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segunda-feira, 26 de maio de 2008

Direitos humanos levam açoriano ao 1º lugar

Augusto Cid: Vencedor do X Festival Porto Cartoon World Festival

Augusto Cid foi o primeiro português, natural do Faial, a ganhar o Grande Prémio do X Porto Cartoon World Festival, organizado pelo Museu Nacional da Imprensa.
“A chama olímpica”, que apresenta um atleta chinês com a tocha olímpica em que as chamas são monges tibetanos, é o título do desenho, que aborda a questão da violação dos direitos humanos da China sobre o Tibete.

O desenho do faialense Augusto Cid, designado “A chama Olímpica”, arrecadou, por unanimidade do júri, o grande prémio da décima edição do festival, pela sua "actualidade e qualidade gráfica", referiram vários membros do júri.
Os “Direitos Humanos” foram o tema escolhido para esta edição e assumem nesta altura uma especial pertinência, pelos problemas levantados com a viagem da chama olímpica para a China.
Augusto Cid, cartoonista e colaborador do Semanário Sol, afirmou estar “muito feliz” e surpreendido com a distinção, visto tratar-se de um evento caracterizado por uma “elevada qualidade” e destacou ainda a crítica humorística como uma “arma de combate que denuncia situações tão graves como os recentes acontecimentos na China”.
Nasceu nos Açores, em 1941, e salienta ter sido “por acaso. Podia ter nascido noutro lado qualquer”. O pai foi colocado no Faial durante a guerra e regressou a Lisboa com toda a família, Augusto Cid era ainda “muito novo”.
Afirma ter despertado para o cartoon aos “18 ou 19 anos, quando esteve nos Estados Unidos e contactou com cartoonistas célebres, e com todo esse trabalho, que na altura trabalhavam nos principais jornais e alguns reformados que viviam na mesma cidade do que eu”.
O desenho, relata, tinha-o feito para o jornal Sol dentro da sua colaboração e quando soube que a temática a concurso era sobre os direitos humanos entendeu que era “importante” concorrer. Diz ser um pouco difícil de explicar como surgiu a ideia para o desenho, mas recorda-se de que nessa semana não havia “grande coisa” a nível nacional, “de maneira que me dediquei mais a temas internacionais e o tema que estava em foco na altura, e ainda está, eram as repercussões que estavam a ter em todo o mundo a luta dos Titans por uma certa autonomia e mesmo independência, a reacção da China a essa pretensão deles e, sobretudo, o papel dos monges nessas manifestações”.
Falando em termos futuros, o cartoonista pretende continuar a colaborar com o Semanário Sol, mas revela ter ainda projectos no campo da “escultura”, pois é também escultor. Augusto Cid frequentou o curso de Escultura e Belas Artes, da Escola de Belas Artes em Lisboa antes de partir para África e tem feito “vários trabalhos de escultura em Portugal e em Macau”.
Avança ainda que uma das suas peças, que irá ser inaugurada em Oeiras no próximo mês de Junho, incide sobre um dos temas que tem tendência a abordar “com frequência, que são os cavalos”.
“Publicar um livro com os meus melhores cartoons, desde 1974 até aos dias de hoje, apoiados num pequeno texto que ajude o leitor a situar os desenhos”, é outro projecto que “gostava” de ver realizado.
Luís Humberto Marcos, director do Porto Cartoon e do Museu Nacional da Imprensa, afirmou que “o desenho é de uma actualidade e impertinência extraordinárias, com uma dimensão estética e gráfica, capaz de ser lida em qualquer parte do mundo, que é a maior particularidade da linguagem do cartoon". O responsável frisou também ser "a primeira vez que o primeiro prémio é atribuído a um português, justamente num ano em que há um maior número de portugueses a participar".
"Os trabalhos deste ano apresentam a qualidade mais alta de sempre e uma forte polémica, relacionada com os jogos olímpicos"- salientou o director do festival.
Luís Humberto Marcos referiu ainda que "foi muito significativo para o Museu Nacional da Imprensa contar com a participação de países de zonas onde há falta de liberdade, em que três biliões de habitantes estão fora da geografia da liberdade". O tema do X Porto Cartoon, reconheceu, deste ano "é de grande preocupação mundial".
"É preciso levantar a bandeira dos direitos dos homens"- sustentou.
Os direitos humanos foram o tema escolhido para esta edição do Porto Cartoon, para relembrar que existem ainda “103 países que não têm liberdade plena”, referiu, citando o mais recente relatório da
Freedom House.
O director caracterizou o cartoon como uma “instância fundamental para passar mensagens de liberdade” e elogiou também o facto de países onde as liberdades estão mais restringidas terem participado em força, como por exemplo o Irão, o terceiro país com mais trabalhos enviados.
Marlene Pohle, membro do júri, explicou que o trabalho de um cartoonista requer "reflexão e união entre o artista, os media e o público", considerando o Porto Cartoon como um dos três principais festivais de desenho humorístico do mundo. "O cartoon "era catalogado como uma arte menor e hoje é já considerado uma arma poderosíssima para criticar a política"- argumentou.
O PortoCartoon-World Festival é considerado pela FECO (Federation of Cartoonists’ Organisations), um dos três principais festivais de desenho humorístico do mundo, o que coloca Portugal no pódio dos concursos internacionais de caricatura. A FECO é a mais importante organização internacional de cartunistas representando mais de 2000 artistas de 30 países.
O júri internacional do X PortoCartoon, presidido por Marlene Pohle, Presidente da FECO, integrou Xaquin Marin, director do Museo de Humor de Fene (Espanha); Júlio Dolbeth, da Faculdade de Belas Artes do Porto; Lucília José Justino, Presidente da Amnistia Internacional de Portugal; Naoki Seshimo, arquitecto japonês; Nuno Costa Santos, representante das Produções Fictícias; Raquel Almeida, em representação do Ministério da Cultura e Luís Humberto Marcos, director do PortoCartoon e do Museu Nacional da Imprensa. Organizado anualmente desde 1998, o PortoCartoon tem o Patrocínio Exclusivo da Caixa Geral de Depósitos e celebrou este ano o seu 10º aniversário.
Sempre com temas de grande impacto mundial, o festival internacional de cartoon já contabilizou a participação de mais de 4000 artistas dos quatro cantos do mundo, tendo já no seu espólio quase 13500 trabalhos, entre eles alguns dos meus renomados artistas mundiais.
Várias centenas de milhares de visitantes já visitaram as nove edições do PortoCartoon realizadas nas instalações do Museu Nacional da Imprensa, e nas diferentes cidades por onde passaram as exposições, incluindo Argentina, Brasil, Espanha e México.
O segundo prémio foi atribuído ao turco, Muhittin Koroglu, vencedor de uma das edições anteriores e, o terceiro a dois artistas - Dalcio Machado, do Brasil e Taeyong Kang, da Coreia do Sul.
Os vencedores do festival receberam um prémio monetário e garrafas de Vinho do Porto reserva especial, para além do troféu e diploma.
Biografia

Augusto Cid nasceu na cidade na Horta, Faial, em 1941. O
cartoonista e caricaturista político e ilustrador português estudou nos colégios Infante Sagres e Moderno e nos Estados Unidos da América e ainda frequentou o curso de Escultura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa.
Tendo colaborado já em jornais e revistas como
A Parada da Paródia, A Mosca, Diário de Lisboa, Lorentis, Observador, Século, Vida Mundial, O Jornal Novo, Povo Livre, A Tarde, O Dia, O Diabo, Semanário, O Independente, Focus, Grande Reportagem, Sol e, com a estação televisiva TVI, este cartoonista provocador satirizou frequentemente figuras como Álvaro Cunhal, Pinto Balsemão e Ramalho Eanes (dois dos livros de Cid sobre esta personagem, O Superman e Eanito, el Estático, foram apreendidos judicialmente). A investigação do desastre aéreo de Camarate foi uma das causas que abraçou.
Actualmente colaborador do semanário SOL, Augusto Cid foi já alvo de uma exposição antológica por parte do Museu Nacional da Imprensa em 2004. Denominada “O Cavaleiro do cartoon”, a mostra apresentou cerca de 150 dos melhores desenhos feitos ao longo da sua carreira. Retratava as turbulências da vida política nacional, com destaque para os principais momentos da história portuguesa dos últimos 30 anos.
A exposição, cuja inauguração contou com a presença de Morais Sarmento, então ministro da presidência, entrou em itinerância por vários locais do país, tendo viajado até Angra do Heroísmo e ao Funchal.


Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Maio de 2008.

"Autênticos ao máximo"




Four Taste lançam CD em Ponta Delgada

Os 4Taste são uma banda bem conhecida, principalmente do público mais jovem. Surgiram pela primeira vez nos famosos Morangos com Açúcar e, desde aí, o sucesso não os abandonou.
Quatro jovens muito simpáticos, com talento e formação musical, que segundo Luke d’Eça, vocalista da banda, tentam ser “autênticos ao máximo”, apesar das “pressões comerciais”.
Adoram os Açores e só esperam que o concerto, desta vez, seja tão “bom” como o do ano passado, que para a banda, foi dos melhores que já deram.

