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quinta-feira, 31 de julho de 2008

"Fiél" a si próprio e preocupado com o mundo!


João Pedro Pais lança novo álbum em 2008


Louco por ti”, “Mentira” e “Ninguém é de Ninguém”, são alguns dos êxitos deste cantor que adora visitar os Açores. Falamos do simpático João Pedro Pais, que prevê lançar um novo álbum antes do final do ano.A pobreza e a fome existentes a nível mundial são questões que preocupam o cantor, e que este considera “inadmissíveis”. O que mais o assusta é a “miséria dos outros, quer a miséria humana, quer a mental ou económica”. Segundo o artista, o mundo está “cheio de dinheiro, e há milhares de crianças a morrerem à fome”. Este aproveita para dizer que os países envolvidos, não prestam atenção a esta realidade. Às vezes, o “Bill Gates, ou a Oprah, fazem mais do que certos governos que estão preocupados com o seu umbigo”.


Adora a música, que faz parte da sua vida desde pequeno. Começou por actuar em bares fazendo ‘covers’ de vários artistas portugueses. Até que, dois anos após a sua participação em Chuva de Estrelas surgiu a oportunidade de gravar um primeiro álbum.João Pedro Pais, um artista acarinhado por muitos, apresenta no final de 2008 o seu último trabalho discográfico.João Pedro Pais, natural de Lisboa, começa por dizer que já fazia “alta competição” antes de se dedicar à música, até que esta “falou mais alto”. E foi a aposta “certa”, considera, pois, a seu ver, “as coisas têm corrido muito bem”.Com “Ao Passar de um Navio” dos Delfins, o cantor concorreu ao Chuva de Estrelas, transmitido pela SIC, onde ficou em segundo lugar. Participação, que encara como uma “brincadeira”, que avança não ser para levar a sério.“Era um programa que tinha muita audiência na altura e foram muitas as pessoas que me viram participar. Algumas gostaram, outras, não sei”- explica, lembrando que dois anos depois, em 1997, surgiu o primeiro álbum. Foi um “visionamento televisivo”, pois a SIC estava no seu início e, salienta, tinha muita audiência. “Lembro-me que o programa passava às sextas-feiras e as pessoas ficavam todas em casa para assistir e só depois saiam. Eram dois milhões de pessoas a ver o Chuva de Estrelas na altura”. Fazendo um balanço de carreira, afirma ser “muito positivo”, acrescentando ter feito já duetos com quem “não esperava fazer tão depressa”. Refere-se a Mafalda Veiga, Jorge Palma, Fausto, Luís Represas, José Mário Branco, Brian Adams. Isto, além de ter feito as primeiras partes de “Nove Concertos com Brian”.João Pedro Pais avança ter muitos pontos altos na sua carreira e está tudo “cada vez melhor”. Mas o importante, sublinha, é que continua a trabalhar, a ser “fiel” a si próprio. Ler, é também fundamental para “poder compor melhor e escrever letras com mais maturidade e que digam algo às pessoas”.O cantor inspira-se muitas vezes numa “imagem” sobre o que o envolve e que envolve também milhões de pessoas. “São as paisagens, as relações entre as pessoas. Canto a amizade entre as pessoas e a paixão”- enfatiza, acrescentando ser às vezes uma paixão um bocado “conturbada”, pois há sempre uma “procura”. “É um ‘quer mas não quer’, insegurança, coisas que muitas pessoas vivem no seu dia-a-dia”.Outras vezes, reconhece, “basta uma frase” de um livro, uma “fotografia” ou um disco, para dar continuidade.A vinda aos Açores, lembra não ser a primeira, acrescentando que adora visitar a Região, pois é “muito bem recebido”. Caso contrário, sublinha, “não estaríamos cá de certeza”.Referindo-se ao grande êxito “Louco por ti” e à possibilidade deste conter registos autobiográficos, afirma que o tema nasceu de uma vertente “muito imatura”, pois não tinha muitas “histórias de vida” para contar. “Gostei do refrão e escrevi o resto da história”. E continua, explicando que imagina alguém num bar a acender um cigarro, porque na altura tocava em bares. “Quando tocava, reparava que as mulheres tinham a mania de acender um cigarro muito junto ao palco e mandavam-me o fumo todo para cima”- esclarece, dizendo que, por isso, é que começa por dizer “Acende um cigarro, olha para mim”.Mencionando as oportunidades dadas aos novos artistas em Portugal, João Pedro Pais salienta que, actualmente, “as rádios dão muita voz à música portuguesa”. Por outro lado, contrapõe que as canções têm de ser “boas”. As pessoas às vezes não têm noção e deitam qualquer coisa deitam cá para fora, mas “se a música for boa, as rádios tocam-na”.Quanto à dificuldade de internacionalizar a música portuguesa, se prender com uma eventual tendência das rádios passarem na maior parte do tempo música estrangeira, o cantor avança que “as rádios estrangeiras é que devem passar música portuguesa”.As rádios portuguesas, defende estarem a cumprir a “quota exigida” de música portuguesa, afirma, lembrando que muitas vezes, liga o rádio e ouve “muita” música portuguesa. O cantor diz gostar de ouvir Jorge Palma, Fausto, Abrunhosa, Xutos, GNR, os Táxi e, “muitos outros”- acentua, referindo-se a “rádios nacionais conceituadas”.Agora, alerta, há rádios que estão “viradas para um certo estilo de música” e claro, reconhece, que cada rádio “não pode tocar todos os estilos de música”. Estas encontram-se viradas para um target (alvo), que gosta mais da música que essa rádio passa.Na sua opinião, é “difícil” a música portuguesa ir além fronteiras, pois a língua portuguesa é “limitada”. Segundo o cantor, “o que triunfa lá fora é o Fado e a música diferente, que eles não têm”, pois no estrangeiro já há muitos e “não notam a diferença” quando surgem grupos portugueses a cantar em inglês.Quanto ao facto de um artista ter uma certa responsabilidade social e tomar posições, o artista diz concordar. E apesar de ter a sua opinião, este não pretende tomar “posições a nível político”. Mesmo assim, sendo um cidadão do mundo diz saber o que está “mal”, como as pessoas não terem “emprego”.João Pedro Pais aproveita ainda para dizer que sempre houve “dualidade a nível social e económico”, mas o que mais o assusta é a “miséria dos outros, quer miséria humana, quer a nível mental e a nível económico”. Situação que considera ser “inadmissível”, porque o mundo está “cheio de dinheiro”, que não se rasga, não se deita fora, e há crianças a passarem muito mal.“Morrem milhares de crianças por dia à fome e o resto dos países envolvidos não presta assim tanta atenção a esta realidade. Às vezes, fazem mais a Oprah e o Bill Gates, que agora se reformou para se dedicar e que vai ao terreno fazer obra, como a Oprah, do que certos governos que estão preocupados com o seu umbigo”- enfatiza, avançando ser algo preocupante. Mesmo em Portugal, admite, há pessoas a viver “mal” e quem reconhece, “desperdiçam muito” também.Em termos de projectos, revela estar desde Junho a gravar um novo álbum, que deve sair à rua no final do ano. O álbum, produzido pelo “conceituado” Mário Barreiros, é totalmente novo e contém “músicas com mais maturidade”.O cantor aproveita ainda para mandar um “grande abraço” a quem ler esta reportagem, aconselhando a que as pessoas “continuem a ler em português”, sejam jornais ou livros, pois também “somos aquilo que lemos”. E é muito importante, sublinha, “lermos o que os outros escrevem, sem serem as fofocas, as banalidades” do dia-a-dia.Vida e obraNascido em Lisboa a 20 de Setembro de 1973, na pré-primária já se lhe conhecia o jeito para música, uma vez que os seus tios avós maternos eram quase todos músicos de guitarra portuguesa, viola, piano e violino. Também o desporto é uma área a que se dedica, tendo sido várias vezes campeão no estilo Greco-Romano.Esporadicamente, João Pedro Pais tocava em alguns bares onde conheceu grandes músicos africanos, vindo daí o gosto pela viola. Aprendendo de ouvido, este consegue fazer bares sozinho tocando ‘covers’ de Trovante, Fausto e Zeca Afonso, entre outros.Não sendo a alta competição compatível com a vida de músico, João Pedro faz a sua última participação desportiva em 1995 no Rio de Janeiro, onde alcança o 1º lugar.Concorre ao programa Chuva de Estrelas e chega à etapa final, continuando a levar a sua música a bares, até surgir a oportunidade de gravar um primeiro álbum.Em 1997, o cantor lança finalmente o seu primeiro álbum de originais, intitulado Segredos, que se revela um campeão de vendas logo à partida e, onde os temas Ninguém (é de ninguém) e Louco (por ti) se tornam dos mais emblemáticos da sua carreira.Muitos espectáculos são agendados, o que o leva a ascender rapidamente no mundo da música em Portugal. Acarinhado por um público muito vasto, de norte a sul, João Pedro Pais torna-se uma referência ímpar para muitos dos seus fãs.Outra Vez, o segundo disco, chega-nos em 1999, trabalho em que mais uma vez consegue surpreender com a sua sonoridade ligada ao Pop/Rock, não descurando de letras genuínas e sentidas. Novamente nomeado para os Globos de Ouro na categoria de Melhor Interprete, o tema “Mentira” é também eleito para a categoria de Melhor Canção.Dois anos depois, Falar Por Sinais, vem consolidar o trabalho do artista que o país acompanha desde o início. O vídeo do tema “Um Resto de Tudo” é gravado em Barcelona e, mais tarde, “Não Há” é escolhido para banda sonora de uma telenovela portuguesa. As vendas elevam o disco a Platina.Em Fevereiro de 2003 é convidado a fazer a 1ª parte da Tournée Ibérica com Bryan Adams, por Espanha (Barcelona, Alicante e Madrid), Lisboa, Porto e Guimarães. Os espectáculos absolutamente esgotados levam ao rubro milhares de fãs, tornando-se numa das participações mais gloriosas do seu percurso, enquanto compositor e intérprete. No ano seguinte, o cantor actua na primeira edição do Rock In Rio – Lisboa, ao lado de muitos nomes internacionais.João Pedro Pais lança também o seu quarto trabalho de originais Tudo Bem, no qual “Mais Que Uma Vez” e “Tudo Bem” são escolhidos para singles, mas tantos outros são cantados pelas multidões que assistem aos seus espectáculos.Dois anos depois, já em 2006 dá vida ao projecto “Lado a Lado”, com Mafalda Veiga. O espectáculo, com casa cheia, realizado no Centro Cultural Olga Cadaval, torna-se numa noite memorável que leva à gravação do disco, ao vivo, logo em Janeiro de 2007. Nos meses seguintes o dueto faz vários espectáculos pelo país fora, sendo o Funchal a cidade escolhida para a estreia.Ainda em 2007, o site oficial (http://www.joaopedropais.com/ é totalmente remodelado, com inserção de vários conteúdos e construção de um Fórum para troca de ideias entre os fãs do artista, cuja adesão teve sucesso imediato. Neste momento, o artista encontra-se em gravação do seu novo disco de originais, cujo lançamento está previsto para o final de 2008. Do seu repertório, constam Segredos (1997); Outra Vez (1999); Falar por Sinais (2001); Tudo Bem (2004) e três anos depois Lado a Lado, com Mafalda Veiga.
Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Julho de 2088.

