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quarta-feira, 11 de junho de 2008

A riqueza dos Açores está na sua dimensão

A imagem dos Açores não existe

Os Açores não estão “comercializados” a nível internacional, é o que falta à Região. E para isso, são necessários investimentos de empresários estrangeiros ou mesmo madeirenses, que têm mais “experiência e know-how” na área do turismo.
Outro grande “perigo” no futuro é trabalharmos com operadores externos, que ficam com a maior parte da receita. Não temos capacidade para dominar todo o circuito e fica muito pouco dinheiro nos Açores.
Cabral Vieira, director do DEG da Universidade dos Açores, defende ainda que a riqueza dos Açores está na sua dimensão e na sua diversidade, “produto que deve ser vendido”.

Os Açores ainda têm um longo caminho a percorrer para serem um destino turístico conhecido. A sua maior riqueza, ao contrário do que se possa pensar, reside precisamente na dimensão e diversidade das ilhas, características que as tornam muito mais ricas, do que a Madeira, por exemplo. Os transportes aéreos, apesar de já se terem desenvolvido continuam a ser um “bloqueio” ao desenvolvimento da Região a nível turístico. Outra solução para desenvolver o turismo, nestas lendárias ilhas da Atlântida, está na criação de circuitos integrados entre os Açores e a Madeira, em termos de transportes.
Cabral Vieira, director do Departamento de Economia e Gestão da Universidade dos Açores, considera o Turismo o “grande potencial” da economia regional. “Há muito a fazer nesta área e o marketing não está feito, o produto Açores não está desenvolvido”- salienta, acrescentando que ainda existem “muitas ideias erradas” sobre a Região e as suas potencialidades.
Não querendo nomear “partidos políticos”, o director do departamento aproveita para dizer que, mesmo os governantes “pensam de forma errada”.
“Os governantes justificam-se muito com a dispersão e a dimensão das ilhas, que é precisamente onde está a nossa riqueza. Somos grandes, mas somos dispersos, porque temos muito mar e muita riqueza” - sublinha, argumentando que os Açores seriam “muito mais pobres”, do ponto de vista turístico, se estivessem “reduzidos” a uma ilha como a Madeira. E continua, afirmando que a grande riqueza da Região está na sua dimensão diversidade, o que é preciso “transformar” num produto que seja “comercializado e vendido”. Cabral Vieira lamenta também o facto de que, “na Holanda as pessoas não sabem o que são os Açores, nem onde ficam”, mas, em contrapartida, “todos” sabem onde fica a Madeira, uma Região, do ponto de vista de diversidade, muito mais pobre que os Açores.
Os Açores têm “muito mais potencialidades”, mas “o seu produto não está desenvolvido no mercado, apesar de ser um potencial já identificado pelos governantes”.
Ainda há muito caminho a percorrer, enfatiza, há muito a fazer na “imagem do marketing” e há que perceber quais são os nossos produtos para “agradar” aos turistas. “A imagem dos Açores não existe actualmente”, como acontece com a madeira e tem de existir – alerta, acentuando, mais uma vez, que os Açores são “muito mais ricos” sob o ponto de vista turístico, do que a Madeira, mas são “muito menos comercializados e menos conhecidos”.
Quanto ao que poderia ser feito para mudar este panorama, o director do departamento avança que o turismo deveria ser feito “de forma Adhoc”.
“Os turistas deviam ser trazidos aqui, colocados num hotel e devia-lhes ser logo vendido um programa com circuitos turísticos e com o que cada ilha tem de diferente. A pequenez vende-se; as quedas de água das Flores; as praias de Santa Maria; as Furnas em São Miguel; o património histórico da Terceira; as Fajãs de São Jorge; os moinhos da Graciosa e; os Capelinhos no Faial vendem-se, porque há turistas interessados nisto”. Isto implica, “obviamente”, que seja feito um “plano turístico e de comercialização” dos Açores, um trabalho, a seu ver, bastante mais “profundo, mas sem este plano e continuando assim, os Açores não têm grande futuro”, do ponto de vista da comercialização.
Estratégia e Sectores
Quanto à estratégia e os sectores, argumenta estarem “bem identificados”. O grande desafio que coloca aos governantes da Região é o da “comercialização”, pois, avança, o modelo actual “não é um modelo de futuro”. Diz ser um “bom” começo, mas o processo não está concluído, tem que se avançar mais e “evoluir muito” na área da comercialização.