Nos Morangos com Açúcar interpretaram as personagens Ed, Link, Sérgio e Jota. Os 4Taste vieram para ficar. O jornal Terra Nostra falou com todos os membros do grupo.
Além de vocalista e guitarrista dos 4Taste, Luke d’Eça tinha já experiência em teatro amador, fez parte de várias bandas e, interpretou a personagem Ed na série juvenil da
TVI Morangos com Açúcar. Com genes ingleses, tem pai inglês e mãe portuguesa, por isso vai, todos os anos, 3 ou 4 vezes ao Reino Unido, mas garante que gosta tanto de estar cá como lá. Diz não gostar de se ver na televisão, pois acha muito estranho.
Na série, foi a personagem de Ed quem deu o nome à banda em honra dos seus quatro membros e porque o projecto tem para si "um sabor especial".
A sua primeira actuação ao vivo foi a1 de Junho de 2006, no palco do Coliseu dos Recreios em Lisboa.
Luke d' Eça Bastos Hunnable, nasceu em Lisboa, tem 21 anos e é o mais novo da banda, o “'Benjamim'”. Viveu alguns anos em Inglaterra, voltando depois para Portugal. “Comecei a tocar guitarra aos 15 anos e a fazer teatro aos 17, o que acabou por fazer com que entrasse nos Morangos com Açúcar”- explica.
Escolheram o nome Four Taste para a banda, por serem “quatro pessoas diferentes, com gostos diferentes” e têm todos “influências e bagagem diferentes” a nível musical.
Relata também que o projecto da banda e a participação nos Morangos surgiram “simultaneamente”.
“Quando fizemos o casting, já sabíamos que ia haver uma banda nos Morangos, mas não sabíamos se iria ser uma coisa a sério, se ia passar cá para fora” - salienta, reconhecendo que não tinham a noção de que iam ter “projecção” para lançar um disco e realizar tournées, o que acabou por acontecer e “ainda bem”.
As canções, esclarece, falam sobretudo do “amor e das relações”, mas há algumas músicas acerca da “personalidade de cada um, do querer escapar do monótono, de não querer ser igual a toda gente e de uma certa individualização”.
São musicas que também tentam basicamente “dar valor à vida e conseguem encontrar valor nas coisas que nos rodeiam”, como o “Viver” no primeiro disco e, o “Sabe Bem” neste último, por exemplo.
Quanto a ter de lidar com a fama, diz gostar de dar autógrafos, mas "nem sempre".
“Há alturas em que é um pouco chato, porque estamos cansados, temos muito que fazer ou, simplesmente, não estamos com paciência e é aí mais complicado” - confessa, admitindo por outro lado que, na “maior parte das vezes”, gostam, pois “dar autógrafos é sinal de que as pessoas sabem quem somos e conhecem o nosso trabalho”, o que é considera ser “óptimo” para a banda.
“O nosso trabalho é o que queremos difundir, é o mais importante” - acrescenta, confessando ser também “mesmo muito complicado conjugar os estudos com a música”.
Todos estudam e dão o seu “máximo”, mas a música está em “primeiro lugar, é mesmo a prioridade e, pelos vistos temos conseguido”- afirma, satisfeito.
Quanto à vinda da banda à Região em finais do corrente mês, começa por dizer que já visitaram os Açores “três vezes em 2007”, nomeadamente as ilhas de São Miguel, Pico e Terceira. Desta vez, “a nossa agência Spot começou a divulgar o novo disco, Take Dois, a várias pessoas, promotores e os primeiros a mostrarem interesse foram algumas pessoas em São Miguel”. De momento, afirma não terem outros projectos, pois estão “totalmente dedicados” ao novo trabalho, que será lançado no concerto a realizar em Ponta Delgada.
“Temos muitos Hy Fy's trabalho pela frente, temos que preparar o concerto todo e a tournée do princípio ao fim”- sublinha, avançando que para algumas pessoas, “a música parece que é só chegar, ensaiar e tocar, mas nós pensamos em tudo, trabalhamos com uma equipa muito grande e gostamos de ter a mão em tudo”.
Para além da música, diz ainda não ter a certeza da carreira que vai seguir, talvez “professor” de Filosofia ou de Inglês, pois estuda Filosofia. Mas, basicamente quer “de certeza” ser músico. Revela também que gostaria “um dia” de voltar à representação, mas por enquanto “não há tempo”.
O vocalista aproveita a ocasião para dizer aos fãs de Ponta Delgada, que espera vê-los “aos saltos, aos gritos e todos suados no final do concerto”. Lembra ainda tratar-se de um “reencontro”, porque o ano passado foi “fantástico”.
“Dos concertos que mais gostamos de dar foi na ilha de São Miguel e não é por acaso, que o primeiro concerto desta tournée vai ser em Ponta Delgada. Estamos a preparar-nos ao máximo e a pensar no que podemos fazer para melhorá-lo, relativamente ao ano passado”- ressalva, acrescentando que acha que o público vai gostar, pois as músicas novas são “muito fixes, são mais rock”. Umas são “mais pesadas, outras mais calmas, mais profundas” e vai haver aquela mistura “bastante interessante” entre o primeiro e o segundo álbum, por isso “espero que adiram em força”.
As letras das músicas, explica, são feitas por várias pessoas, mas neste segundo álbum “a maior parte das letras sou eu que faço”.
Questionado sobre os 4Taste serem, ou não, uma banda com bom ‘gosto’, afirma que sim “em todos os aspectos”.
“Temos bom gosto musical, pela vida, pela comida, pelas mulheres, pela música, pelo futebol, pelo teatro e somos gostosos” – diz, “a brincar”.
Falando mais a sério, defende terem bom gosto, mas acima de tudo na música tentam ser “autênticos ao máximo”, o que, admite, “não é tão fácil como pode parecer com todas as pressões comerciais que existem”. Mas, até agora “conseguimos”.
Referindo-se aos ensaios, revela ensaiararem “quatro horas por dia”, mas depende das fases. “Agora vamos tocar no Rock in Rio e, estamos a preparar a tournée e o concerto em Ponta Delgada, que vai ser o primeiro em mais ou menos seis meses e estamos a ensaiar mais, cerca de sete ou oito horas diárias”.
Quanto à preparação do CD, afirma que no verão passado trocaram algumas ideias, começando a compor em Outubro. A gravação teve início em Janeiro e acabaram há um mês. “Em estúdio foram dois meses e meio, os ensaios duraram seis meses” - esclarece.
Francisco de Meneses Borges, baterista da banda, nasceu a 24 de Fevereiro de 1984 e está a acabar o Mestrado em Direito. Começou aos 11 anos a tocar viola de Arco e continuou durante três anos. Depois parou, ingressou no Hot Club e fez uma “mudança radical” para começar a aprender bateria aos 14 anos. Esteve na Music Centre, em Lisboa e nunca mais pegou na viola de Arco, com “muita pena” sua.
Lembra estarem prestes a lançar o último CD e diz que estão “muito contentes e entusiasmados com o resultado final, porque foram vários meses de trabalho, de composição e também três meses de estúdio”. Ver o resultado final do álbum foi “muito recompensador”.
O baterista diz adorar os Açores, onde tem família, confessando ainda que, tendo vindo em 2007, já não visitava os Açores há uns 10 ou 12 anos.
“Fui uma vez passar o Carnaval a Ponta Delgada e lembro-me de ver uma carrinha a chegar cheia de balões de água até cá acima e houve ali uma guerra de água durante a tarde inteira. Diverti-me imenso”.
Nelson Filipe Azevedo Heitor Patrão, guitarrista dos 4Taste, nasceu em Cascais a
23 de Fevereiro de 1982. O Link de Morangos com Açúcar Serie 3, estuda em Lisboa, já estudou Musica e Novas Tecnologias na Escola Técnica de Imagem e Comunicação (ETIC) e esteve em várias bandas antes. “Surgiu um casting, inscrevi-me e fui escolhido” - avança, falando na sua entrada para os 4Taste.
As expectativas, são que o concerto seja “no mínimo, igual ao do ano passado, que foi muito bom. Se for melhor, ainda melhor”.
Acrescenta também não se lembrar de “nenhuma” banda de Rock, de quatro jovens que toque da maneira que tocam, pois “só quem assiste aos nossos concertos sabe a que me refiro”.
“Temos muita atitude, muita força de vontade e para quem está a ver é um poder incrível” - salienta.
David Câmara, baixista dos 4Taste, tem 27 anos e diz estar “muito feliz” com o novo álbum, nunca se tendo sentido “tão realizado como músico”, como agora.
Toca baixo há cerca de 10 ou 12 anos e começou a tocar guitarra há mais tempo ainda. “Estive em várias bandas sempre mais ou menos dentro do estilo Rock. Passado algum tempo, comecei a tocar com o Nelson noutra banda que tínhamos, The Starvan, onde chegamos a lançar um álbum e fizemos uma tournée pelo Japão”. Estudou também contrabaixo na Hot Club Portugal.

OS 4Taste


Esta banda portuguesa de Rock é constituída por Luke D’Eça (voz e guitarra), David Gama (baixo), Francisco Borges (bateria) e Nelson Patrão (guitarra), tendo sido formada após um casting para a série Morangos Com Açúcar, da TVI.
O álbum de estreia foi lançado a 27 de Novembro de 2006, no
Hard Rock Café de Lisboa, CD que foi platina logo no dia em que foi colocado à venda, chegando ao primeiro lugar no Top Nacional e alcançando 4 platinas, com mais de 80 000 discos vendidos.
O músico canadiano Panda Bear, a residir em Portugal, disse em entrevistas que o disco de estreia dos 4taste era, para si, o disco português de 2006.
O primeiro CD/DVD de originais da banda ao vivo foi lançado a 13 de Agosto de 2007, com o concerto que o grupo deu no Campo Pequeno em Lisboa.

No disco aparecem versões de "Sol da Caparica" e "Chiclete". O registo inclui um DVD com um Documentário sobre os momentos que antecederam o concerto do Campo Pequeno, imagens do backstage, reportagens de estrada, fotos, videoclips, entrevista e o inédito Sorrir.
O terceiro registo, composto de 11 faixas, foi editado a 5 de Maio de 2008, duas das musicas, "Diz me que sim" e "Diz-me mais uma vez" pertencem a umas das mais recentes bandas sonoras da série Morangos com Açucar Serie 5.
Da discografia da banda constam o CD 4Taste de 2006; Ao Vivo de 2007, e Take 2, a lançar no final do mês. No que toca a singles, editaram
"Só Tu Podes Alcançar" "Sempre Que Te Vejo (Sinto Um Desejo)", ambos em 2006 e; "Diz-me Que Sim (Estou Aqui)" já este ano.
O concerto assinala o arranque da tour promocional do álbum “Take 2” e promete relançar a banda para uma digressão por todo o país.
A banda apresentou-se, em 2006, com uma novíssima sonoridade, num misto de rock e pop, e com um carisma e dinamismo ímpares. O primeiro álbum de originais, que adoptou o nome da própria banda, reunia 12 inéditos. Na primeira semana de lançamento, os “4 TASTE” tiveram entrada directa para o 3º lugar do Top de Vendas, subindo para a 2ª posição na semana seguinte e conquistando o topo da tabela com apenas três semanas de vendas. Este álbum alcançou quatro platinas com mais de 80.000 unidades vendidas.
“Só tu podes alcançar” e “Sempre que te vejo” são dois dos temas, que os muitos fãs dos “4 TASTE” mais cantam nas inúmeras actuações realizadas em todo o país.

Direitos "reconhecidos" e realidades bem diferentes

Colóquio: A Mulher e o Trabalho
As leis estão feitas, o acesso a todas as carreiras profissionais também já foi criado, “pelo menos em teoria”, a nossa licença de maternidade é “considerável”, mas na realidade as mulheres têm imensa dificuldade em alcançar lugares de chefia e na maioria das vezes, não recebem o mesmo salário. Na opinião de Berta Cabral, é necessário alcançar um “modelo adequado à condição feminina”, para que estas sejam devidamente reconhecidas no mundo empresarial.
Por seu lado, Rosa Simas defende que se fez “história” com este evento, que abordou uma temática que era necessário discutir.

