Loading...

quinta-feira, 12 de junho de 2008

"O artista deve tomar posições"


UHF lançam DVD no final do verão


A Rádio está "divorciada" do interesse das pessoas e, na maioria das vezes, nas emissões de rádio a música portuguesa é deixada de parte, para dar lugar à estrangeira, o que é um “pecado”, pois as pessoas “preferem” a música portuguesa. Esta é a opinião de António Ribeiro, vocalista dos UHF, que defende ainda que o artista não pode ficar indiferente ao que se passa na sociedade e tem de “tomar posições”.

Matas-me com o teu olhar; Menina, estás à janela e; Rua do Carmo são alguns dos êxitos mais conhecidos dos UHF, donos de uma carreira bem consolidada no mercado da música portuguesa, desde há 30 anos.
António Ribeiro, vocalista dos UHF, lembra que a banda conta já com "30 anos de carreira", o que considerava algo "impensável" quando começou. "Conseguimos criar um espaço na música portuguesa, escrever e gravar canções que se tornaram importantes - e isso, efectivamente, é o que podemos considerar uma carreira dedicada à música - e acimentar um bocado aquilo que era a nossa ideia, a nossa concepção de música, de arte, porque a música é arte"- salienta.
O vocalista da banda avança que "desde 1982", que visita os Açores por motivos profissionais e diz ser, "sempre, muito bom" voltar. Acrescenta ainda haver uma "proximidade muito peculiar e muito particular" entre os açorianos e os UHF", o que já disse, "em cima do palco".
Afirma já ter constatado esta afinidade entre o grupo e o povo das ilhas há muito tempo e talvez seja por isso, também, que vêm actuar aos Açores com "tanta regularidade", pois, a seu ver, há uma "química que se gera nos concertos".
"Acho que os açorianos gostam da sinceridade, do ataque frontal que é a música dos UHF"- acentua.
A banda, adianta, nasceu, "provavelmente", como todos os grupos nascem, quando um grupo de miúdos, de jovens quer começar a fazer música e começa à procura de conhecer pessoas interessadas.
"Quer-se comprar instrumentos, não há dinheiro; quer-se uma sala de ensaio e é difícil, porque fazemos barulho"- ressalva, avançando estar a falar de 1977/78. "Já lá vão 30 anos e no fundo penso que foram um bocado essas dificuldades de inicio de carreira, que acimentaram aquilo que foi a coesão dos UHF".
Falando na temática das canções, António Ribeiro explica que os UHF têm "três correntes de escrita. Uma social, outra sobre o amor e uma terceira politica", que são talvez os ramos mais "vincados" da sua escrita musical.
E continua, dizendo que os UHF escrevem canções de amor, como todas as pessoas que escrevem canções o fazem, porque, muitas vezes, querem "transmitir os sentimentos" que lhes vão na alma e que, no fundo, são "comuns" às pessoas que os ouvem. As canções sociais, esclarece, têm a ver com a "observação" do que acontece à sua volta e transmitem a "posição do grupo sobre várias situações que se geram na sociedade".
Na sua opinião, "o artista, compositor ou autor deve tomar posições", por isso o grupo tem algumas canções "francamente políticas", posições e atitudes que assume.
"Penso que muitos colegas meus, cantores, não têm opções políticas, não têm clubes de futebol, porque querem agradar a todos"- lamenta, avançando ser fã do Sport Lisboa Benfica e uma pessoa "humanista, preocupada com o bem-estar da sociedade e dos mais desfavorecidos, de que tanta gente fala, geração após geração". O que contrapõe, argumentando que "o artista deve ter a capacidade de falar sobre essas matérias, sobretudo, porque tem acesso à comunicação social, grava discos, fala em entrevistas como esta."
Referindo-se a Noites Negras de Azul, um dos discos da banda que teve mais sucesso, lembra que foi um disco "difícil de parir", porque foi produzido numa fase "conturbadíssima" dos UHF, a meio dos anos 80. "O disco foi escrito e gravado entre 1987 entre 1988, altura em que não tínhamos uma formação definida. Foi feito um bocado à minha volta e fui convidando algumas pessoas para irem a estúdio gravar comigo e depois acabou por ser uma formação"- recorda, reconhecendo que este trabalho é considerado um dos discos "mais bonitos e misteriosos dos UHF". "Se calhar, porque revela exactamente este lado de sobrevivente que eu tenho, mas não um lado de homem queixoso"- justifica, acrescentando que não se queixa. Sobretudo, "combato".