Outra faceta do Chá Verde


Fábrica de chá da Gorreana

O 125º aniversário da Fábrica de Chá da Gorreana ficará marcado também pelo início da produção de saborosos gelados para todos os gostos. Além da geladaria a abrir brevemente, o turista terá acesso ainda a uma casa de chá, que se prevê abrir em Outubro, e na qual poderá degustar também alguns doces e bolos caseiros. Um livro sobre a história do chá na ilha é outro projecto a realizar num futuro próximo.

A Fábrica de Chá da Gorreana comemora este ano 125 Anos de existência. Ao chá verde, o que regista mais vendas, ao Orange Pekoe e ao Broken Leaves juntaram-se recentemente gelados caseiros de diversos sabores, que poderá saborear numa visita à propriedade.
Hermano Motta, proprietário e gerente da fábrica, pretende editar um livro que fale da história do chá dos Açores com intenção de comemorar os 125 Anos de chá. Não só da Gorreana, mas das 16 fábricas que já existiram. O objectivo é fazer “perdurar no tempo” um documento, onde as pessoas possam ler sobre o chá e a sua evolução histórica na ilha. “O percurso da Gorreana é importante para nós, mas o percurso do chá em São Miguel é interessante para todos”.
O empresário explica que, na segunda metade do século XIX, a produção de chá veio substituir a produção de laranja, iniciando-se, assim, a fabrica com Ermelinda Pacheco Gago da Câmara e seu filho, passando de geração em geração até chegar à família de Hermano Motta.
Segundo o mesmo, o chá começou como uma actividade insípida. As pessoas da altura chegavam mesmo a olhar para os produtores do chá, considerando-os “insípidos que ganharam muito dinheiro com as laranjas e agora estão alegremente a gastar dinheiro a iniciar o chá”. Mas, entretanto, o chá começou a entrar no hábito.
O chá produzido na Gorreana é conhecido internacionalmente como tradicional ou ortodoxo. As folhas são enroladas da mesma forma que eram enroladas antigamente, com as mãos, sendo o instrumento utilizado “substituído” pelas máquinas. O aspecto final é exactamente igual, independentemente do método de fabricação, apenas com a pequena alteração de se deixar de fermentar o chá e passar a ser apenas “oxidado”. As máquinas antigas mantêm-se e o processo intrínseco continua o mesmo.
Segundo Hermano Motta, o campeão de vendas entre os chás pretos foi, “sem dúvida”, o Broken Leaves que chegou a atingir as “duas toneladas por mês”, embora a determinada altura este tenha sofrido uma “descida substancial”, perdendo vendas para o chá preto Orange Pekoe que subiu “exponencialmente” na tabela de vendas. Entre o chá verde e preto, o chá verde encontra-se no topo de vendas e em cinco anos passou de “900kl para 7 toneladas no ano passado”. Não é ao acaso que o chá verde se vende mais, os chineses bebem chá verde com vinte e seis finalidades. Isto, pois este possui antioxidantes que evitam a oxidação das células e desta forma evita o envelhecimento do organismo. “O chá é um diurético, ajuda a digestão, protege o organismo dos radicais livres, protege a boca e a pele”- acentua.
O chá teve os seus momentos positivos e negativos. O princípio da queda do chá deu-se na Segunda Guerra Mundial, altura em que as prioridades eram outras e então a exportação de chá quebrou. Com esta quebra desapareceram grandes plantações de chá em muitas zonas da ilha, nomeadamente na Ribeirinha, Santa Barbara, Ribeira Seca, entre outras. Muitos produtores de chá também desapareceram, porque foram atrás do mercado efémero do Norte de África. Como a Gorreana manteve o seu mercado do Continente e Açores conseguiu subsistir até aos dias de hoje.
A fábrica tinha alguns factores a seu favor, como a mini hídrica que entra em funcionamento em 1926 e que “permite a produção de energia por nada” e liberta a fábrica dos custos da máquina a vapor. A sua posição estratégica na ilha ajudou à expansão do mercado do chá da Gorreana.
A fábrica é tradicionalmente visitada por turistas, para quem esta é, normalmente, paragem obrigatória no caminho para as Furnas e Nordeste. “Junta-se o útil ao agradável, a pessoa precisa de ir à casa de banho e já agora vê e bebe chá. Daí que a Gorreana é um entreposto oportuno” – esclarece.
Com a passagem dos turistas, o mercado foi alargado ao estrangeiro e todas as quartas feiras são enviadas “várias encomendas para todo o mundo que perfazem um volume de 5 a 6 toneladas por ano”. Os mercados principais são, por ordem decrescente, os Açores, o continente, os vários países do mundo e ainda uma Casa de Chá francesa de prestígio.
A evolução do chá tem sido “positiva”. Para o proprietário da fábrica, “graças à Confraria do chá na Casa dos Açores no Porto – Confraria Atlântica do Chá, o comércio do chá na Europa tornou-se interessante e o consumo de chá na Alemanha subiu 40%, na França à volta dos 30%” salienta, avançando ter ainda uma Casa que vende o chá Gorreana em França e que está a expandir-se “consideravelmente”.
A tradicional Fábrica de Chá da Gorreana vai-se adaptando a novas realidades. As provas são a actual construção de uma Casa de Chá e a produção de gelados, que já é uma realidade. O “Gelado da Quinta” foi uma ideia que partiu de uma firma holandesa, que há 2 anos descobriu que Ataíde Motta, um dos filhos de Hermano Motta, era um dos produtores de leite de qualidade na ilha. Então, “sendo o leite de qualidade e havendo condições e espaço para a produção dos gelados, só faltava produzi-los”- conclui.


Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Junho de 2008.

Salvar vidas em dois dias!


Vulcanologia


Mexer um Capuccino tem muito que se lhe diga. O segredo está no processo de fusão, essencial nestas matérias. “Modulação das heterogeneidades geoquímicas e sistemas ígneos por campos de fluxo caótico: Implicações petrológicas e vulcanológicas” foi o nome dado à palestra de Diego Perugini, investigador do Departamento de Geociências da Universidade de Perúgia, Itália; que pretende através das suas teorias prevenir, avisar e evacuar as pessoas de modo rápido e eficaz, em caso de catástrofe vulcanológica. Isto, num prazo de dois dias.


Participar em projectos de investigação na área da geoquímica de rochas da ilha do Pico é um dos projectos de Diego Perugini, autor que veio a ponta Delgada dar uma palestra promovida pelo Centro de Vulcanologia e Aplicação de Riscos Geológicos da Universidade dos Açores. Após misturar e testar os magmas, o autor defende haver um prazo, de dois dias, até uma eventual erupção vulcânica, tempo suficiente para evacuar as populações devidamente.
Dar prazos nesta matéria é “ambicioso e provocativo”, reconhece, mas utilizando outros métodos “a realidade não é, assim, tão diferente”.
Diego Perugini, licenciado em Geociências, graduado em Geologia e investigador do Departamento de Geociências da Universidade de Perúgia, Itália, explica trabalhar com uma “aplicação da teoria do caos nos sistemas matemáticos”, de modo a entender as “escalas de tempo” das erupções vulcânicas.
Segundo o autor, fazendo um cálculo de tempo para uma erupção com a “junção de dois magmas”, por exemplo, o prazo é de “dois dias”.
“Os magmas são diferentes, e importa saber qual a evolução que a mistura de ambos nos traz”- esclarece, avançando que no simples “mexer de um cappucino” está presente o processo de “fusão”, que considera essencial nesta área.
A teria do “reducionismo” é outro ponto focado por Diego Perugini. “Para se conhecer as várias partes do corpo humano, é necessário estudá-lo no seu todo”- enfatiza, acrescentando que conhecendo as “condições iniciais” da matéria, há que saber qual a sua “evolução, para sempre”, o que por vezes, sublinha, não é possível.
Estes argumentos vão de encontro ao “holismo”, teoria segundo a qual o sistema “não pode ser dividido”, pois o seu “comportamento depende da complexidade” de cada parte, para que se tenha uma ideia “global”.
O investigador aproveita também para mencionar Paincaré, matemático, físico e filósofo, que argumenta que cada partícula pode produzir “diferentes e várias” consequências, no início de um sistema “dinâmico”. Também o meteorologista e matemático Lorenz defende que duas partículas se “espalham” por caminhos diferentes, dentro da mesma estrutura. Estas, “esticam e encolhem”, o que constitui o princípio básico do “caos”.
“A mistura de magmas é um processo caótico”- acentua, explicando que a mistura caótica é o esticar/encolher dos fluidos, que começam por estar “correlacionados”, o que, no final, já não acontece. Existe uma dependência “sensível” nas condições iniciais, mas são vários os ‘outcomes’.
Após a palestra, Diego Perugini avançou ao Terra Nostra que nos últimos anos tem trabalhado nesta área, mas, no início, fê-lo apenas por motivos “geológicos e petrológicos” (natureza das rochas). Depois apercebeu-se de que poderia haver “implicações vulcanológicas” nesta abordagem e, por isso, tentou “promover” estas ideias, que se destinam às pessoas que têm um “maior contacto” com a vulcanologia e que podem retirar maiores “vantagens” destes métodos.
Sobre o projecto da ilha do Pico, o investigador explica que gostaria de o desenvolver, pois aquela montanha, “aquele vulcão é muito interessante, devido às últimas erupções e também à viabilidade genealógica e vulcânica destes projectos”, nos quais pode realmente fazer a “mistura” de magmas. “E, se for este o caso, podemos aplicar este método para reconstruir as escalas de tempo das erupções dessa ilha”- enfatiza.
Prevenir a erupção pode ser, a seu ver, o “resultado” de uma série de estudos, que devem ser levados a cabo como muita “cautela, começando pela experimentação, simulações matemáticas e estudos da teoria do caos” e os Açores têm um óptimo “laboratório natural”.
Por sua vez, a teoria do caos pode ser útil para colocar “grandes restrições” na possibilidade da erupção ocorrer em questão de dias, meses ou anos.
Quanto à vinda aos Açores, o investigador explica ter sido convidado para dar esta palestra, o que fez com “enorme prazer”, pois apenas “pretendia dirigir-me a estas pessoas maravilhosas”. Referindo-se à frequência com que o magma deve ser testado, Diego explica que “depende do sistema”, avançando ser “difícil” responder, pois ainda não começaram a trabalhar com estas rochas. Mas, sublinha, se conseguir “dinheiro para obter algumas amostras para análise”, poderá começar.
Diego Perugini aproveita também para dizer não ter recebido ainda qualquer “convite, para aplicar estas teorias na Região”, acrescentando que gostaria “muito” de colaborar, pois seria “fundamental uma troca de ideias”. Lembra também que “não podemos impedir uma erupção”, apenas “compreender” a escala de tempo da catástrofe e “evacuar” as populações. “Sabendo, que em que altura a catástrofe irá ocorrer, podemos desenvolver estratégias especiais de evacuação e colocar as pessoas num lugar seguro”- ressalva.
O autor da palestra avança que a vulcanologia é uma ciência “linda”, mas devem ser utilizados também “métodos petrológicos de análise das rochas e da sua química e a teoria do caos”, para “juntar” todos os elementos num só quadro. A vantagem principal deste método reside na possibilidade de podermos, “realmente, analisar as rochas em profundidade, conhecer o seu processo genético e as razões que levaram à formação deste magma e à sua vinda à superfície da terra”.
“Entre uma erupção e outra, salienta, podem decorrer semanas, meses ou anos. Não há prazos e é muito difícil prevê-la sem um estudo completo de todas estas vertentes. O objectivo é ir à génese das erupções”, mas, admite, “não sou Deus”.
O evento foi promovido pelo Centro de Vulcanologia e Avaliação de Riscos Geológicos da Universidade dos Açores (CVARG), tendo o autor apresentando uma tese sobre petrologia vulcânica.