“Foi-nos aberto o acesso a todas as carreiras profissionais pelo menos em teoria; possuímos direito de voto em todos os actos eleitorais; temos uma considerável licença de maternidade; a lei considera e estimula a igualdade do género tanto nas responsabilidades familiares, profissionais ou cívicas, entre outras conquistas legais. No entanto, no nosso quotidiano, e apesar deste quadro jurídico-constitucional favorável, a realidade é bem diversa”- foram palavras de Berta Cabral, presidente da câmara municipal de Ponta Delgada, no painel O Sector Financeiro, integrado no Colóquio A Mulher e o Trabalho: Europa, Portugal, Açores e Comunidade, que pode contar ainda com a presença de Arnaldo Machado, director da direcção regional da coesão económica, e de Maria Dulce Furman, da Universidade de Boston.
O evento foi organizado pela Universidade dos Açores através de Rosa Simas, docente do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas, em parceria com a UMAR-Açores.
A autarca começa por salientar que nada na sua intervenção está relacionado com algum tipo de “feminismo”, não sendo sequer movida por “especiais motivações para um debate sobre as questões do género”. No entanto, confessa existirem três evidências que a “preocupam”, enquanto dirigente política e gestora. A “falta de correspondência entre os ganhos notáveis em educação e em experiência, por parte das mulheres e o número de lugares de topo ocupados por mulheres”. Outra preocupação, prende-se com a situação que reconhece ainda persistir em Portugal, de uma “visível discriminação, baseada no género” em que o mesmo trabalho, é pago com salários “diferentes”. A última, reside no facto das mulheres, ainda, participarem “pouco” na vida política e noutros sectores de actividade, como a área económica e financeira.
Estas diferentes questões coincidem, apenas, na diferença “qualitativa” entre aquilo de que homens e mulheres podem estar dispostos a abdicar, ao conciliarem o trabalho e a vida familiar.
Por outro lado, acentua ser de conhecimento geral que o sucesso depende sobretudo da “capacidade e disponibilidade que cada um tem para a competição”, mais do que do “género”.
“A mulher sendo, se calhar um pouco mais competitiva, tem igualmente uma maior capacidade para pôr de lado essa competitividade se o interesse da família estiver a ser posto em causa”- acrescenta.
A vida das mulheres, ao longo da história, tem sido sempre “paradoxal” e vivemos, actualmente, um dos quadros constitucionais “mais avançados” em matéria de igualdade. Isto, depois de uma época em que as leis defendiam a “subordinação” da mulher ao homem, que lhe impunha a obrigação do serviço da casa.
A autarca aproveita a ocasião para dizer que, segundo estudos recentes, as jovens licenciadas têm “maiores” dificuldades em encontrar emprego e, quando o conseguem ganham “muito menos”, do que os seus colegas masculinos.
“Nos últimos cinco anos, segundo estudos universitários, dois terços dos postos de trabalho criados para mulheres são precários e Portugal é um dos países da Europa com maior percentagem de desemprego feminino de longa duração” - sublinha, lembrando também que Portugal é, no contexto da União Europeia, um dos países com a taxa de actividade feminina “mais elevada”, considerando o trabalho a tempo inteiro. É também o país da União onde a condição feminina é socialmente mais “desfavorecida”.
Segundo o Eurostat, nas mulheres entre os 25 e os 49 anos, Portugal apresenta uma taxa de actividade feminina de “75%”, actividade exercida em sectores e condições muito diversificados. A tempo parcial, verifica-se que a expressão do trabalho é “reduzida”. Em 1995, apenas “8,3% das mulheres casadas e empregadas trabalhavam a tempo parcial”, enquanto na Holanda essa percentagem era “dez vezes” superior.
Acresce que em Portugal muitas das mulheres que trabalham a tempo parcial possuem qualificações muito “baixas”.
Referindo-se a uma certa segregação profissional e sectorial, Berta Cabral avança que apesar das “elevadas” taxas de actividade feminina, as mulheres portuguesas são maioritariamente empregadas ou trabalhadoras independentes na pequena agricultura, sector que utilizam como “complemento salarial” à actividade na Indústria.
Apesar a névoa de discriminações ainda existente, esta reconhece haverem já mudanças “significativas” no comportamento do mercado, emergindo, hoje, novas tendências.
Como exemplos, aponta os sectores da “educação, da saúde e mesmo as áreas técnico-científicas”, que acrescenta serem altamente “feminizadas”, o que defende estar em contradição com o mundo empresarial e financeiro português, sobretudo a nível da direcção/administração.
Falando nas direcções das Associações Empresariais, a autarca lamenta o facto das mulheres “pura e simplesmente” não estarem representadas nos seus quadros directivos, quando cerca de “33% do universo empresarial é composto por mulheres”.
“Temos cada vez mais mulheres no mercado de trabalho, mulheres cada vez mais qualificadas, mas o poder político e económico, de facto, não reflecte essa realidade”-ressalva.
A presidente vai ainda mais longe ao afirmar que as mulheres portuguesas sempre foram chamadas a participar e a assumir papéis na vida familiar, no pequeno comércio ou na agricultura, especialmente nos anos 60/70, quando surgiu um “forte incremento na emigração”. Os homens emigraram e deixaram as responsabilidades às mulheres, o que lhes proporcionou uma capacidade empreendedora “notável”, que, porém, “nunca foi, verdadeiramente reconhecida”.
Menciona também o Dr. Muhammad Yunus, vencedor do Prémio Nobel da Paz e fundador do microcrédito no Bandladesh, que, a seu ver, teve um “rasgo de inteligência ao emprestar os primeiros 27 dólares às mulheres da sua aldeia, que se dedicavam ao artesanato em bambu”, pois este conhecia o mundo e sabia “rigorosamente onde e em quem apostar”.
“As mulheres, afinal, são todas empresárias e gestoras de pequenas empresas, nem que seja da sua própria família” - sublinha.
Para Berta Cabral, as mulheres têm uma capacidade de “dirigir e rentabilizar” inúmeras actividades, que, “com uma pequena ajuda”, podem levar à criação de uma empresa, onde apliquem os conhecimentos adquiridos com as necessidades e as exigências do quotidiano.
Esta discrepância entre o que as mulheres são capazes de fazer e o poder em si, reside unicamente, na “falta de um modelo adequado” à condição feminina.
Segundo a revista The Economist, as mulheres modernas são “a mais poderosa ferramenta do crescimento global”. Curiosamente, nos últimos 10 anos, o aumento do emprego feminino nas economias mais desenvolvidas, contribuiu “muito mais” para o crescimento mundial do que a China, no que chama de “fenómeno Womenomics”.
Berta Cabral avança que, nos Estados Unidos, “as mulheres preenchem 40% dos cargos executivos”. “No ranking das 50 mulheres mais poderosas do mundo, apresentado anualmente pela afamada revista Fortune, há 29 CEOs de companhias cotadas em bolsa”- acentua.
Nos países mais desenvolvidos da UE existe uma outra questão. “Como preservar as mulheres de sucesso na direcção das empresas, depois de experimentarem o sucesso e ambicionarem uma vida familiar preenchida”.
Estudos do Center For Work LIfe Policy, uma organização não governamental norte americana, mostram que 37% das executivas interrompem “voluntariamente” as suas carreiras para se dedicarem a uma vida familiar mais equilibrada. O Lehman Brothers, organização que faz parte do HIdden Brain DRain Task Force, e cujo objectivo é “definir medidas para evitar a saída desta massa crítica das empresas”, desenvolveu um inquérito onde a pergunta chave era: ‘de que precisa uma executiva para trabalhar - de um escritório em casa, de uma creche?’.
E a questão renasce. “Apesar do sucesso, apesar da capacidade, o actual modelo de carreira permanece retrógrado. Foi criado por homens para homens e as mulheres por mais sucesso que tenham sentir-se-ão sempre insatisfeitas e mal enquadradas” - salienta, avançando que em Portugal o desafio passa por uma “verdadeira e completa igualdade”, sendo necessário “olhar para uma segunda geração de políticas empresariais que apoiem e estimulem a ambição e as necessidades profissionais e familiares dos novos quadros femininos”.
É preciso não esquecer, também, que a igualdade jurídica em vigor numa sociedade tem que ser acompanhada de “fortes” medidas e práticas sociais.
Afirma ainda estar satisfeita por o Quadro de Referência Estratégica Nacional (QREN) prever algumas medidas para “inverter” a situação, destinadas sobretudo à área empresarial e social de apoio à iniciativa das mulheres.
“Não basta ser pela cidadania, é necessário criar condições efectivas para o seu exercício! Quando tal acontecer, as mulheres estarão na primeira linha. Até lá vamos agindo de acordo com as nossas próprias circunstâncias” - conclui.
Arnaldo Machado, director da direcção regional da coesão económica, aproveitou a ocasião para abordar a questão do empreendedorismo, nomeadamente dos programas de incentivo Empreende Jovem e do Regime de Apoio ao Microcrédito.
Maria Dulce Furman fala-nos um pouco da sua vida, desde que emigrou para os Estados Unidos aos “12 anos” de idade, junto com a família. Segundo a mesma, ter ido para os EUA foi “a melhor prenda” que os pais lhe deram, pois reconhece que lá as oportunidades profissionais são mais que muitas e “não as teria aqui”. Afirma estar confiante e acredita que isto “pode acontecer” nos Açores, que, a seu ver, necessitam de “caminhar para um modelo mais progressivo” e trabalhar para a criação de um mercado de trabalho que adquira estes talentos, pois, admite, “não há empregos” que o façam.
“O mundo ainda é dominado pelo homem em diversas profissões”- salienta, lembrando, contudo, que “nos Estados Unidos o homem também recebe salários mais altos”.
O colóquio terminou com a presença de Maria Barroso e com o lançamento da Rede de Mulheres Empresárias dos Açores.
À margem do colóquio, o Terra Nostra falou ainda com Rosa Simas, membro da UMAR e coordenadora do livro A Mulher e o Trabalho lançado recentemente. A docente começa por dizer que este encontro visou “dar voz” à situação da mulher no mundo do trabalho remunerado nos Açores e nas comunidades.
Referindo-se ao seu objectivo afirma ser “apresentar toda a problemática da mulher no mundo do trabalho”. Acrescenta ainda estar a “fazer história, porque a mulher não vem na história dos Açores, está esquecida” e há que “recuperar” toda esta história.
Quanto ao que poderá ser feito para evidenciar o papel da mulher, ressalva ser necessário “trabalhar a vivência”, os costumes, a cultura e a maneira de pensar das pessoas, o que considera um “grande desafio”. E questiona-se, dizendo: “quantas mulheres chegam ao fim de um dia de trabalho cansadas e ainda têm de fazer o serviço todo em casa, vivendo conforme os moldes antigos?”
Rosa Simas reconhece ainda ser um processo que leva muito tempo. “É uma longa caminhada”.
A coordenadora da obra lembra também que o encontro possibilitou juntar “todas as pessoas que estão no livro e que partilham as suas experiências, estudos, testemunhos e tem sido riquíssimo”. Apesar de saber de antemão o conteúdo de cada um dos artigos do livro, acentua que estar com elas pessoalmente tem sido “muito interessante”. Além disso, este evento possibilitou a essas pessoas o “cruzamento” de ideias.
Na sua opinião, são de destacar “talvez” duas das várias temáticas abordadas. Uma está relacionada com o “grande desafio da conciliação da vida privada com o trabalho”, a outra questão é a “integridade da mulher e o seu trabalho”, mas, admite, que “não é visto nem reconhecido”. Avança que estas desigualdades “ainda” persistem, já para não falar nas “desigualdades de ordenado”. No entanto, a dinâmica da mulher no trabalho “está para ficar, marcou a vida de todos em sociedade” e foi uma forma de se falar no assunto, nos Açores, mas também “lá fora”.
No primeiro dia, a grande temática foi História e Sociedade. “Situamos a temática da mulher e do trabalho através da história e na sociedade e abordamos a questão do conciliar da vida profissional com a familiar” - recorda.
No dia seguinte, o tema abordado foi o Empreendedorismo e a Diversidade, nomeadamente “a mulher como empresária, como força dinâmica no trabalho”.
“Ao longo dos tempos, a mulher tornou-se uma força activa. Já o era em casa, mas o seu trabalho e dinâmica ficavam mais escondidos. Agora, a mulher está e está para ficar” - enfatiza.
Rosa Simas aproveita ainda a ocasião para transmitir uma mensagem à sociedade, dizendo ser necessário “dar valor” à mulher. Lembra também a necessidade de desenvolver “novos modelos”.
“Têm de haver mudanças de mentalidade, de ver que a mulher a trabalhar em casa tem valor e o trabalho fora de casa também. Temos que valorizar as coisas e não seguir os padrões antigos”.
O livro foi elaborado em “tempo recorde”. Rosa Simas conta ter começado a trabalhar na obra em Setembro, logo “não chegou a um ano”. Admite que o trabalho foi “muito árduo”, tendo ainda ter desenvolvido outros projectos pelo meio, mas “a prestação das pessoas foi muito crónica”.
“Muitas pessoas estão despertas para falar nesta temática e é chegada a altura de o fazer. Temos que pensar no impacto que a outra metade da humanidade tem na nossa sociedade, porque durante séculos era ao homem que se dava atenção”. Termina revelando estar “felicíssima”, como coordenadora de estudos, com os resultados obtidos.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Maio de 2008.

É preciso saber escolher!

I Forúm das Profissões

Escolher qual a profissão a seguir é, a certa altura, a decisão mais importante que os jovens têm de tomar. Para que esta escolha seja bem feita, é fundamental que estes estejam devidamente informados sobre o leque de cursos disponíveis e as suas saídas profissionais e o Forúm das Profissões veio dar resposta a estas questões.
Rui Bettencourt salienta que, antes, o ensino técnicoprofissional não era tão bem visto, mas hoje "isso já não acontece". Por sua vez, Rui Veríssimo afirma que o melhor que fez foi tirar um curso técnicoprofissional.