"Eu não me fico pela incapacidade de atravessar o rio, quero atravessar a ponte"- revela, admitindo que esta fase conturbada dos UHF, no fundo, produziu uma "bonita flor de Lótus".
Quanto à noção de que as pessoas, muitas vezes, preferem a música estrangeira à portuguesa, afirma ser um "equívoco", avançando ainda que as pessoas em Portugal preferem música portuguesa, mas, "frequentemente as rádios nacionais preferem música estrangeira", o que é um "pecado". O vocalista da banda vai ainda mais longe, ao afirmar que, tal como muitas coisas neste país estão "desorganizadas", a rádio também está "afastada" das pessoas, que "muitas vezes" já nem a ouvem.
"Infelizmente, a Rádio perde ouvintes todos os dias, porque está divorciada do interesse das pessoas. Se os portugueses não gostassem de música portuguesa, não haveria tantos espectáculos e cheios, com o entusiasmo que existe"- salienta, lembrando que recentemente tocou em dois espectáculos, em que apesar de não haver chuva, o dia não estava muito bom e "as pessoas foram apesar de o tempo convidar mais ao sofá".
"A questão é os portugueses gostarem daquilo que fazemos, outra coisa é muitas vezes quem faz rádio estar divorciado dos interesses da nação"- esclarece.
Falando sobre a difícil expansão de uma banda portuguesa no mundo, António Ribeiro argumenta que esta situação se deve a dois factores, "se calhar iguais". Primeiro, ao facto de Portugal ser um país "pequeno e sem capacidade de exportar" o que quer que seja, musica também. "Dificilmente, exportamos algo em condições que valha a pena e que sintamos que traz benefícios para o país inteiro"- reconhece, argumentando também que o país faz “pequenas” exportações e a música também está dentro deste "saco anémico" das exportações. O segundo, também "importante", é o facto da língua portuguesa ser "complicada".
“É um bocado difícil chegar ao grande mercado, porque ai "governa e manda o inglês, naturalmente"- acrescenta.
Referindo-se a esta oportunidade de visitar os Açores, o vocalista do grupo avança que este costuma deixar um “bom nome”, sempre que toca nos Açores e vai recebendo convites. Às vezes conseguem, outras vezes não, lamenta, pois “muitas vezes não é fácil”.
“Tivemos um convite para ir ao Corvo, mas ir lá é extremamente difícil”- exemplifica, insatisfeito e com “muita pena”, porque gostava de ir. Diz ainda saber “muito bem o que é o isolamento”, porque no continente também há terras muito isoladas e é “muito bom” lá ir, pois é uma forma “muito diferente das pessoas estarem connosco”. Só que as viagens são “complicadas”- admite, acrescentando não haver viagens “directas” e, normalmente, “no dia seguinte” têm concertos marcados no continente. “Se nos convidam, só não vamos se não podermos”- sublinha.
Em termos futuros, revela que irão lançar este ano canções que “já estavam editadas há muito tempo em CD, ou esgotadas ou que nunca tinham sido editadas”. Lembra também que estão em digressão e a preparar um disco de “originais”, que será lançado depois da digressão, na “Primavera de 2009”.
António Ribeiro revela também que além dos discos que estão a sair (no espaço de um ano já saíram quatro), vão também lançar “o primeiro DVD da banda”, que foi gravado há dois anos, no Coliseu de Lisboa e que será editado logo a seguir ao verão.
O vocalista mostra-se ainda esperançoso de que o concerto no Nordeste seja, “pelo menos igual, ao de há uns anos atrás, que foi fantástico, um grande concerto”.
Do Nordeste, afirma ser uma terra “muito bonita, porque de repente acaba a terra e começa uma escarpa para o mar”.
Na sua opinião, nos Açores há um “respeito, uma imensidão de seriedade, se quisermos, dos elementos, em que o homem se sente perante a natureza. Os Açores têm essa particularidade, de nos por sempre em contacto com a 'brutalidade' da natureza, que no fundo é o nosso contexto. Nós, os humanos, pertencemos a esta terra e nos Açores sente-se muito bem isso”- sublinha.

Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Junho de 2008.

Sem comentários: