maior ruptura da história da televisão,
uma grande descontinuidade".
Lopes de Araújo fez também referência a um artigo de Constança Sá e Cunha, publicado no jornal "O Publico", que classifica a escola de hoje, sobretudo, como um local "giro".
Avança ser esta a realidade, argumentando que, actualmente, os professores têm "medo" que os alunos se aborreçam, mas a ideia de "fugir ao ensino por este ser só aborrecimento, é errada".
A própria natureza do meio televisivo faz com que toda a programação seja "divertida", pois "a televisão de hoje é diversão". E a escola, "não que seja aborrecida, mas não tem de ser divertida".
Apelida ainda a publicidade de uma espécie de "líquido amniótico que alimenta, que envolve a programação, remetendo-nos para um mundo edílico".
"Não há publicidade má, no sentido de mostrar um mau produto"- acrescenta, lembrando que esta transporta "coisas boas".
Falando sobre as diferenças entre a televisão e a escola, Lopes de Araújo argumentou que a televisão lança o saber por "igual a todos", reúne todos por igual, enquanto o professor é visto como o que "deve saber tudo", o mediador de televisão é o que "nada sabe e pergunta o que queremos saber".
Além disso, a escola impõe "distância" aos assuntos e a televisão faz o contrário.
"A televisão come o tempo, suprime o tempo e a distância e não pergunta se o espectador percebeu"- enfatizou, salientando que o saber da escola é "estruturado e consolidado" ao longo de anos.
"A televisão vomita a informação e passa à frente", por isso, se não percebemos algo, não há forma de o recuperar.
Lopes de Araújo vai mais longe, ao lembrar que a televisão não tem culpa de que os jovens não tenham muita inclinação para a leitura, ressalvando existirem "velhos problemas".
Defende a televisão como um órgão de uma "capacidade sedutora fabulosa", mas em Portugal só recentemente se começou a estudar este media de um modo "científico".
"28 horas semanais é muito tempo a ver televisão e interessa, também, o modo como se vê televisão"- argumenta, dizendo que "a criança de 3 ou 4 anos não distingue" a realidade da ficção. "Mesmo as crianças de 6 ou 10 anos, podem creditar em tudo o que vêem" no grande ecran – acrescentou, salientando que é para elas que "temos de olhar" hoje.
O director da RTP Internacional chamou, também, a atenção para o facto de que, se a criança pensar que a televisão mostra a verdade, depois com vinte anos é "difícil" saber se assim é, ou não.
"É muito complicado inverter essa lógica, e a criança ocupa mais tempo na televisão, do que em qualquer actividade"- admitiu, avançando que, hoje em dia, as crianças têm "poucas actividades extra curriculares".
Por outro lado, segundo um estudo realizado em universidades dos Estados Unidos, as crianças de 5 anos que assistem a programas educativos para a sua idade, têm "melhor capacidade de aprendizagem".
Os jovens, defende, estão também "limitados" durante as férias, não podendo ir a um centro comercial sozinhos nem andar de bicicleta, porque é "perigoso".
Mencionando o tema da violência na televisão, Lopes de Araújo explicou que a exposição à violência e a comportamentos violentos conduzem a "baixos níveis de sociabilidade e a um receio do mundo. "A criança vê a violência e fica com medo da sociedade, o que é tremendo"- sublinhou.
Segundo um estudo realizado em 1997, pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), da maioria da violência na televisão portuguesa, nos canais nacionais, "50% não era justificada, 19% era motivada pela raiva e ódio e apenas 15% era em legitima defesa e 8% em cumprimento do dever". Referindo-se à violência em cumprimento do dever, o director do canal internacional da RTP avança que, "se a criança vir um polícia matar uma pessoa, ela entende, pois a violência aqui é atenuada por um motivo".
Na sua opinião, a violência nos media leva a uma "dessensibilização em relação à morte, aumenta a agressividade para com outras crianças e esta fica receosa do mundo".
Os próprios jogos, alerta, funcionam de modo que, "quanto mais matar mais prémios a criança ganha".
Outro factor agravante, é que cada casa normalmente tem "mais do que uma" televisão. E, muitas crianças, hoje em dia, "erradamente, têm televisão no quarto", o que, a seu ver, as deixa ainda mais "isoladas" da família e do acompanhamento de que necessitam.
"Não me refiro a proibir, mas há que acompanhar os programas a que os filhos assistem".
Falando da Internet, afirmou ser "ainda mais perigosa do que a televisão", pois as crianças registam-se em sites "de adultos, que até ensinam a construir uma bomba, dando dados falsos". Em Portugal, a sua taxa de penetração é "superior a 59%".
Referindo-se à informação disponível actualmente na televisão, afirma tratar-se de um jornalismo mais "interpretativo, do que descritivo, no qual a prioridade é o tema" e, não os factos. É pedido ao jornalista para agir como "analista do acontecimento", a pontos do sound bite nos Estados Unidos, ser de "12 segundos e passar a 10, em 1988"- enfatiza, salientando que "por cada minuto que um candidato presidencial fala, o jornalista fala cinco".
Para mais uma vez mostrar que nem tudo o que a televisão transmite é verdade, o director lembra que, muitas vezes, as pessoas se queixam de que o que apareceu no ecran não corresponde à verdade, que "a frase está fora do contexto". O que, na sua opinião, é um sinal da "diminuição da capacidade crítica do espectador".
O jornalista deve apresentar factos que o espectador interpreta, mas, lamenta, "a papa está toda feita". E esta situação não pode continuar, alerta, defendendo que temos que demonstrar ter uma "atitude crítica" em relação ao que vemos e duvidar".
Na opinião de Lopes de Araújo, a televisão mudou "profundamente nos últimos dois anos". Actualmente, a pessoa escolhe o que quer ver e, no "Youtube, pode ver conteúdos de vários canais quando quer".
Argumenta, também, que "os media, em especial a televisão, não substituem os educadores e a família e os pais não podem pôr a criança em frente à televisão, por terem trabalho".
"Não há uma criança que não deixe de ver televisão, para um dos pais lhe contar uma história"- enfatiza.
Falando sobre os tipos de público da televisão, apresenta as crianças como o mais procurado, pois elas "assistem ao mesmo programa várias vezes, vêem o programa todo de seguida e adoram publicidade".
No que toca a agir, o director afirma ser necessário "educar para a televisão, orientar a televisão para a educação e ensinar a debater a sua temática", pois, a seu ver, as pessoas "não se sabem exprimir".
Segundo Emanuel Oliveira de Medeiros, professor e presidente do Conselho Coordenador dos Estágios Pedagógicos, o Colóquio teve como grande objectivo proporcionar uma "reflexão interdisciplinar" que saliente a possível interligação entre a Educação e a Comunicação Social, numa perspectiva de "cidadania".

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Abril de 2008.

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