A determinada altura da vida é necessário saber qual o caminho que se quer escolher a nível profissional. As escolhas são muitas, mas o curso é um só, por isso, há que fazê-lo com muita reflexão. O Fórum das Profissões apresenta um vasto leque de cursos, para ajudar os jovens na sua decisão. Uma iniciativa governamental que pretende constituir uma mostra de todos os cursos que vão abrir no próximo ano lectivo na Região e promovida sob o lema "Acredita…Escolhe…Projecta o teu futuro" e que contou com o testemunho de cinco açorianos campeões regionais, nacionais e mundiais de profissões.
Na sessão de Abertura deste fórum, Rui Bettencourt, director regional do Trabalho e Qualificação Profissional, salientou a existência de uma geração de açorianos que se interessa "cada vez mais" pelas profissões, matéria pela qual a Região foi já várias vezes distinguida.
Durante a mostra, que o executivo açoriano pretende realizar anualmente, os jovens ficam também a conhecer novas propostas formativas para o próximo ano lectivo, caso dos cursos de técnico de energias renováveis, de estações de tratamento de águas residuais (ETAR) e organização de eventos no turismo, referiu.
"Mostrar a oferta formativa através de um panfleto é fácil, mas não atrai o jovem", salientou o director regional, justificando que a iniciativa pretende "despertar a vocação e o interesse por profissões que, por vezes, os estudantes nem dão conta que existem".
"Sentimos que há um desejo enorme dos jovens açorianos conhecerem as suas oportunidades, saberem quais são os cursos que vão abrir, a que profissões levam esses cursos, qual a sua empregabilidade, o seu profissionalismo. Por isso, depois de termos estabilizado os cursos de formação nas várias escolas profissionais e regulares, que também têm curso de formação e sentimos ser necessário avançar para um acompanhamento dos jovens, para as suas saídas profissionais e para as suas oportunidades"- sublinha, acrescentando que este Forúm é, também, um pólo de "reflexão" para professores, formadores, escolas profissionais e universitários, que tem como objectivo "debater a evolução do ensino profissional nos Açores e trazer mais-valias" à sua dinamização, sendo apresentado um leque de “mais de 200 cursos”.
Rui Bettencourt realçou que este encontro pretende levar a jovens a interessarem-se por outras oportunidades profissionais, num momento de "viragem de uma década de investimento no ensino profissional" e, em vias de outra, de aposta na "valorização das profissões", considerou, destacando que "por cada três mil jovens que chegam por ano ao mundo do trabalho cerca de 1.500 são oriundos do ensino profissional".
Para Rui Bettencourt, a aposta do governo regional tem de assentar numa escolha "consciente" dos jovens, no sentido de descobrirem a sua vocação para as profissões, pelo que foi apresentado um spot publicitário, que passará nas rádios e televisão.
À margem do evento, Rui Bettencourt avançou que os objectivos são "dar uma resposta àquilo que os jovens têm como perspectivas e como preocupação, da profissão que terão no futuro; mostrar todas as saídas profissionais, já que há mais de duzentos cursos a iniciar em Setembro e, por isso, trazer todos os jovens que estejam disponíveis a interessarem-se por esta questão". Avança ainda esperar que o Fórum seja visitado por 4000 jovens, salientando que existem, certamente, "muitos jovens que irão frequentar este Fórum, em todos os Açores, visto que o evento se estende à Terceira e ao Pico.
Fazendo um balanço dos anos anteriores, afirma ser "muito positivo", recordando terem taxas "muito altas". Nesta questão, estamos "estabilizados", ressalva, lembrando que o desafio dos próximos anos é "fazer com que todos os jovens conheçam todas as oportunidades que têm ao seu dispor". Diz que os jovens estão "muito entusiasmados", reconhecendo ter ficado "espantado, com a adesão excepcional" que tem havido das escolas e dos alunos.
Questionado quanto à noção que havia há uns tempos atrás, de que o ensino técnicoprofissional seria menos 'valioso' do que o universitário, salienta que, hoje em dia, isso "já não acontece", pois o ensino profissional tem equivalência ao ensino regular e tem algo a mais, um "preciosismo" que se adquire nestes cursos.
Rui Veríssimo, ex aluno de Técnico de Redes e Aplicações Informáticas (TRAI) da Escola Profissional das Capelas e vencedor do Concurso Nacional de Profissões de há cinco anos atrás, afirma ser "com muito orgulho" que conta a "aventura" que foi a sua formação profissional, salientando que se fosse agora aluno, se proporcionaria a "melhor" escolha.
"Seria o melhor para mim tirar um curso técnicoprofissional, como provavelmente muitos de vós sentem hoje. Tenho que reconhecer que foi uma decisão complicada e até polémica"- sublinha, aproveitando a ocasião para fazer uma critica aberta à sociedade classificando-a como sendo "um pouco ignorante da realidade". Acrescenta também que esta sempre "negligenciou" por uma questão profissional, sempre colocou "restrições" aos formandos, "olhando com 'um pé atrás' para os cursos técnicoprofissionais". Pressões sócias que considera "injustas" para com os jovens, e que, diz, "não ajudam, não esclarecem".
"De facto, a falta de informação é um obstáculo. É não, era. A prova está à vista com a realização deste Forúm, com as diversas publicações informativas dos cursos, com a divulgação que se faz hoje dos diferentes cursos que o jovem pode escolher".
Quando iniciou o curso, relata, ainda aguardava os resultados do curso que tinha feito no ensino superior. O seu principal objectivo era esse, "entrar na Universidade". Passado cerca de um mês, os resultados saíram e foi colocado na Universidade dos Açores, mas bastou esse mês de formação profissional para a sua maneira de pensar "mudar radicalmente".
"Bastou um mês para ter a certeza que estava local certo, de que este seria o meu percurso. Mantive-me no curso profissional, onde todos os dias aprendi coisas novas, onde todos os dias manuseava ferramentas de trabalho, onde todos os dia aprendia a lidar no ambiente empresarial, onde todos os dias me faziam sentir responsável pelo meu ofício e onde me criticavam pelos meus maus desempenhos, mas valorizavam-me pelos bons. Nunca no meu percurso me arrependi da minha opção"- explica.
Quando surgiu a hipótese dos Açores estarem presente no Concurso Mundial de Profissões, na Suíça, na categoria de Web Design pensou "esta viagem tem de ser minha", mas após ganhar o concurso regional a sua perspectiva alterou-se. Iria representar os Açores e Portugal numa competição mundial, uma responsabilidade "enorme". O certo é que se preparei "o melhor possível" com a exaustiva colaboração dos meus colaboradores e terminada a prova teve a certeza que o seu objectivo estava cumprido. "Não iria envergonhar o meu país e a minha terra, a minha bandeira. Quando entrei para a cerimónia de encerramento não tinha a mínima ambição, nem sequer o sonho de uma medalha. Acontece que, ao mesmo tempo que se entrava no recinto eram divulgados os resultados para a imprensa internacional. O telefone não parava de tocar com família e amigos a congratularem-me por uma medalha. Mas qual medalha? A cerimónia estava a começar, não seria possível. A partir daquela altura, tremia como 'varas verdes', suava por todos os poros. Nunca na vida estive tão nervoso. Ainda por cima, o Web Design era a última categoria a ser anunciada"- relata.
"Chegou a altura e confirmou-se". Portugal ganhara a terceira medalha de bronze do dia e ela estava ao peito de um açoriano. Foi o que considera "a melhor prestação de sempre do nosso país, e, sem dúvida, um momento único e inesquecível".
Aquando do regresso aos Açores e a conclusão do curso começou imediatamente a trabalhar por conta própria, "apesar de convites de empresas da Região e do continente". Nessa altura, afirma, valorizou ainda mais o que aprendeu no curso, estando"realmente" preparado para o mundo empresarial, "só necessitei de especialidade". Hoje trabalha com mais três jovens produto da formação profissional e são "das poucas empresas da Região com experiência internacional"- salienta. Isto, a trabalhar com partida do Pico.
"À primeira vista pode-se dizer que aquela medalha mudou a minha vida, que foi o momento chave do meu percurso, discordo. O dia em que optei pelo ensino profissional marcou a minha vida como trabalhador e como homem. A medalha foi um reconhecimento pela dedicação, trabalho árduo e persistência que tive durante o meu curso. Ter as melhores ferramentas e os melhores formadores não é o suficiente para atingirmos patamares de excelência", mas são vários os exemplos de que "a formação profissional resulta".
Os Açores são "campeões" da formação profissional, as prestações e resultados dos campeonatos nacionais e internacionais comprovam-no e reconhecem "o esforço e bom trabalho efectuado pelo governo regional"- sublinha.
Bernard Liétard, docente no Conservatório Nacional das Artes e Profissões da Universidade de Paris e de Genebra, sociólogo e universitário francês da área da Educação e Formação Profissional, falou sobre "A orientação Profissional e o Balanço de Competências", que assenta num "fio condutor".
À margem do encontro, o sociólogo avançou que iria fornecer um "modelo de orientação", para tentar saber se esta poderá ser um "fio condutor", para uma filosofia de vida, na qual o jovem aprende um "itinerário e qual o seu lugar no mundo do trabalho".
"A orientação também pode ser perigosa, pois estes podem tornar-se meros actores da orientação"- evidência, lembrando, por outro lado que o trabalho é um elemento importante da "identidade" dos jovens e este novo modelo de orientação deve ser "trabalhado em equipa, pois o trabalho em equipa aproxima as pessoas".
Autor de uma vasta obra publicada como resultado da investigação e da acção que tem desenvolvido, como Professor da Universidade René Descartes, de Paris, e do Conservatório Nacional das Artes e Profissões foi, também, durante cerca de 10 anos, responsável pela implementação dos Centros de Validação de Competências e dos Balanços de Competências, em França. O autor de um livro sobre formação profissional na colecção "Que sais-je" redigiu ainda o capítulo sobre validação de competências na obra de referência "Traité sur les Sciences et Téchniques de la formation profissionnelle", traduzida para português pelo Instituto Piaget.
Jean Luc Ferrand, docente e investigador no Conservatório Nacional das Artes e Profissões da Universidade de Paris, falou sobre "Políticas Regionais de Emprego e Qualificação Profissional".
À margem do evento, Jean Luc Ferrand afirma que a sua intervenção visa uma caracterização das políticas de emprego, e defende ainda a existência de uma "expansão muito forte" dos jovens do ensino profissional. Argumenta ainda ser contraditória a valorização das profissões.
Fernando Neves de Almeida, Mestre em Gestão de Empresas e presidente não executivo da Neves de Almeida Consultores, empresa de consultoria nas áreas de Recursos Humanos e Marketing Relacional e da Boyden-Global Executive Search, discursou sobre o "Fomento do Empreendedorismo".
O Terra Nostra falou ainda com alguns jovens que pensam seguir a via técnicoprofissional, todos eles alunos do 8º Ano da Escola Secundária das Laranjeiras, que marcaram presença no Fórum por meio de uma visita de estudo da escola.
Bárbara Pascoal diz estar a pensar tirar um curso técnicoprofissional, tendo vindo ao Fórum, para "procurar ideias para o meu futuro para saber o que quero ser", pois reconhece que com a sua idade pode ainda não ter bem a "noção" da carreira a seguir.
Avança estar a gostar "muito" do evento, acrescentando ser um acontecimento muito importante, porque "muitos jovens não sabem o seu caminho no futuro e este fórum dá-nos uma noção do que podemos ser" e para "preparar" para o futuro.
Manuel Requinha diz estar a pensar seguir Informática, por isso visitou o fórum para poder "saber mais sobre o curso". Diz que o Fórum é importante, para "esclarecer as dúvidas das pessoas". Além disso, os jovens estavam "mal informados" sobre os cursos existentes e "em que locais ficam".
Lúcia Coelho também está a pensar tirar m curso técnicoprofissional, desta vez Biologia Marinha. Defende que o Fórum é importante para se "conhecer melhor as profissões" existentes.
Rui também quer seguir Informática no ensino técnicoprofissional, dizendo ter ido ao Fórum para "ver os cursos que existiam, para pensar entrar em algum", evento que considera "bom" para que os jovens tenham conhecimento dos cursos que há em cada "freguesia".
Além do Fórum das Profissões, o governo açoriano lança no próximo dia 21 um Guia das Profissões, para distribuir pelos alunos do 9º ao 12º ano.
"Serão editados 10 mil exemplares do Guia que reúne todas as informações dos cursos a leccionar a partir de Setembro para que, entre Maio e Junho, os jovens possam escolher com conhecimento de causa", reforçou Rui Bettencourt.
O Fórum dispôs também de animação permanente garantida pelas várias escolas presentes e pelo Tunalhos, em horário pós-laboral.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Maio de 2008.





"É bom que o povo acorde depressa"

III Encontro Açoriano de Lusofonia


Os Açores não são muito conhecidos no mundo, com excepção das “comunidades”. Chrys Chrystello reconhece que há uns anos, ele próprio não sabia que havia escritores nos Açores, terra de que só conhecia os “terramotos” que via na televisão e o anticiclone. Alerta também para o facto de os portugueses não darem valor à sua língua, à sua cultura, não terem orgulho no que são e estão, por isso, “condenados a continuarem na cauda da Europa.
A Lagoa foi palco do III Encontro Açoriano da Lusofonia. "Insularidade, Isolamento e Preservação da Língua Portuguesa" constituiu o tema central do evento. O Terra Nostra falou com Chris Chrystello, que abordou a situação dos Açores no mundo e o acordo ortográfico.

Chris Chrystelllo, presidente da comissão executiva do Encontro, membro das Universidades de Brighton e Helsínquia e tradutor do governo australiano, começou por dizer que quando chegou aos Açores, em 2005, dispôs-se logo a criar uma “versão local dos Colóquios Anuais da Lusofonia”, iniciativa que organiza desde 2001 e que tem sido “a única, concreta e regular em Portugal” nos últimos seis anos sobre esta temática lusófila. Desta forma, pretende “debater os problemas típicos da identidade açoriana no contexto da Lusofonia”.
Avança pretender contribuir para o levantamento de factores “exógenos e endógenos que permeiam essa açorianidade lusófona e criativamente questionar a influência que os factores da insularidade e do isolamento tiveram na preservação do carácter açoriano”. Trata-se de debater a problemática da língua portuguesa no mundo em articulação com outras comunidades culturais, históricas e linguísticas lusófonas como agentes de mudança.
À margem do evento, Chris Chrystello acrescentou que o encontro visou “debater o problema da açorianidade no contexto da Lusofonia”. O facto deste se realizar na Lagoa, vai de encontro à sua intenção de “descentralizar”, salientou, acrescentando que Ponta Delgada é “macrocéfala”.
Trata-se de “contrapor” um pouco o que é feito a nível oficial. Têm sido feitos muitos congressos e encontros de açorianos, luso-descendentes, o que chama de encontros de família e amigos. “Vimos que podemos levar bastante mais longe a mensagem de que os Açores existem, que existe uma cultura e uma açorianidade própria e uma literatura própria. Temos trazido não só gente de Santa Catarina, que como todos sabem são descendentes de açorianos, mas de outros estados brasileiros, de outras regiões para conhecerem a realidade açoriana” – enfatiza. Segundo Chris, os Açores continuam a ser “tão desconhecidos como eram antes do 25 de Abril”. A maioria das pessoas com quem fala, como tradutor, não tem “a menor noção da existência destas nove ilhas, destas nove realidades distintas, nem de que existe uma literatura muito própria dos Açores”. “Estamos a constituir um léxico açoriano, dentro de um projecto que lançamos no II Encontro de Lusofonia, a Diciopédia da Língua Portuguesa que inclui um dicionário de açorianismo”- revela, avançando ter já “duas parcerias”, com a Universidade Mc Kensy de São Paulo e com o Instituto Politécnico, através da Escola Superior de Educação.
“Estamos à espera que o magnifico reitor da Universidade dos Açores se digne estudar a proposta que lhe foi feita na mesma altura” – declara, mencionando a falta de apoios da Universidade dos Açores.
“Gostava que a Universidade dos Açores tivesse sido anunciada, logo na sessão de abertura como um dos parceiros neste projecto”, que diz ter a “vantagem” de ser “megalómano”. Os intervenientes do encontro, diz, vêm “por sua conta e risco, não são subsidiados”, salientando serem uma organização “independente, subsidio-independente. Recebemos apenas um pequeno apoio da direcção regional das comunidades, que em nada nos afecta esta independência”. Aborda também o apoio logístico “magnífico” da câmara da Lagoa, que lhes proporcionou um “salto qualitativo, quer na apresentação de trabalhos”.
“É a primeira vez em todo o mundo que se entregam umas actas em livro no acto de registo e de acreditação dos oradores”- enfatizou. “As pessoas estão aqui, porque querem, não vêm fazer currículo, somos bastante informais, temos um relacionamento bastante bom. Criam-se laços impossíveis de criar em qualquer outra organização, em que o tratamento é formal”. Fazemos uma selecção bastante rigorosa dos trabalhos. É o que têm feito nos dez colóquios “ferozmente independentes”, mas sempre dispostos a aceitar parceiras e protocolos de colaboração, pois estão a crescer a uma velocidade “demasiado rápida” para uma organização voluntária da sociedade civil. Afirma funcionarem como uma organização não governamental (ONG), que tem como único propósito “irmanar todas as pessoas com a língua portuguesa em comum”.
Apesar disto, admite que a Lusofonia tem sido bastante “denegrida” em alguns sectores, o que considera “fruto de pessoas como aquelas que agora se opõem ferozmente ao acordo ortográfico e que sonham ainda com o quinto império. A língua é a única coisa que lhes resta, as colónias já se foram. Agarram-se a ela e querem ser os seus donos, porque, segundo eles, a língua foi originada em Portugal”, o que diz ser “mentira, estão errados. A língua foi originada na Galiza e se alguém pode outorgar a paternidade da língua são os galegos, mas as colónias e os quintos impérios já acabaram. Vivemos numa sociedade global, globalizante”.
Na sua opinião, os Açores estão muito divulgados dentro das comunidades, das novas gerações, mas Chris pretende levá-los a quem “nunca ouviram falar dos Açores”, como ele próprio “há uns anos atrás”.
Afirma ter encontrado na Região um povo “orgulhoso, cioso da sua língua e da sua cultura. Fala-se micaelense nesta ilha e é importante que seja ouvido, conhecido e falado. E acho que não está a ser feito o suficiente”.
Para Chrystello, “o grande mal dos portugueses, e afirma falar de uma perspectiva açoriana, é não darem valor à sua língua, à sua cultura. Tudo o que é estrangeiro tem mais valor do que o que é português” - lamenta, dizendo partir do princípio contrário. “Uma das coisas que mantive sempre bem viva nos anos em que estive na Diáspora foi a língua e cultura dos meus antepassados portugueses”.
Afirma prezar e ter bastante “orgulho” da língua e cultura portuguesas, defendendo que as pessoas têm de fazer isso. Os próprios brasileiros querem continuar a falar português, exemplifica, salientando que estes têm um orgulho “imenso” nas suas raízes.
“É bom que os portugueses um dia acordem, comecem a ter orgulho nas suas origens e preservem os poucos artífices e artesãos que ainda temos, que deviam ser considerados funcionários públicos, que deviam ser tratados em vez de estarmos a gastar em subsídios tantas vezes inúteis, a trazer pessoas que não vão dar mais-valia nenhuma, quando aquele homem é um verdadeiro exemplo da história dos Açores, um dos poucos que resta e que devia ser preservado em mantido”. Enquanto outros países preservam a sua história, “em Portugal, nem se consegue manter aquilo que ainda está vivo”.
A Austrália foi descoberta pelos portugueses, mas a maior parte das pessoas não “quer saber, não está interessada, não tem orgulho. Eu tenho imenso”. “Os portugueses não têm orgulho naquilo que são e foram e sendo assim estão condenados a continuarem na cauda da Europa, do mundo”- evidencia.
Fazendo um balanço, avança que além de uma proposta concreta, que farão para que a autarquia ou o governo regional “salve” o ferreiro da Lagoa, surgiu já uma contra proposta para uma petição em linha, não online, de “apoio ao acordo ortográfico, fruto das banalidades que têm sido ditas por algumas pessoas”. Pessoas “influentes” de quem, diz, esperava “bastante mais, como o escritor e Filósofo Eduardo Lourenço e tantos outros, que subscreveram o movimento contra”. Diz-lhes que “não sejam saudosistas”, o que diz não ser, pois tenta ver sempre “mais além e mais para o futuro”. Estes colóquios têm o condão de “desassossegar bastante” as pessoas e a “bola de neve” do acordo ortográfico não pára de crescer, argumentando ser “óptimo que se discuta e debata”. “Existe o perigo em Portugal de se tomarem decisões, sem nunca serem debatidas”. No caso do acordo ortográfico, avança ser um bocado “ridículo”, porque este já foi debatido, rectificado, faltando apenas ser publicado pelo Diário da Republica, após a aprovação de Cavaco Silva. “O que havia a debater, já foi debatido entre 1986 e 1990, já não há mais nada a debater. Haverá, sim, para o próximo acordo ortográfico e devíamos estar já a pensar nisso, em vez de estarmos a negar este, porque na altura as pessoas escolhidas decidiram e é o que está decidido. Se é bom, se é mau, não é a mim que me compete, porque não sou filólogo, não sou especialista da área, mas este é o que temos e é com este que vamos arrancar”. Se podemos fazer o próximo melhor, então é necessário começar a “estudar, a aninhar pessoas” para o próximo, que, acrescenta, irão por em vigor, pois “já três países o aceitaram, o formalizaram e vamos aproveitá-lo, para conseguirmos ainda manter a língua unificada”, pelo menos a nível gráfico.
Afirma serem uma organização da sociedade civil “orgulhosamente independente. O que nos move, é a liberdade de podermos discutir”.
“Esta liberdade diz muito a quem é da minha idade e a quem foi censurado na sua juventude. Logo o meu primeiro livro de poesia, foi cortado de 100 páginas para 32” - recorda, salientando que algo que “muito preza é a liberdade, que quer manter, a liberdade de pensamento, de discussão e a liberdade de podermos defender aquilo que é nosso, a língua e a cultura portuguesa, mas não é só nossa, é de todos aqueles que falam português, incluindo os ucranianos que já são cidadãos portugueses”.
Referindo-se às temáticas que podiam suscitar mais interesse no encontro, chama a atenção para o tema da “tradução”, como tradutor que é. “A tradução faz parte da preservação da língua. Se os nossos livros não forem traduzidos, a nossa língua perde-se, os nossos autores perdem-se”- explica, lamentando a “fraquíssima” penetração de autores portugueses nos mercados internacionais, à excepção de Saramago que conseguiu, “finalmente”, exceder um milhão de livros vendidos nos Estados Unidos, o que é perfeitamente notável para um autor português.
Quando cheguei aos Açores, há três anos nada sabia e muito tenho aprendido e falta-me ainda aprender muito. Uma das coisas que me chocou foi constatar o desconhecimento que havia de toda a gente, de todos os níveis, quer em Portugal, quer no estrangeiro sobre os Açores. Nós saímos da comunidade açoriana ou luso-descendente e ninguém sabe nada sobre os Açores. Mesmo que lhe falem das telenovelas, afirma que estas passam apenas “algumas imagens que, creio, eram passadas de várias ilhas e sem nexo”.
Diz não querer ser crítico de nenhum governo, de nenhum governante, o que quer dizer é que não foi feito o suficiente para dar a conhecer os Açores, o que considera uma “motivação óptima” para realizar estes encontros. E são estas sinergias que nós criamos entre as pessoas, vão permitir que os Açores sejam falados em sítios para além de Santa Catarina, do Canadá, dos Estados Unidos e das comunidades portuguesas lá.
Falando na possibilidade das questões da Lusofonia terem um maior peso para os emigrantes, afirma que “os açorianos em geral mostram mais orgulho na sua língua e cultura, do que a média dos portugueses continentais”. Os emigrados têm uma percepção bastante “profunda” e tentam manter tradições com mais força do que as outras comunidades emigradas. “O açoriano ainda tem uma ligação nuclear, com a família nuclear, uma característica de religiosidade, que já se perdeu no continente e na maior parte dos países” – reconhece, salientando que estes carregam essa cruz e vivem-na de uma forma “bem intensa”.
“Para mim, é quase uma viagem ao passado, a Portugal de 30 ou 40 anos” – enaltece, avançando que existem “coisas que se passam aqui e que no continente já não acontecem há 30 ou 40 anos”. Alerta não estar a dizer que são boas ou más, mas “aspectos importantes da cultura e talvez estejam a perder fruto das novas gerações, da emigração dos mais novos, dos próprios inter-casamentos”. Se será possível levar esse peso para as próximas gerações, essa é uma dúvida que o “assola sempre”.
“Será possível preservar algumas coisas, nem que seja só o folclore, mas isso também é importante. O importante é que as pessoas meditem naquilo que é verdadeiramente importante e que se está a perder, como as velhas tradições”.
Daniel de Sá foi o primeiro autor com quem tomou contacto como tradutor, recorda, acrescentando que além de ser habitante da costa norte, como Chris, e di-lo com “muito orgulho”, considera que os habitantes da costa norte têm um certo “sentido de independência em relação a esta macrocefalia da costa sul, são mais rebeldes, são mais selvagens e não gostam de ser dominados por este centralismo político”. Além disso, revela que a sua obra toca-o “profundamente”, argumentando que este consegue exprimir, “de uma forma simples, estados de alma que eu gostaria de saber exprimir da mesma forma”.
“Tem sido um desafio titânico transcrever para outra língua estados de alma, cores, sabores, que emanam da sua escrita e tem sido um desafio interessantíssimo que faço comigo mesmo”-sublinha, esclarecendo que a hipótese de um tradutor trabalhar com o autor cria, por vezes, “magias e subtilégios que são raros de conseguir”.
“Normalmente, o tradutor trabalha sempre longe do autor e, muitas vezes, sem possibilidade de contacto. Neste caso, o tradutor e o autor conjugaram-se para o produto final. É a melhor tradução que podemos ter”.
O genocídio linguístico é um dos seus temas favoritos, que aborda sempre, porque as pessoas esquecem-se que “morre uma língua em cada quinzena”. Assim como o português estará condenado, quem sabe quantas outras línguas não estarão condenadas da mesma forma, questiona-se, avançando ser uma forma de “alertar as pessoas que mais do que a biodiversidade estar afectada, a diversidade linguística está muito mais afectada, só que nós não a sentimos. Sentimos a inflação, o preço dos combustíveis a subir, mas a perda das línguas não”.
Afirma ser “contra qualquer forma de acordo”, pois é “muito anarquista”, não gosta de “decisões governamentais”. Considera-se “um puro democrata e acho que a língua não se faz por decreto, mas têm de haver normas e este acordo, bom ou mau, é o que existe, e é de ir para a frente. Se for para corrigir, corrija-se depois. Para já, vamos por este a funcionar e ver se retiramos alguns dividendos dele sem o perigo de perder a nossa musicalidade. Somos práticos, o que nos interessa é salvaguardar a língua portuguesa e uma ortografia unificada”.
“Acordos e decretos, nunca, sejam eles quais forem, porque não gosto do poder divino, o que chamamos top down, irrita-me bastante. A língua é feita pelo povo, que a tem moldado ao longo dos séculos, sob a condução de alguns académicos e linguistas, mas o povo é que fará, ou não, este acordo ortográfico vingar. Mas como sou pragmático e a língua portuguesa é a minha herança, sou totalmente a favor deste acordo”. Aproveita ainda a ocasião para dizer que as pessoas não vejam a Lusofonia, como um encontro elitista, pois todos são “bem-vindos”.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Maio de 2008.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Luís Felipe Borges Há poucos conceitos "originais" na TV portuguesa