Biografia de Diego Perugini

Nascido em 1971 em Foligno, na Itália, Diego Perugini é actualmente investigador do After high school he moved to the University of Perugia where he studied Geological Sciences between 1991 and 1997 graduating in Geology with a diploma Thesis in Igneous Petrology entitled ‘Rheology of Coeval Acid and Mafic Magmas and Nature of Interaction Processes: Mineralogy and Petrology of Mafic Microgranular Enclaves in the Sithonia Plutonic Complex (Greece)’. Departamento de Geociências da Universidade de Perugia, Itália.
Depois do ensino médio, mudou-se para a Universidade de Perugia, onde estudou Geological Sciences entre 1991 e 1997, graduando-se em Geologia com um diploma na Tese Petrológica intitulada "Rheology de Coeval Acid e Mafic Magmas Natureza e Processos de Interação: mineralogia e Petrologia de Mafic Microgranular Enclaves no Sithonia Plutonic Complex (Grécia) ". Successively, he carried out his PhD studies at the University of Perugia, carrying out a research on non-linear dynamics in igneous processes.
Tendo realizado o seu doutoramento, na Universidade de Perugia, e realizado uma investigação sobre a não-linear dinâmica no igneous processo, em Dezembro de 2001 Diego atingiu o seu grau PhD, discutindo uma tese intitulada "Caos, Fractal e Não-Linear Dynamics, em Magma Interação Processos". This work received an award from the Società Italiana di Mineralogia e Petrologia (SIMP) as the best PhD Thesis in Petrology for the year 2001. Trabalho, que recebeu um prémio da Società Italiana di Mineralogia e Petrologia (SIMP), por ser considerado a melhor Tese de doutorado em Petrologia no ano de 2001.
He has been working as Post-Doc Fellow at the Department of Earth Sciences, University of Perugia, from 2002 to 2005. De 2002 a 2005, trabalhou como Post-Doc Fellow no Departamento de Geociências da Universidade de Perugia. A sua investigação pós-doutoramento foi essencialmente centrada na modelação de sistemas magmatic petrologic e desenvolvimento de novas ferramentas, baseadas na teoria do caos e Fractal Geometry. In 2002 the Società Italiana di Mineralogia e Petrologia (SIMP) awarded Diego Perugini the ‘Angelo Bianchi’ Research Award for Young Scientists for the year 2003. Em 2002, a Società Italiana di Mineralogia e Petrologia (SIMP) atribuiu a Diego Perugini 'Angelo Bianchi o "Prémio de Investigação para Jovens Cientistas, para o ano de 2003.
Diego Perugini has published more than 50 papers in both National and International Journals covering a large field of interests, from modelling of chemical diffusion in compositionally heterogeneous magmatic systems to fluido-dynamics of magmatic systems, from classical igneous petrology and geochemistry work to geodynamic implications of magmatic activities in several areas around the Mediterranean. Diego Perugini publicou mais de 50 artigos em revistas internacionais e nacionais tanto cobrindo um amplo campo de interesses, a partir de modelagem de química na difusão compositionally magmatic sistemas heterogêneos de fluido-magmatic dinâmica de sistemas, a partir de clássicos igneous Petrologia e geoquímica implicações do trabalho para geodynamic magmatic atividades em diversas áreas ao redor do Mediterrâneo.
Diego Perugini has been acting as Guest Editor for two special issues of Elsevier journal ‘Lithos’, entitled ‘Non-linear and Chaotic Dynamics in Igneous Petrology’ and ‘Interaction Between Mafic and Felsic Melts in Orogenic Suites’. Foi ainda editor e convidado especial em duas questões da Elsevier jornal "Lithos", intituladas "não-linear e caótica em Dinâmica igneous petrology" e "interacção entre Mafic e Felsic derrete em orogenic Suites". He has been also Guest Editor of a special issue of the Italian journal ‘Periodico di Mineralogia’ devoted to ‘Miocene to Recent Plutonism and Volcanism in the Tuscan Magmatic Province (Central (Central Italy)’. Diego foi ainda editor de cliente, numa edição especial do jornal italiano 'Periodico di Mineralogia' dedicado a "Mioceno a recente Plutonism Vulcanismo e na Província toscana magmatic (Central (Itália)".

Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Julho de 2008.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Os açorianos são "genuínos"


Mafalda Veiga

Começou a compor aos 13 anos, pois desde pequena é amiga da guitarra. Nascida em Lisboa, para onde regressou, após ter passado a sua infância em Espanha, Mafalda Veiga começou a investir no seu primeiro disco quando estava para entrar para a universidade. Quanto aos Açores, afirma ser um lugar “genuíno, de uma natureza forte e diversa e, de pessoas igualmente tão genuínas” que a têm recebido sempre “tão bem”.