“Os Açores terão de ser tão conhecidos no mundo como a Madeira, porque são muito mais ricos e têm muito mais potencialidades. É óbvio que a Madeira tem um processo histórico, centenário de turismo e os Açores não, mas não podemos contentar-nos com isso. Temos que o ter, para mostrarmos os Açores ao mundo”- esclarece. Reconhece ainda que tem sido feito muito “investimento” nessa área, mas ainda há muito a fazer. “Sobretudo, é importante trazer para os Açores pessoas que tenham um bocadinho de experiência, investidores externos e alguns técnicos que percebam de marketing e de como se comercializam ilhas no mercado internacional e; com experiencia na área do turismo”, porque não é “vergonha” nenhuma pedir o que não temos capacidade de fazer. Nós açorianos, temos algum “espírito empresarial”, mas “dificilmente” conseguimos comercializar essa área. “A Madeira tem muito investimento inglês, não é só o governo regional da Madeira que trabalha neste sentido” - salienta.
A própria questão dos transportes aéreos, admite, ainda é um “bloqueio” ao desenvolvimento do turismo, mas já muito foi feito nessa área. Lembra que “não havia hotéis, pois não havia transportes e vice-versa”, mas com o desenvolvimento da SATA Internacional acabou-se um pouco essa ideia. Na opinião de Cabral Vieira, os transportes, apesar de serem um bloqueio, desenvolveram-se bastante e “criaram-se condições para que o número de camas na Região e a capacidade de alojamento aumentasse”. O que falta ainda são alguns “investidores externos”, que tenham também interesse na hotelaria regional e que eles próprios possam “comercializar” o destino Açores. Já os transportes nos Açores estão, “mais ou menos, liberalizados”- salienta, explicando não estar a referir-se aos voos entre os Açores e Lisboa, mas “os voos charters podem fazer-se para qualquer país do mundo e em qualquer companhia”.
O problema, lamenta, é que os investidores açorianos não têm interesse em fazê-lo e a Região está a utilizar “operadores externos, que são um perigo enorme, pois vendem os Açores relativamente caros”. Os Açores não são um destino barato, admite, mas “a maior parte da receita não fica nos Açores, fica na mão dos operadores”.
“É um dos grandes perigos no futuro, não termos capacidade para dominar todo o circuito”, dai a importância de ter algum investimento externo (estrangeiro), o que até este momento ainda não existiu - relata, insatisfeito. Era extremamente interessante ter algum “investimento vindo da Madeira, potencialmente em termos de ideias, para ser realizado nos Açores”. Outra possível solução apontada pelo director para um maior desenvolvimento dos Açores, eram “investimentos a nível dos transportes aéreos e da hotelaria entre os Açores e a Madeira em circuito integrado”. O que seria feito, “não a nível das entidades, mas sim dos empresários”.
Cabral Vieira lembra que estes dois arquipélagos são vistos sempre como “destinos autónomos ou independentes” e podiam ser enquadrados num destino, desde que houvesse investimento comum. Por isso, diz ver com “muito bons olhos” o interesse de alguns empresários madeirenses em “investir no turismo” dos Açores, pois o investimento madeirense é “extremamente importante” também.
Mesmo assim, afirma ter “muitas dúvidas de que o turismo vingue nos Açores e seja uma actividade extremamente rentável e importante para o desenvolvimento dos Açores”. Falta “comercializar os Açores no mercado internacional”, temos dois ou três operadores que trabalham com o mercado sueco e com o dinamarquês, mas actualmente é “insuficiente”.
Na área das Relações Públicas no que toca aos hotéis, Cabral Vieira reconhece também que ainda há “muito” a fazer. Pedindo “desculpa” aos empresários regionais, diz não acreditar que os Açores tenham capacidade para isso, pois não têm “experiência na comercialização e na prestação de serviços aos turistas, não têm essa tradição”. Por estes motivos, a Região precisa de “alguém de fora que ponha os hotéis açorianos ao nível dos madeirenses ou das Canárias, sítios onde há muita animação” e, por vezes, basta um pouquinho de “imaginação ou promover aquilo que já se faz e como se faz”. O director defende que não temos “know-how” nos Açores para isso, apesar de termos cursos de formação, isso será “insuficiente”.
“Porque não ir buscar pessoas que já estão habituadas a trabalhar com mercados internacionais? Os empresários têm de ter esse interesse, pois só assim os Açores se podem desenvolver a nível turístico. O turismo tem de ser desenvolvido para beneficiar os residentes nos Açores”- conclui.
Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Junho de 2008.


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