Conhecido por muitos como ‘o gajo da boina’, Luís Felipe Borges, apesar de novo, possui já um currículo invejável, tanto em rádio, teatro, escrita como na televisão. A boina, da qual não prescinde, é uma maneira de se distinguir, pois gosta de ser diferente.
“A Revolta dos Pasteis de Nata”, doce que não aprecia, foi um programa de enorme sucesso, no qual entrevistou inúmeras figuras de diversas áreas a nível nacional, sempre com um toque de humor e boa disposição.
A Stand Up Comedy foi o motivo que, desta vez, o trouxe a São Miguel.

O teatro, a escrita, a rádio e a televisão já foram todas partes integrantes da sua vida. Programas como Zapping e A Revolta dos Pasteis de Nata, ambos transmitidos pela RTP2, foram alguns dos projectos que gostou mais de desenvolver. Felipe Borges é um açoriano que, mesmo estando longe, não esquece e orgulha-se das suas raízes.

T.N.- Fale-nos de si

L.F.B. - Sou um orgulhoso açoriano de 30 anos, natural de Angra do Heroísmo, que se licenciou em Direito para fazer a vontade aos pais, mas que sempre sonhou viver da escrita. A fantasia impossível, já agora, era ter sido guarda-redes do Benfica!

T.N. - Como e quando se iniciou no mundo da televisão?

L.F.B.- Considero essa etapa da minha vida como um feliz acidente. Há pouco mais de 3 anos atrás, escrevia uma crónica diária de humor sobre a actualidade para o extinto diário “A Capital”. Um belo dia, e para meu total espanto, ligou-me o sub-director de programas da RTP2 a dizer que gostava muito desses textos e que gostaria de me conhecer, pois o canal tinha um projecto onde eu poderia encaixar bem. Foi uma espécie de “american dream” à portuguesa. Conhecemo-nos, demo-nos muito bem, gravei um “piloto” e a aventura começou.

T.N. - Fale-nos sobre a Stand Up Comedy e diga-nos como surgiu a oportunidade de visitar os Açores?

L.F.B.- O Teatro Micaelense contactou as Produções Fictícias no intuito de combinar uma parceria e, no âmbito dessa colaboração e como associado da empresa, fui desafiado a vir. E como nunca desperdiço uma oportunidade de regressar às ilhas, cá estou… com muito prazer! Ainda por cima considero-me um açoriano especial, porque nasci na Terceira, mas fui fabricado em São Miguel, numa noite - certamente escaldante – que os meus pais tiveram nas Furnas, quando ambos leccionavam na ilha verde. Adoro São Miguel, tenho vários amigos cá, não podia faltar!

T.N.- Faça-nos um balanço da sua carreira.

L.F.B.- ‘Carreira’ é uma palavra que me assusta um pouco, pois ainda me vejo como um miúdo. De qualquer modo, diria que estou imensamente feliz com a “estrelinha” que tenho tido e considero-me um privilegiado por me ter sido concedida a graça de viver, trabalhando no que mais gosto e nas áreas que sempre desejei. O meu avô paterno, que era agricultor, deu-me uma vez um conselho: “Arranja uma coisa que gostes de fazer e nunca mais trabalhes na vida”. Sinto que isso aconteceu.

T.N.- Tendo em conta as áreas da escrita, teatro, rádio e televisão, qual a que o fascina mais? porquê?

L.F.B.- Todas são aliciantes desafios e campos de imenso interesse, mas a minha predilecção foi desde sempre para a escrita. Talvez, porque sou tímido e a escrita é uma área onde muitas vezes só dependemos de nós próprios e podemos ficar no nosso cantinho, sem incomodar ninguém.

T.N. - Qual ou quais o (s) projecto(s) que lhe deu mais prazer até hoje?

L.F.B.-
Top 5, ex-aequo: Zapping (programa de TV, RTP2), Stand-Up Tragedy (espectáculo de teatro); A Revolta dos Pastéis de Nata (RTP2); Sit-Down Comedy (crónica, A Capital); Portugal Revisto e Aumentado (crónica, semanário SOL).

T.N.- O que é a televisão para si?

L.F.B.- Apenas mais uma entre várias áreas que me apaixonam e que têm em comum o estarem integradas na comunidade da Comunicação.

T.N.- Qual a sua opinião sobre a situação da televisão em Portugal?


L.F.B.- Não muito positiva, infelizmente, por duas razões: primeiro porque, ironicamente, vejo pouquíssima TV. Sou viciado em livros e DVD’s, ou seja, acabo por só ver as séries que quero e quando quero (e os jogos do Glorioso, claro). Em segundo lugar, e por causa da primeira razão, porque há muitos anos que é raríssimo verem-se conceitos originais na TV portuguesa. A esmagadora maioria dos formatos são copiados de fora e há uma espécie de pavor em arriscar. Isto desmotiva-me profundamente enquanto telespectador. Mas claro que há pessoas com quem adoraria trabalhar, a começar pelo “nosso” Zeca Medeiros.

T.N.- Já sei que não gosta de pastéis de nata, mas "A Revolta dos Pasteis de Nata" foi um êxito. O que nos pode dizer sobre o programa e como surgiu a ideia?

LFB- Antes de mais, muito obrigado! A RTP2 tinha o projecto (e o enorme mérito) de querer criar um programa em directo, de entretenimento, debruçado sobre Portugal e com uma equipa de caras desconhecidas. Uma grande e ousada aposta, portanto. Várias produtoras concorreram e a Videomedia ficou com o projecto. Fui seleccionado directamente pelo canal, houve química imediata com as pessoas da produtora e começámos a definir em conjunto os detalhes do que viria a ser o programa. Gostávamos da dinâmica e irreverência conotadas com a palavra “Revolta” – e essa foi a primeira a surgir. “Pastéis de Nata” foi uma ideia posterior, porque queríamos ter um símbolo português no nome e alguém se lembrou de que o pastel de nata é um bolo tipicamente português (em Inglaterra chama-se, por exemplo, “portuguese pie”). Sabíamos que um nome desses seria marcante, sugestivo e irónico. Depois lançámo-nos ao desafio com unhas e dentes, mas também com muita descontracção. Pessoalmente, julgo que me ajudou o facto de não estar minimamente preocupado com um futuro na TV (pois os meus planos e a minha vida eram outros). Assim, acabei por encarar cada directo sempre sem medos e talvez como um surfista que não pensa em mais nada, senão curtir a magnífica onda que acaba de apanhar.

T.N. -Qual o papel dos Açores na sua vida?

LFB.- Um papel vital, pois sinto o orgulho e a honra de ser natural da zona mais bonita do país e porque a condição de ilhéu influencia a minha maneira de ser e mesmo de trabalhar. Por ser açoriano não temo a solidão e, graças às ilhas, sinto que – por muito deprimido que esteja – tenho sempre um local ao qual chamar “casa” para me refugiar. Além disso, ter nascido a 1500 kms da capital faz-me relativizar tudo e não dar demasiada importância nem aos êxitos nem aos fracassos.

T.N.- Que papel ocupa o trabalho na sua vida?

LFB.- Um papel muito preponderante, mas simultaneamente muito saudável, pois, como já referi antes, o meu trabalho é um prazer: realiza-me constantemente – logo, é difícil e raro passar mais de 24 horas seguidas aborrecido.

T.N.- "Quando uma relação acaba, acaba tudo. Nunca haverá amizade entre duas pessoas que recordam constantemente uma à outra que falharam". Porquê e em que contexto surgiu esta afirmação?

LFB - Salvo erro, é uma citação de uma crónica na TABU, revista do SOL. Surgiu por crença, porque não acredito de todo que um casal de ex-namorados – que tenham estado seriamente empenhados durante a relação – possam continuar sinceramente “amigos” depois… e o contexto, bem, era autobiográfico.

T.N.- Projectos?

Manter as minhas crónicas no SOL e na MAXMEN, não lixar o novo filme do Leonel Vieira com o meu “cameo”, nem o documentário do Vicente Jorge Silva sobre o arquipélago com a minha participação; no Verão gravarei um pequeno papel na nova produção do Alexandre Valente (filme realizado pelo Nicolau Breyner) e, em Setembro, voltarei à antena do RCP, estarei a leccionar um workshop de escrita criativa durante 3 meses na Guilherme Cossoul em Lisboa e - quem sabe? – a iniciar a 3ª série do SEMPRE EM PÉ.

T.N.- Quais seriam para si, os projectos ideais na área da televisão?

O meu sonho é um dia poder conduzir um programa à imagem e semelhança do “Daily Show with Jon Stewart”. Mas confesso que tenho um fraquinho por concursos… se um dia pudesse apresentar algo no género do “Quem Quer Ser Milionário?”, tenho a certeza de que me divertiria imenso! Mas objectivos, mesmo, passam por publicar um romance e escrever e realizar uma longa-metragem. Ah, e o maior de todos: ser pai. Objectivo, sonho e desejo que já esteve bem mais longe de acontecer…

Biografia e percurso profissional

Foi criativo nas "Produções Fictícias", desenvolvendo experiências na publicidade, na rádio e no teatro, mas tornou-se mais conhecido do grande público com o programa semanal emitido pela RTP2, A Revolta dos Pasteis de Nata, onde juntou personalidades tão distintas como Maria José Morgado, José Monchique, Luís Represas, João Soares ou Joaquim de Almeida, sempre numa base de humor.
“Depois dos convidados se sentarem, com o directo no ar, só tenho de os fazer sentir confortáveis e passar energia positiva. O que não é complicado, uma vez que adoro este trabalho".
Já há quem o distinga como o "gajo da boina". De facto este adereço colou-se a Luís Filipe Borges, logo que chegou à capital. Desde então, adoptou-o como uma imagem de marca. "Estava há poucas semanas na capital e sentia-me chocado com os meus colegas em Direito. Todos iguais, sem alma, sem carisma, muitos já de blazer e pastinha… Comecei a usar boina pela simples razão de que pretendia distinguir-me na multidão da faculdade." Porém, é essa mesma boina que esconde paradoxalmente uma personalidade introspectiva e tímida, pois considera-se um “tímido e individualista por natureza”, daí que se sinta sempre “mais à vontade de noite, à frente do pc, a escrever”. Apesar de estar, hoje, à frente das câmaras, o açoriano não tem dúvidas que o seu percurso natural é a escrita. "Antes da «Revolta» já tinha atingido o objectivo de ganhar o seu sustento pela escrita, fosse como argumentista, cronista ou dramaturgo, há mais de 4 anos e crê que esse será sempre o seu caminho natural, pois a TV foi mais um “acidente” de percurso.
Nascido em Angra do Heroísmo, a 5 de Agosto de 1977, Luís Filipe Borges iniciou na Terceira o seu trajecto académico que concluiu em Lisboa, com a licenciatura em Direito, pela Universidade Clássica de Lisboa.
A inclinação para a escrita depressa surgiu em concursos e participações na imprensa e rádio locais. A carreira na televisão, começou como criativo/actor, em programas como "Zapping", "Fenómeno", "Serviço Público", todos na RTP2, atingindo maior notoriedade como associado das Produções Fictícias. Foi ainda um dos argumentistas do programa da RTP1, "Portugal FM".
Passou pela imprensa nacional, colaborando com "Correio da Manhã", "Record" e com "A Bola", chegando a redactor do "Inimigo Público", um suplemento de humor do jornal "Público" e a autor da crónica diária "Sit-Down Comedy", no jornal "A Capital". Colabora também com as revistas "Maxmen" e com o semanário "SOL".
No teatro, fez adaptações, encenou, representou, mas foi sobretudo autor. Peças como "O Café do Fim do Mundo", "O Espírito de Natal", "Não Há Crise", "Fechado para Férias", "Urgências" tiveram a sua assinatura, bem como o espectáculo "Stand-Up Tragedy", com Nuno Costa Santos.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Maiop de 2008.