“Pássaros do Sul” foi o seu álbum de estreia em 1987 e desde essa altura foi um não parar. Com "Menino de Sua Mãe", "Restolho", "Balada de Un Soldado" e o seu primeiro single"Planície", o álbum chegou rapidamente a disco de prata e tornou-se um grande sucesso. Actualmente, Mafalda Veiga trabalha já num novo álbum.
T.N.) O que nos pode contar sobre si?
M.V.- Nasci em Lisboa, apesar de grande parte da minha família ser de Montemor e residir lá. Depois de ter passado lá a minha infância e a adolescência em Espanha, voltei para Lisboa, para a Faculdade de Letras, e é em Lisboa que moro desde essa altura. Foi mais ou menos quando entrei para a Faculdade que comecei a trabalhar nas maquetes do meu primeiro disco.
T.N.) Como e quando se iniciou no mundo da música?
M.V.- Comecei a compor cedo, com 13 anos mais ou menos, e tive sempre com a guitarra essa relação mais criativa do que estudiosa, de a usar como chão’ de histórias que me apetecia contar. Houve uma altura, em que comecei a compor com mais regularidade e comecei a ter como objectivo gravar as minhas canções.Com a ajuda de António Vacas de Carvalho, um amigo da minha família, e do baixista António Ferro, gravei com excelentes músicos as maquetes que, depois, mostrei a várias editoras. Acabei por assinar com a EMI, que convidou o Manuel Faria para produzir o disco. Ele era membro dos Trovante, e foi assim que começou… A música, para mim, é uma energia fortíssima, um trabalho e um prazer enorme. É um sentido, um caminho que escolhi fazer na vida.
T.N.) Qual o disco e o concerto, que lhe deram mais prazer até hoje e porquê?
M.V.- Pela composição, pelo prazer que me deu escrever as canções, foi o “Tatuagem”. Pela experiência de estúdio e todo o trabalho que envolveu, foram “A cor da fogueira” e o “Chão”. Dos concertos é difícil, porque muitos se tornaram especiais, mas talvez destaque os Coliseus de Lisboa e do Porto, em 2003 e 2004, porque foram produções em que houve um grande investimento artístico e emocional que o público recompensou de uma forma inesquecível…
T.N.) Qual a base de inspiração, ao escrever as suas canções?
M.V.- Sem dúvida o quotidiano, as pessoas e as suas histórias de encontros e desencontros, de sonhos, esperanças, tristezas, alegrias, tudo o que é viver.
T.N.- ) Em termos de duos, com quem gostou mais de trabalhar até hoje? Porquê?
M.V.- Gostei de trabalhar com todas as pessoas com quem trabalhei, foi um prazer enorme ter partilhado canções, momentos, lugares com colegas que admiro muito, desde o Luís Represas, ao Jorge Palma, ao João Pedro Pais ( com quem a experiência de trabalho foi mais aprofundada ainda). Aprendi imenso com todos eles.
T.N.- ) Outros cantores nacionais e internacionais, que admire?
M.V.- Gosto da Aimee Mann, do Sufjian Stevens, da Ella Fitzgerald…
T.N. ) O que mais e menos gosta nas pessoas?
Gosto da sensibilidade aliada à inteligência. Não gosto da prepotência, do preconceito que é o culto da ignorância e da insensibilidade.
T.N.) Até hoje, qual o trabalho que demorou mais tempo a preparar?
M.V.- Não sei, tento dedicar a cada projecto o tempo que é necessário, com concentração e paixão. Já me disseram que fico demasiadamente focada quando estou envolvida num projecto, mas para mim só vale a pena assim e adoro o meu trabalho.
T.N. ) É apreciadora de teatro? Quais os seus actores e actrizes de referência em Portugal?
M.V.- Gosto muito de teatro e gosto de muitos actores. Tenho um carinho especial pelo Ruy de Carvalho e pelo Pedro Granger, gosto também muito da Rita Salema, e em geral acho que todos os cantores têm muito a aprender com os bons actores na maneira de dizer e expressar com a voz as emoções.
T.N. ) Já visitou os Açores. O que pensa sobre a Região?
M.V.- Por sorte já visitei os Açores muitas vezes, já toquei muitas vezes em várias ilhas, e foram sempre experiências diferentes e fantásticas. É muito bom o privilégio de ir ao encontro de lugares tão genuínos, de uma natureza tão forte e diversa, e de pessoas igualmente tão genuínas que me têm recebido sempre tão bem.
T.N.- Projectos de novos trabalhos?
M.V.- Para já, o projecto é apresentar ao vivo este novo disco com toda a equipa que trabalha comigo e que comigo construiu este espectáculo.
Biografia
Nascida em Lisboa a 24 de Dezembro de 1965, Ana Mafalda da Veiga Marques dos Santos viveu em Badajoz de 1974 a 1984, cidade onde com onze anos começou a tocar viola. O mestre da altura foi Pedro da Veiga, guitarrista de Nuno da Câmara Pereira.
Começou por fazer as suas primeiras composições em espanhol e inglês e em 1983 tinha já a primeira canção em português: "Velho". Canção que lhe valeu a vitoria no Festival da Canção de Silves, no qual se apresentou ainda como Mafalda Santos. O seu álbum de estreia, "Pássaros do Sul", produzido por Manuel Faria e editado em 1987, incluiu temas como "Menino de Sua Mãe", "Restolho", "Balada de Un Soldado" e "Planície" (o primeiro single, com "Me Escape Com Mi Guitarra" no lado B) e chega rapidamente a disco de prata, tornando-se um grande sucesso. Em 1988, Mafalda Veiga ganha o prémio "Revelação" do jornal Se7e e o troféu "Nova Gente" para melhor cantora e é nomeada também para os prémios "Zeca Afonso".
Em Novembro de 1988 é editado o álbum "Cantar", onde “Nazaré” e “Cidade”são os temas mais divulgados. O acordeonista Gabriel Gomes (Sétima Legião, Madredeus) participa em "Llovizna", o único tema deste disco que é cantado em espanhol.
Em 1991, Mafalda Veiga é a convidada especial dos últimos espectáculos dos Trovante, em Sagres e nos Coliseus de Lisboa e Porto. O álbum "Nada Se Repete" é editado em 1992, disco que conta com a participação de Luís Represas no tema "Fragilidade" e na autoria da letra de "Prisão". Álbum, que a leva a ganhar o Se7e de ouro para melhor disco.
Mafalda Veiga muda de editora, passando da EMI para a Strauss, e em 1996 edita o disco "A Cor da Fogueira" com produção de José Sarmento. Durante a Expo-98, esta é uma das cantoras envolvidas no projecto "Afinidades", para o qual convidou o músico cubano Raúl Torres.
O quarto álbum intitulado "Tatuagem", o preferido da cantora, é editado em 1999 pela Popular com produção de Manuel Paulo Felgueiras. Um dos temas em maior destaque é mesmo "Tatuagens", que conta com a participação de Jorge Palma.
Em Dezembro de 2000 é editado o disco-duplo "Ao Vivo" gravado nos concertos do CCB e do Rivoli. No ano seguinte, a cantora participa no espectáculo "Come Together" de homenagem aos Beatles, a laod de nomes como Rui Veloso, Silence 4, Xutos & Pontapés, Clã e Blind Zero. No início de 2003 é lançado o disco "Na Alma e Na Pele" com produção de Rui Costa. Em Novembro de 2003 actua no ciclo de espectáculos "A Cantora, o compositor, o estilista e o convidado dela" onde interpreta temas de Jorge Palma. Em Maio de 2007 é editado o disco "Lado a Lado" gravado com João Pedro Pais.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Julho de 2008.

A vertente "transatlantica" dos Açores



I Fórum Açoriano Franklin D. Roosevelt

“As relações transatlânticas na opinião pública europeia e americana” foram o tema do I Fórum Açoriano Franklin Roosevelt, realizado em Ponta Delgada. O evento, que veio demonstrar a grande importância política e simbólica dos Açores nestas questões, focou a parceria Euro-Americana no confronto com os principais desafios globais da pobreza, alterações climáticas e segurança internacional, revelando-se o diálogo construtivo e franco entre decisores políticos e académicos um instrumento útil nas relações internacionais.


Ponta Delgada foi palco do I Fórum Franklin D. Roseevelt. A iniciativa, organizada pelo Governo Regional dos Açores e pela Fundação Luso-Americana, teve como objectivo discutir sobre temas prementes da relação transatlântica. Pela sua posição geográfica, os Açores assumem grande importância política e simbólica nessa relação. Por estes motivos o Fórum, que se prevê seja realizado de dois em dois anos, reunirá políticos e académicos de ambos os lados do atlântico à volta de um tema comum.
O fórum pretendeu servir como “porto de abrigo” a meio do atlântico para a discussão aprofundada sobre a parceria Euro-Americana no confronto com os principais desafios globais da pobreza, alterações climáticas e segurança internacional, revelando-se o diálogo construtivo e franco entre decisores políticos e académicos um instrumento útil nas relações internacionais.
O Fórum assinalou, assim, o 90.º aniversário da estadia de Roosevelt nos Açores, no âmbito da sua deslocação à Europa enquanto secretário de Estado da Marinha, em Julho de 1918.O nome do fórum serviu de homenagem ao relevante papel assumido pelo Presidente Roosevelt na política internacional do séc. XX, assim como a atenção que prestou às fascinantes questões geopolíticas suscitadas pela posição geográfica das ilhas açorianas.
Diversos inquéritos de opinião pública têm estudado este tema e, em certos campos, o fosso entre a Europa e os EUA tem aumentado nos últimos anos. Em ambos os lados do atlântico a maioria das populações acredita que a cooperação entre os EUA e a Europa é crucial no combate às ameaças globais e que esses grandes desafios não podem ser confrontados de forma isolada. Mas constata-se, também, que existe ainda um elevado nível de desconfiança mútua, algo que poderá ser mitigado pelo esforço diplomático. O evento pretendeu discutir também a próxima eleição norte-americana, nomeadamente nos seus potenciais efeitos na opinião pública. Para além do debate, o fórum procurou apresentar recomendações específicas sobre as matérias abordadas.
À margem do evento, o Terra Nostra falou com Luís Nuno Rodrigues, autor do livro “Roosevelt, a Europa e os Açores nas duas Guerras Mundiais”; João Pacheco, presidente da Casa dos Açores na Califórnia e com José Medeiros Ferreira, professor e antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros.
João Pacheco, presidente da Casa dos Açores na Califórnia, afirma que a cultura portuguesa nos Estados Unidos, está “abandonada pelo governo” português. “Desde há dois anos que não temos coordenadora de ensino. Como conselheiro das comunidades portuguesas já apresentei várias moções no Parlamento português e estamos totalmente ignorados”- acentua, avançando que em África e na Europa se passa o “contrário”, pois os professores “são colocados pelo Ministério de Educação”. Por outro lado, na América do Norte, “não temos professores nem material didáctico”.
Revela ainda ter sabido recentemente que o governo aprovou uma nova “estratégia para a promoção e divulgação da língua portuguesa”, acrescentando estar com grande “ansiedade” para saber mais pormenores. Quanto aos motivos de isto acontecer, diz não saber quais são, avançando que quando vai ao parlamento, respondem-lhe “não haver verbas”, mas “se há verbas para a Europa e para a África do Sul, porque não há para a América do Norte?- questiona-se, explicando que Portugal pensa que são um país “rico, mas, “infelizmente, a nossa comunidade também vive com dificuldades”.
Quanto ao ensino da língua portuguesa, o presidente explica estarem reduzidos ao ensino português “integrado nos liceus americanos”, o que “nem sempre” acontece. Salienta, também que com a ajuda de associações e das paróquias é lhes possível terem acesso às escolas comunitárias, que já são “mais de sessenta e que abrangem uns milhares de alunos” dos Estados Unidos. As escolas, por sua vez, são “financiadas pelos pais” e, muitas das vezes, reconhece, este apoio financeiro “não dá para pagar a directora pedagógica e os professores” e, às vezes, as instituições têm de absorver o resto da despesa. A Casa dos Açores, sublinha, tem sido apoiada pela Direcção Regional das Comunidades, ajuda que, apesar de admitir que “às vezes, não é muita”, constitui um bom apoio.
Os alunos, revela, aprendem Geografia e História de Portugal, “disciplina em que se fala muito do 25 de Abril”- enfatiza, lembrando que este ano fizeram uma “festa”, para comemorar o 35 aniversário do 25 de Abril, que contou com a presença de Carlos Matos Gomes, capitão de Abril. “Fazemos também as vindimas e lançamos muitos livros”.
João Pacheco explica terem uma escola portuguesa da Casa dos Açores, com “mais de 30 crianças dos cinco aos 12 anos, em que os pais só pagam 25 dólares por mês”. Questionado sobre o que leva as pessoas a não se naturalizarem, não tendo, assim, o direito de voto, o presidente explica que “grande parte” dos emigrantes portugueses deixaram o país, numa altura em que este estava em época de “ditadura” e, há 40 e tal anos, lembra, as pessoas “não votavam” em Portugal. Quando chegaram aos Estados Unidos acomodaram-se em trabalhos mal pagos, como fábricas e campos e “nunca” votaram. Mas ultimamente, já temos lá uma grande campanha para as pessoas se neutralizarem. Mas a Casa dos Açores, sublinha, já apoiou “mais de mil pessoas” a obter a cidadania americana, já podendo votar nos Estados Unidos.
João Pacheco aproveita também para lembrar um assunto que já discutiu com o governo americano e que gerou “grande controvérsia”. Refere-se ao facto do governo americano estar “sempre a incentivar os grupos étnicos a naturalizarem-se”, mas não ajuda as comunidades luso-americanas nesta questão. “Em Julho de 2007, o custo de naturalização aumentou 70%, estando agora nos 675 dólares e antes eram 400 dólares”, o que considera dificultar a situação, pois “só um casal já necessita de 1300 dólares” e com a crise económica que há a nível mundial, as pessoas não tem “meios financeiros” de se naturalizarem.
Quanto ao que leva a que se fale pouco na participação de Roosevelt nos Açores na 2ª Guerra Mundial, explica ser por “falta de informação e de estudos”. Por estes motivos o Fórum foi, a seu ver, uma iniciativa de “grande calibre” sobre fala de um homem de “grande valor, um grande diplomata a nível mundial”, que passou por uma grande crise durante a depressão e a guerra mundial.
Sobre as eleições nos Estados Unidos, avança que “quando a Hilary Clinton estava em campanha tinha o apoio da maioria dos emigrantes portugueses”. Como esta desistiu e não estando satisfeitos com o partido republicano, que, denuncia, “durante oito anos não nos tem apoiado em absolutamente nada”(muito pelo contrário)”, decidiram “mudar de partido”, sendo a “única” opção votar em Obama do partido democrático.
A Casa dos Açores, esclarece, uma das 11 a nível mundial, é a interlocutora do governo regional e tem como objectivo “prestar apoio à comunidade, nomeadamente em questões de cidadania e Segurança Social, promovendo também a cultura, o folclore, as festas dos Espírito Santo e as Matanças de Porco dos Açores”.
Referindo-se a projectos da Casa dos Açores, o presidente da entidade revela que em breve irão abrir uma “Escola de Informática, destinada a pessoas aposentadas”, que demonstrem interesse em aprender a navegar na Internet. Têm também um grupo de “música tradicional açoriana”, o grupo Raízes, cujos elementos são quase todos nascidos nos Estados Unidos. Outro facto curioso, é que os netos e filhos dos emigrantes mostram o “desejo de se naturalizarem portugueses”, o que, explica, “talvez seja para terem um passaporte europeu”, que depois lhes possibilita viajar com mais facilidade na Europa.
José Medeiros Ferreira começa por dizer que a imagem de Portugal, no estrangeiro e na União Europeia, é a de um país que cumpre os seus “deveres internacionais e as suas obrigações”. Salienta também o “esforço” empreendido para ter um papel “credível na zona Euro, como estado responsável”. Aspecto que, a seu ver, é fundamental, ainda mais por alturas de uma crise financeira, que considera derivar da “falta de cuidado de muitas entidades privadas financeiras”- enfatiza, acrescentando ser “bom” que os estados dêem o exemplo de “racionalização” financeira. E Portugal tem dado este exemplo e é considerado por isso, sublinha, tal como pela sua última presidência na União Europeia, é um país “credível” internacionalmente.
Neste momento, Portugal tem crédito internacional, que, alerta, “nem sempre utiliza bem”. Segundo Medeiros Ferreira, instalou-se uma “certa rotina na política externa portuguesa”. Lembra ainda ter tido a sorte de ser Ministro dos Negócios Estrangeiros no momento “fundador” da política externa portuguesa, durante o primeiro governo constitucional. Actualmente, reconhece estarmos numa situação internacional “difícil”, mas, por outro lado, explica que o país está integrado num quadro europeu e atlântico de “estabilidade”, apesar de existirem problemas. Mas, a partir da entrada de Portugal na zona Euro, “não têm havido grandes modificações na política externa portuguesa”.
Para Medeiros Ferreira, este Fórum é muito importante, pois “recoloca os Açores no mapa da discussão estratégica internacional transatlântica e pode abrir um novo espaço para o encontro de personalidades relevantes num futuro próximo”. Fazendo um balanço do encontro, avança ter sido “muito positivo”. O ex-ministro aproveita ainda para dizer que o povo açoriano deve estar “atento” a estas questões que, ressalva, dizem respeito ao seu próprio destino.
João de Vâllera, Embaixador de Portugal em Washington, que falou sobre “As Relações Transatlânticas: um olhar português a partir de Washington”, negou-se a prestar quaisquer declarações.
Roosevelt em livro
O I Fórum Açoriano Franklin D. Roosevelt serviu ainda de mote para o lançamento da obra “Franklin Roosevelt e os Açores nas duas guerras mundiais”. Um livro coordenado por Luís Nuno Rodrigues, que conta com textos de autores estrangeiros e portugueses.
“Franklin Roosevelt e os Açores nas duas guerras mundiais” foi o título dado ao livro, lançado em Ponta Delgada. Cerimónia que contou com a presença de Rui Vallêra, sub-director da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). Segundo Rui Vallêra, estamos perante uma obra que oferece “novas perspectivas sobre a história açoriana do séc. XX e novas interpretações sobre a evolução das relações luso-americanas”.
A passagem de Roosevelt pelos Açores e a relação pessoal que estabeleceu com as Ilhas; a importância do arquipélago nas duas Guerras Mundiais e a problemática da autonomia açoriana foram os temas abordados numa obra bilingue, coordenada por Luís Nuno Rodrigues e que reúne um conjunto de textos de 10 autores nacionais e estrangeiros, entre eles Carlos Enes; José Medeiros Ferreira; Álvaro Monjardino; Luís Andrade; António José Telo e, logicamente, do próprio autor.
Luís Nuno Rodrigues é professor auxiliar agregado no Departamento de História do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE); coordenador do Mestrado em História, Defesa e Relações Internacionais em colaboração com a Academia Militar; investigador do Centro de Estudos de Historia Contemporânea Portuguesa do mesmo instituto e do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade de Lisboa e autor de várias obras sobre história e as relações transatlânticas.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Julho de 2008.