Lei do Tabaco gera quebra de rendimentos!

Está comprovado cientificamente que não basta não fumar, há que estar também longe do fumo dos outros. Desta realidade, emergiu a nova lei do tabaco, que protege, essencialmente os não fumadores. Os estabelecimentos podem optar por terem clientes fumadores, ou não, mas há requisitos a cumprir. Caso contrário, as coimas são “grandes”, segundo afirmou a dirigente do ARESP Açores, Maria João Paiva, que considera a lei uma “mais-valia”, apesar de criticar o modo como esta foi implementada.

Fumar é morrer lentamente. Para combater esta realidade os estabelecimentos têm de estar preparados, para implementar esta nova lei do governo da Republica, que entrou em vigor em Janeiro do corrente ano.
Maria João Paiva, responsável da delegação regional da Associação de Restauração e Similares de Portugal (ARESP) afirma que a lei do tabaco é uma “mais-valia”, mas contrapõe não concordar com “a maneira como esta foi implementada, principalmente pela falta de informação” aos empresários.
Defende também que no início, deveria ter havido uma “campanha de sensibilização junto dos nossos associados e dos empresários em geral, sensibilizando-os para essa lei e informando-os devidamente de como deveriam preparar estes mesmos estabelecimentos, para que a partir de 1 de Janeiro estivessem aptos a abrir, para fumadores e não fumadores”.
“E isso não aconteceu” – lamenta, salientando que esta lei veio influenciar a área da restauração, “muito mais no que respeita à área afecta a bebidas, em estabelecimentos como discotecas e tascas”.
A nível de restaurantes afirma satisfeita, que esta foi “aceite de melhor forma e a perca foi grande, mas não tão grande como se sentiu na área dos snack-bares”, pubs, cafés - área que, reconhece, possibilita mais ao cliente tomar um café ou outra bebida e ‘puxar’ do tabaco. “Aí é que as quebras foram mais significativas”.
Referindo-se às reclamações que já receberam, avança que estas foram sobre a “falta de informação e de formação antes da aplicação da própria lei”.
A lei, aprovada em Junho, só em Janeiro de 2008 foi implementada. Só que, enfatiza, “nunca houve uma sensibilização directamente com o empresário a nível de sessões de esclarecimento, de forma a orientar aqueles que pudessem ter o estabelecimento aberto em condições para fumadores ou não fumadores”.
Quanto às queixas, revela ter por vezes empresários que vêem que há estabelecimentos, com o dístico azul para fumadores, não estando devidamente “preparados”. Os que estão preparados queixam-se do mesmo, esclarece, pois “a preparação engloba vários custos”.
“E custa muito ver pessoas que investiram para poderem por o dístico de fumadores serem confrontadas com situações de outros empresários que não tiveram qualquer tipo de custo e têm lá o dístico” - acrescenta.
Os estabelecimentos podem ter zona para fumadores e para não fumadores. Para que isso aconteça, explica, “um estabelecimento com área inferior a 100metros quadrados só pode optar entre uma das modalidades - fumadores ou não fumadores. Para isso, a nova lei obriga a que estes tenham um “sistema de exaustão com entrada e saída de renovação do ar para o exterior”. Na sua opinião, o que tem criado “muitas dificuldades aos empresários e suscitado dúvidas é confundirem a lei do tabaco com a do ambiente”, duas leis que não se podem conjugar “de maneira nenhuma”.
A nova lei do ambiente, lembra, sai em Janeiro de 2009, mas já se sente esta dificuldade, porque a lei do ambiente está a “interferir directamente” com a do tabaco, que é “específica só no tipo de exaustão” de que o estabelecimento de fumadores, ou não fumadores, tem de estar munido.
Todo o estabelecimento com uma “área superior a 100 metros quadrados pode optar por ser misto, devendo ter até 30% de área destinada só a fumadores, preferencialmente isolada”.
Caso não seja isolada, a área deve estar devidamente “identificada com o sistema de exaustão apropriado e com a indicação do dístico” de fumadores e não fumadores.
Lamenta ainda o facto deste mesmo dístico originar, por vezes, informação “não muito correcta”, pois um estabelecimento misto deve dispor dos dois dísticos (azul e vermelho), de modo a “não induzir” o cliente em erro. “O dístico vermelho tem de ser colocado” - especifica, ressalvando que o ARESP, ao contrário de outras entidades, criou um dístico em que estão os dois mencionados, por isso “qualquer estabelecimento dos nossos associados tem ambos os dísticos”. Mesmo assim, a situação induz em erro, pois “o cliente não está a medir a área do estabelecimento”.
Em termos de infracção das regras, as coimas são “grandes”, sendo várias as contra ordenações.
“Um cliente que esteja num estabelecimento para não fumadores e detectar que lá está uma pessoa a fumar, pode chamar a polícia ou a fiscalização”- exemplifica, afirmando que, neste caso, a contra ordenação é atribuída tanto ao proprietário, como ao fumador, indo “desde 2500 a 10 mil euros”.
Mas há casos em que o máximo, são 250 mil euros, esclarece, acrescentando haverem também coimas que podem ir “de 50 a 750 euros, caso o fumador chame a autoridade”. Valores estes, que podem ser atribuídos “tanto ao fumador como ao proprietário”. O estabelecimento sendo fiscalizado e não tendo todas as condições, aí a coima pode ir de “2500 até 10 mil euros”.
A Nova lei anti-tabaco divide opiniões. A Fundação Portuguesa de Cardiologia é a favor das novas medidas de combate ao tabagismo, enquanto os partidos políticos e sindicatos discordam de alguns pontos.
A proibição de fumar nos recintos públicos fechados e o aumento da idade mínima para aquisição de produtos de tabaco dos 16 para os 18 anos, foram duas das propostas que o governo colocou em vigor no início de 2008.
A nova proposta anti-tabaco apresentada por Correia de Campos, ministro da Saúde, proíbe fumar nas áreas fechadas dos locais de trabalho, dos estabelecimentos de restauração e bebidas, incluindo os que possuem salas ou espaços dedicados a dança, das unidades hoteleiras, e nos centros, galerias e grandes superfícies comerciais.
"Espero que a nova legislação seja cumprida e que possamos frequentar locais públicos livres de fumo sem o incómodo de termos pessoas a fumar ao nosso lado"- disse à imprensa Luís Negrão, da Fundação Portuguesa de Cardiologia. "Já devia ter sido proibido fumar em recintos públicos fechados há muito tempo"- lamenta o assessor médico.
"O fumo dos outros também prejudica a saúde dos não fumadores, aumentando a probabilidade de virmos a ter cancro"- sustenta.
"Há muitas empresas que proíbem os seus funcionários de fumar nos locais de trabalho". "Alguns fumadores estão desejosos que lhes condicionem o vício para reduzirem o consumo de tabaco"- acredita. "É a medida mais acertada para reduzir os efeitos nocivos do tabaco".
Segundo a Constituição, “todos têm direito à saúde e não à doença. A medida é positiva tanto para os fumadores como para os não fumadores” -afirma o assessor médico da Fundação Portuguesa de Cardiologia.
"O não fumador que deixa que fumem ao seu lado é conivente com o fumador e está a ser responsável por doenças que poderão advir do facto de ser fumador passivo"- alerta.
A Alteração da lei não agradou a todos. Há vozes dissonantes ao projecto que restringe o consumo de tabaco, vindas do próprio partido do governo. O dirigente parlamentar Ricardo Rodrigues já reivindicou uma lei "razoável, que respeite os direitos dos fumadores", rejeitando medidas "fundamentalistas".
O PSD também alertou para a necessidade de equilibrar a defesa da saúde pública com os direitos dos fumadores. Martim Borges de Freitas, secretário-geral do CDS, aprovou no geral quaisquer medidas que facilitem deixar o tabaco, mas manifestou-se totalmente contra o que considera ser "o exagero gráfico e a exploração do chocante" de colocar fotografias de cadáveres nos maços de cigarros, outro ponto da proposta destinado a desencorajar os fumadores.
A central sindical UGT manifestou-se favorável à proibição de fumo em espaços fechados, mas exigiu a criação de espaços alternativos nas empresas, para que os trabalhadores não tenham de ir fumar para a rua, bem como a definição do tempo autorizado para fumar.

A Nova lei

Segundo editado no Diário Digital, a Assembleia da República aprovou no ano passado a nova lei do tabaco, um diploma mais tolerante do que o inicialmente apresentado pelo governo e que entrou em vigor a 1 de Janeiro de 2008.
Relativamente à proposta que saiu do Conselho de Ministros a 1 de Março, a lei apresenta uma redução de mil para 750 euros no limite máximo das multas a aplicar a fumadores transgressores e autoriza os proprietários dos estabelecimentos mais pequenos a escolher, se querem, ou não, ser espaços sem fumo, o que lhes era imposto segundo a formulação inicial.
Assim, cada proprietário poderá decidir se quer ser um espaço para não fumadores, para fumadores ou para ambos, desde que fique garantida a qualidade do ar para os não fumadores.
Quanto aos estabelecimentos com mais de 100 metros quadrados, mantém-se a obrigação de serem destinados a não fumadores, embora possam ter um espaço para fumadores, desde que não ultrapasse 30 % do total do espaço.
Outra diferença é que, enquanto a proposta do Governo previa multas de entre 50 e mil euros para fumadores que insistissem em fumar nos espaços proibidos, a lei prevê agora, por proposta do PS, que estes paguem coimas entre 50 e 750, mantendo-se as coimas anteriormente previstas para os estabelecimentos que permitam o fumo em locais sem tabaco.
As restantes multas mantêm-se como inicialmente propostas, e os estabelecimentos que permitam o fumo em locais proibidos ficarão sujeitos a coimas de entre 50 e mil euros.
O limite máximo das coimas para fumadores que violem a lei é, no entanto, contestado pelo CDS-PP, que apesar de reconhecer o esforço do PS em aproximar-se da proposta democrata-cristã, advoga tratar-se de um valor superior ao das multas aplicadas a consumidores de drogas.
O deputado socialista lembrou no entanto que o PS alterou a proposta inicial do Governo no sentido de aumentar o número de espaços em que será permitido fumar, pelo que não faria sentido reduzir as coimas de maneira significativa.
No final da votação da lei, o PS e PSD manifestaram-se satisfeitos com a formulação da lei votada, enquanto os restantes partidos levantaram algumas reservas.
Uma das questões que suscitou algum descontentamento foi a data de entrada em vigor da nova lei, que o PS antecipou de «um ano após a data da sua publicação», como previa a proposta do Governo, para 01 de Janeiro de 2008, quando alguns partidos da oposição defendiam um prazo mais alargado para permitir aos proprietários dos estabelecimentos adaptar-se às exigências.
Afonso Candal afirmou, no entanto, que os proprietários que a 1 de Janeiro não tiverem reunido as condições necessárias para terem espaços destinados a não fumadores, funcionarão como espaços sem fumo até conseguirem cumprir as exigências.
Afonso Candal sublinhou o «amplo apoio partidário» de que goza a lei, que considerou «um trabalho equilibrado, e sublinhou que a antecipação da entrada em vigor para 1 de Janeiro (inicialmente previra-se um ano depois de publicada) é fundamental.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Maio de 2008.