Apostar no turista "português"


Encontro Internacional de Turismo


Os Açores são uma Região com “enormes” potencialidades em termos turísticos. O que existe é uma “falta de enfoque”, pois a sociedade portuguesa toda a vida deu “mais valor ao estrangeiro, do que ao português, mas há cinco milhões de portugueses” no estrangeiro, o melhor cliente que a Região pode ter. É preciso “mudar as mentalidades”.
Segundo Carlos Morais, presidente da Comissão do Encontro Internacional de Turismo, a realizar em Ponta Delgada, é essencial “dar a conhecer os Açores a agentes turísticos e medidores de opinião”, que depois os divulguem nos seus países.

Os Açores foram o destino escolhido para a edição deste ano do Encontro Internacional de Turismo, a realizar entre 28 de Setembro e 1 de Outubro. A iniciativa conta já com 14 anos de vida e tem como objectivo dar a conhecer destinos diferentes a agentes de viagens, medidores de opinião e alguns clientes, que visitam o local tentando conhecê-lo ao máximo para, posteriormente, o divulgarem nos países onde residem. O turista geracional é o que mais convém à Região.
Carlos Morais, presidente da Comissão do Encontro Internacional de Turismo (EIT), começa por dizer que esta iniciativa, criada em 1995, comemora em breve 14 anos de existência e todos os anos “elege uma Região de Portugal à qual leva cerca de 100 a 150 participantes de todo o mundo, agentes de viagens, clientes e medidores de opinião, que a vêm conhecer para poderem divulgá-la no estrangeiro, junto dos seus países”.
No passado, visitaram a Madeira, o Algarve, Lisboa, Costa do Estoril e Cascais, Setúbal, Coimbra, Porto e Douro e; Serra da Estrela. Este ano conforme durante muitos anos, revela, foi “desejo dos agentes de viagens”, virão conhecer os Açores, arquipélago que considera ser “uma pérola no meio do Atlântico e que é preciso dar a conhecer aos agentes de viagens de língua portuguesa” residentes no estrangeiro.
O paradigma, critica, é que “há em todo o mundo 550 agências de viagens propriedade de portugueses, que empregam cerca de seis mil pessoas, que, diariamente, vendem turisticamente os vários destinos e embora sejam portugueses, nunca foram integrados nos ‘funtreap’ de conhecer turisticamente os Açores”. Isto, porque, argumenta, têm o “azar” de serem portugueses, o que em vez de ser uma vantagem faz que sejam “rejeitados” pelas actividades normais, que se dá a todos os estrangeiros, situação que acontece tanto na industria como no turismo – lamenta, avançando que o que estes agentes de viagens, lideres de opinião e alguns dos clientes querem é ter “o mesmo conhecimento”, que os demais profissionais de turismo.
“Vamos conhecer as Furnas, onde degustaremos o típico cozido, conhecer os hotéis mais emblemáticos, visitar a zona do chá, dos ananases, estar em contacto com a beleza típica das Sete Cidades, os campos de Golfe e, como não podia deixar de ser, vamos conhecer com todo o pormenor a cidade com os novos desenvolvimentos à volta da zona principal do porto e da marina, que são os grandes projectos”- relata, referindo-se ao programa do evento, que prevê obter também um “melhor conhecimento da oferta turística das unidades hoteleiras”, de que hoje os Açores dispõem.
O objectivo é sobretudo “dar a conhecer a Região aos agentes de viagens e clientes, que vem dos Estados Unidos, Canadá, Venezuela, Brasil, Suíça, França e até de Cabo Verde e de outros países para conhecer os Açores”.
Carlos Morais reconhece ainda que, actualmente, “o mais difícil é trazer turistas de língua portuguesa dos Estados Unidos, Canadá ou de França e o mais fácil é levá-los do Porto até aos Açores”. E, por incrível que pareça, comenta insatisfeito, não foi feita até hoje uma promoção “forte”, junto deste mercado, que representa “5 mil milhões de turistas que estão em média em Portugal, mais de 20 dias” por ano.
Os turistas “vêm, investem, consomem, promovem e repetem” e são, de facto, dos turistas mais “fiéis, pois consomem elevados valores na Restauração e investem no resto do país”. É necessário “olhar para os Açores como um destino” e dar a conhecer a todos, aquilo de facto, hoje, são os Açores.
Trata-se de uma Região com “enormes” potencialidades em termos turísticos. Na sua opinião, o que existe, sublinha, é uma “falta de enfoque”, pois a sociedade portuguesa toda a vida deu “mais valor ao estrangeiro, do que ao seu português, mas há cinco milhões de portugueses que estão lá fora e há cada vez mais emigração”.
Além disso, salienta, são muitos os portugueses que vão para o estrangeiro e “mal têm algum poder económico, a primeira coisa que fazem é tentar conhecer o seu país de origem”. E é “muito mais fácil”, alerta, “dinamizar e proteger turisticamente” Portugal e os Açores em concreto, junto dos cidadãos de língua portuguesa que estão lá fora, do que estar “eternamente” a buscar um sueco, dinamarquês, norueguês, alemão ou americano, que visita uma vez a Região e não volta mais. Carlos Morais ressalva ainda que este turista português “elege os destinos e volta com a família”, de forma continuada, por estes motivos é essencial “descobrir” qual o melhor cliente, em vez de fazer publicidade “apenas nos destinos e mercados habituais”. Se calhar, enfatiza, o que se tem de fazer é “rever os destinatários” da acção turística e da promoção.
Obviamente, que se trata de um turista com “poder económico” e que só visita os Açores, ou outros destinos, se estes tiverem um “factor preferencial positivo”, não estando disponível a ser o tal “turista de massas”. É, sim, um turista que realmente “prefere a diferença, não se importa de apanhar um bocadinho de mau tempo, mas acima de tudo dá valor à atitude peculiar, à tradição e à manutenção das formas de vida antigas”, embora modernizadas e já com novos meios de sobrevivência da sociedade moderna. Este turista valoriza o “equilíbrio fundamental existente entre o moderno e a preservação da tradição” e, lembra, é nisso que os Açores de facto têm feito uma aposta de alguma forma “bem conseguida” e tem todas as condições para isso. “A Região apenas tem de se dirigir aos turistas com melhor potencial de valorizarem este esforço que os Açores têm feito”- acentua.