Economistas: Há muitos, mas são poucos!


A Delegação Regional da Ordem dos Economistas já tem novos Órgãos Sociais. Segundo Mário Fortuna, os objectivos primordiais deste mandato foram "consolidar os alicerces" e apostar cada vez mais na formação dos profissionais do ramo.
O bastonário dá-nos ainda uma visão da economia regional, nacional e dos factores que levaram a crise, hoje internacional, tão longe.

"O lema da nossa candidatura foi continuar a consolidar os alicerces, para contribuir para a formação de profissionais cada vez melhores"- foram palavras de Mário José Amaral Fortuna, presidente da Delegação Regional da Ordem dos Economistas, na cerimónia de tomada de posse dos Órgãos, da referida entidade, eleitos para o triénio 2008/2010, realizada em Ponta Delgada.
O presidente da delegação regional começa por dizer que em 2002, aquando da criação da delegação regional foram movidos pela "convicção de que é importante agregar os profissionais" à volta de uma instituição que possa "valorizar" os actos profissionais relevantes; "promover um elevado sentido ético" do exercício da profissão; "contribuir para a discussão pública de questões relevantes" para a sociedade e, colaborar para um cada vez maior "contributo dos economistas na sociedade".
O programa de trabalho do primeiro mandato, recorda, visava "consolidar alicerces para o futuro" e, deram-se alguns avanços nesta matéria, como o "aumento do número de associados; a participação no processo de revisão do posicionamento da Ordem face às mudanças introduzidas pelo processo de Bolonha" e; a promoção de um conjunto de debates sobre temas "relevantes", entre eles, o "rumo do desenvolvimento dos Açores, as finanças públicas e o turismo".
Ainda por terminar, lamenta, está o processo de "montagem de um espaço próprio, autónomo", que permita identificar "inequivocamente" a delegação.
Referindo-se ao novo mandato, revela que a tarefa agora é de completar uma organização que possa ser "assumida e catapultada" para novas iniciativas, o que só será possível com um "espaço próprio"; com apoio na "consolidação das condições pessoais e colectivas" de exercício da profissão; com uma maior "participação dos economistas no debate publico de questões relevantes a nível económico" e com a criação de um "espaço na Internet" dedicado aos Açores, para que os economistas regionais possam estar "informados e intervir".
"Aumentar a participação de licenciados na Ordem" é outro objectivo, visto que esta dispõe de "170 associados nos Açores, de 800 a 1000 licenciados na Ordem e, de 600 candidatos nas universidades".
Tomaram posse como vogais efectivos Rui Duarte Gonçalves Luís e António Maurício do Couto T. de Sousa. Como vogais suplentes temos João Pedro Almeida Couto e Mário Sérgio Machado Santos.
À margem do evento, e abordando o papel da Ordem na sociedade, Mário Fortuna avança ainda que esta é um "espaço de reunião" de profissionais na área da economia, que tem como missão fundamental "defender o exercício da profissão e agrupar o economista à volta de princípios". Princípios, que considera terem como principal objectivo "sublinhar os aspectos éticos" do exercício da profissão e, também, em termos cívicos, a "responsabilidade das Ordens em intervir nas situações públicas de interesse", que pretendam "contribuir no âmbito da profissão e das nossas capacidades técnicas", para uma análise das questões relevantes na política económica corrente.
Referindo-se aos Açores, afirma que a Região tem "especificidades próprias", que os economistas têm "obrigação de olhar com calma".
"E ao fazê-lo, devem olhar para elas na perspectiva do economista, do analista que olha para as coisas e as disseca, em função da formação de base que tem"- acrescenta, lembrando contudo que nesta perspectiva a formação de base que os economistas têm,
se aplica aos Açores "como a outros espaços nacionais e internacionais", pois a especificidade deriva das características próprias deste espaço, da mesma forma que o Algarve e o Norte são espaços específicos.
Mário Fortuna diz ainda, haverem "bastantes" economistas nos Açores, "se calhar" não tantos como seria necessário, enfatiza, lembrando estar a referir-se tanto aos economistas como aos gestores. Explica, também, que embora existam muitos, "à volta de 800", ainda há "falta", porque a julgar pelo índice de emprego, "não há desemprego na área da economia". O que significa que ainda "há espaço" para economistas.
Neste sentido, argumenta que "a universidade tem desempenhado um papel importante", na medida em que tem formado muita gente, dispondo actualmente de um stock de alunos, na ordem dos 700.
"Nos próximos anos, teremos bastante gente ainda em formação e a Universidade continuará a providenciar quadros necessários para o desenvolvimento dos Açores"- acrescenta, salientando não haver ainda economistas em número suficiente nos Açores, o que faz com que haja "sempre espaço, se a economia se mantiver em crescimento".
O bastonário da Ordem dos Economistas aproveita a ocasião para mencionar um aspecto que considera primordial, que é o facto de "cada vez mais as empresas exigirem competências adicionais dos seus quadros".
"Mesmo empresas relativamente pequenas, começam a recrutar economistas exactamente, porque reconhecem a vantagem de ter pessoas mais qualificadas. Funções que anteriormente eram desempenhadas por pessoas sem qualificações superiores, agora passam a ser desempenhadas por licenciados, o que é fundamental"- esclarece, lembrando que a ordem é um espaço também de "organização destes profissionais, onde se defendem determinados princípios éticos e certos objectivos de comparticipação destes profissionais na vida activa social".
Mário Fortuna vai mais longe, ao afirmar que considera que a economia regional tem evoluído de forma "positiva", embora, reconhece, esteja naturalmente ainda a alguma distância das médias nacionais. A seu ver, os Açores percorrem neste momento um percurso "normal de aproximação de valores nacionais", que se espera que a Região atinja "rapidamente".
De resto, continua, a economia regional tem estado, de certa forma, "resguardada". Isto, na medida em que o Orçamento da Região é "fortemente apoiado no Orçamento nacional" e, por isso, argumenta, não temos sofrido as “grandes crises da retracção", da economia nacional.
"Os modelos encontrados para o financiamento da economia regional acabam por nos proteger. Neste sentido, temos usufruído duma instabilidade muito razoável, ao longo dos últimos anos e estamos numa senda de crescimento que se espera que seja contínua e nos aproxime das médias nacionais de desenvolvimento"- acentua.
Questionado sobre a recente afirmação de Duarte Ponte, na qual o secretário regional da economia afirma que a Região tem recebido alguns 'respingos' da crise nacional, Mário Fortuna contrapõe que esta irá "sempre" sentir respingos da crise nacional e da "euforia" nacional e internacional. Isto, pois, na sua opinião, a economia dos Açores é "fortemente integrada na economia nacional e é obvio que, sempre que haja grandes movimentações da economia nacional haverá algum reflexo" na economia regional.
Reflexos, estes, que terão maior ou menor intensidade, dependendo das "características específicas destes choques, mas a tendência é sempre a mesma".
"Economias integradas tendem a mover-se mais ou menos em sintonia"- recorda.
Falando do panorama nacional, diz estar bem melhor do que há uns anos atrás, mas o país ainda está "longe", de atingir o nível de desenvolvimento e estabilidade de que gozam a generalidade dos outros países da União Europeia.
Mário Fortuna salienta que Portugal ainda se encontra a pagar a factura de alguns "desacertos" da política económica nacional, que ocorreram nos "finais da década de 90 e no princípio deste século".
"Ainda estamos a pagar um pouco, aquilo que se fez de mal naquela altura"- situação que classifica como uma "euforia, sem fundamento, em termos de despesa pública".
Mas, afirma confiante, a tendência é sairmos desta situação e juntarmo-nos ao resto da Europa num percurso de crescimento "mais positivo". O que poderemos fazer, espera-se, sem termos de estar continuamente "preocupados com o 'apertar do cinto' e com o espectro de termos instituições nacionais a insistir na correcção de problemas. Problemas que, reconhece, "nós próprios devíamos ter corrigido naturalmente. Mas estamos no bom caminho", apesar de não ser o ideal.
Admite, também, que a maior "falha" nesta desaceleração da economia foi o facto de Portugal ter gasto "demais", numa determinada altura. Situação, que, sublinha, temos de "corrigir através de apertos significativos".
"É assim mesmo, quando se gasta demais numa determinada altura, tem que se corrigir
E nós estamos num processo de correcção de exageros, de há uns anos atrás"- lamenta.
Referindo-se ao próximo ano, afirma que a perspectiva é de haver um "retrocesso, relativamente aos avanços de um passado mais recente, mas espera-se que passada esta crise conjuntural e internacional, se retome novamente o crescimento".
As perspectivas para 2008, são de um crescimento mais "desacelerado ou mais lento, do que o de 2007, e que em parte deriva da crise que "já não é nacional, nem europeia, é internacional".
Revela ainda que esta crise teve origem nos Estados Unidos, com o problema do "Subprime, o Crédito de Alto Risco", que precisamente por ser muito arriscado, levou à "falência" algumas instituições financeiras e gerou muitos "prejuízos" em outras tantas.
Trata-se um crédito imobiliário, no qual os empréstimos são essencialmente, quando não na totalidade, garantidos pelo valor dos activos.
Os sectores com maior dificuldade nesta conjuntura, considera serem os que "dependem fortemente de crédito corrente, como o sector imobiliário que poderá ser fortemente afectado", enquanto a situação de "liquidez dos mercados internacionais" não for corrigida. Quando isso acontecer, salienta, poderemos retomar uma "rota normal de crescimento", o que, a seu ver, fará toda a diferença.
"Neste momento, a economia mundial, a economia real está a ser afectada pela falta de liquidez do sistema monetário internacional, que deriva exactamente do problema do Subprime"- lamenta, contrapondo tratar-se, "seguramente", de uma situação cíclica, mas que "não deixa de ser negativa e implicou recursos no desenvolvimento económico do mundo, não só de Portugal".
Ultrapassá-la, enfatiza, só será possível através da "coordenação internacional das entidades reguladoras dos mercados financeiros e de uma gestão cuidada por parte dos bancos centrais mundiais".
Caso contrário, nada há a fazer senão "esperar que os problemas gerados por esta crise sejam sanados e que se retome a normalidade", porque grande parte do problema é a
"falta de liquidez". Mas o bastonário reconhece também a existência de uma "grande incerteza", por não se saber ao certo qual a "extensão" dos danos causados pela crise.
"Depois de sanada esta crise e de clarificados os problemas na sua essência, ficamos em boas condições de retomar um percurso normal, não ao nível que tínhamos anteriormente, mas o importante é limpar o que correu mal no passado, para que possamos rapidamente progredir para o futuro"- conclui.
BIOGRAFIA

Mário José Amaral Fortuna nasceu e vive em São Miguel, Açores. Completou a licenciatura em 1978, na Universidade de Massachussets em Dartmouth Estados Unidos da América, o mestrado em 1981 e, o doutoramento (todos em Economia) no ano de 1983, na Boston College. Em 1993, obteve equivalência do doutoramento pela Universidade dos Açores, ao abrigo da legislação portuguesa, especializando-se nas áreas de Economia Monetária, Comércio Internacional e Econometria. Desde 1990, é professor associado de nomeação definitiva da Universidade dos Açores.
Durante o seu doutoramento nos Estados Unidos, leccionou micro e da macro economia no Boston College e no Simmons College, em Boston. Colabora ainda com a Universidade Católica a ministrar diversos cursos avançados para gestores, e em dois seminários. Um sobre a economia dos Açores e, o outro sobre a avaliação de projectos de investimentos.
Na Universidade da Madeira, foi um dos elementos principais na revisão do curso de Gestão daquela instituição, coordenando ainda as disciplinas da área da economia.
Nos Estados Unidos, colaborou também com o Social Welfare Research Institute, na área da investigação, onde participou em dois estudos de grande envergadura da realidade social e económica do país. Nos Açores, desenvolveu a sua actividade na Universidade, chegando a ser director do Centro de Estudos de Economia e Gestão.
Assumiu, de forma quase contínua, responsabilidades dentro da Universidade, tendo inclusivamente elaborado o seu primeiro estatuto.
É, desde 1993, Presidente do Conselho Científico da Universidade e Director do Departamento de Economia e Gestão. A sua actividade de investigação tem resultado em diversas publicações e múltiplas presenças em seminários, conferências e colóquios, geralmente centradas em questões relativas ao desenvolvimento e à política económica nos Açores.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Maio de 2008.