Questionado sobre a questão dos transportes aéreos e os preços praticados, afirma ser outra área “fundamental”, sendo necessário “disponibilizar” o transporte aéreo para este tipo de turista. “São turistas com particularidades e não há nos voos regulares estratégias habilitadas, capazes de responder às especificidades do mercado”- lamenta, acrescentando não haverem “programas para jovens luso-descendentes visitarem regularmente Portugal, nem para seniores”. Este mercado tem uma “sazonalidade muito grande”, situação que considera ser necessário “inverter”. Para isso, a promoção feita no estrangeiro, é preciso fazê-la “também junto do cidadão português que lá reside”.
Quanto a evitar atrasos e prestar a devida assistência em viagem, afirma serem factores essenciais, pois hoje “ninguém viaja sem qualidade”. Um turista compra uma viagem de avião e não tendo um tratamento célere da bagagem, por exemplo, sente-se “defraudado”, naquilo que é actualmente um turista “mais ocidental”, que existe hoje por todo o mundo.
Referindo-se ao terminal de cruzeiros e ao futuro casino, o empresário avança serem outra vertente destinada a outro tipo de turista, a que os Açores têm estado “aliados” e que têm condições de “recuperar”. Isto, pois nas famosas viagens transatlânticas, os cruzeiros precisam de “pousos com características e condições adequadas”.
Logicamente, que se os barcos existem, também existem turistas (e um destino), agora resta “criar as condições para que as duas realidades se juntem”. Carlos Morais argumenta ainda que o mercado já existe, o que os Açores não tinham era “condições para poderem receber esse tipo de turistas de cruzeiros”. Estamos perante um turista que, apesar de ter “defeitos”, como o não dormir em terra, não utilizando a cama, dispõe também de uma grande vantagem. Eles “promovem, divulgam e massificam o conhecimento, divulgando o destino Açores”, para além do chamado turista tradicional que já vinha aos Açores.
Na sua opinião, “ninguém vai fugir por ver o casino”. Pelo contrário, este irá, “atrair outro tipo de turistas”, que por terem um casino se sentirão mais motivados para visitar os Açores. Além disso, a par de outros destinos turísticos, o facto de não haver casino pode ser uma “perda” e, o dia em que este estiver activo constituirá um “ganho qualitativo na oferta turística” dos Açores.
Questionado sobre o tipo de turista que convém aos Açores, avança no seu entender tratar-se do “turista geracional que vem e volta com a família e, mais tarde, com os amigos”. E no seu regresso, salienta, vem sempre numa óptica de “valorizar a tradição e o é genuína e turisticamente” os Açores.
Quanto ao que poderá ser feito para desenvolver mais a Região em termos turísticos, afirma ser importante “dotar os agricultores de meios económico”, capazes de melhorar a forma como vivem, porque os Açores turisticamente precisam desta realidade e o turista “preserva, valoriza e paga, porque quer identificar nos Açores esse valor da tradição”- enfatiza.
“Há que fazer uma aposta, valorizando aquilo que é genuinamente característico dos Açores, mas a maior dificuldade neste projecto, está em apostarem erradamente em turistas, que só vêm por preços baratos ou à procura de um produto similar aos dos outros países”- esclarece, avançando que a “grande aposta” está em descobrir este tipo de turistas “não se esgota”, pois trata-se de um turista “geracional” com origens portuguesas em todo o mundo. O turista que vem à procura de preços baixos, alerta, “não é, certamente, o turista que no futuro se repete” a visitar os Açores.
Em termos de projectos, o presidente explica que todos os anos promovem, em parceria com o governo regional, a área “agro-alimentar dos Açores no mundo inteiro”, vertente de enorme sucesso e que está relacionada com a presença anual dos produtos açorianos na maior feira que há anualmente, em Lisboa, de produtos alimentares.
O Encontro Internacional de Turismo é promovido pela Comissão Organizadora, pela Mundinvent, jornal “O Emigrante” e por um conjunto de entidades das comunidades, que se associam através das suas próprias agências de viagens. A nível local, o apoio vem da Direcção Regional de Turismo e da Secretaria Regional da Economia.
Como última mensagem a passar aos açorianos e aos profissionais de turismo, Carlos Morais aproveita para dizer que os Açores são “uma pérola com um potencial imenso e um capital de simpatia”, que as pessoas quando falam na Região falam com “carinho”, realidades que é essencial “transformar” em potencial turístico.
Acima de tudo, evidencia, é necessário “mudar a mentalidade” das pessoas, para que estas “valorizem a importância do turista português residente no estrangeiro”. Não é somente o açoriano residente no estrangeiro, alerta, mas o madeirense, o minhoto, o alentejano. “São cinco milhares e há que, de uma vez por todas, que dar valor ao que é português. Não vale a pena exigir que os outros nos dêem valor, se nós próprios não o fizermos”-conclui.


Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Julho de 2008

Em palco "dou tudo de mim"


ANDRÉ INDIANA

Electric mind” é um dos temas mais conhecidos e populares deste jovem “apaixonado” pela música, natural do Porto, que toca piano, guitarra e canta desde muito cedo, pois pertence a uma família de músicos amadores. André Indiana revela ao Terra Nostra que ao subir ao palco dá tudo de si, pois “tudo” pode acontecer. Considera-se ainda uma pessoa “muito perfeccionista”, que já “vendeu a alma pela música” há muitos anos, por “amá-la” mesmo e tudo na sua vida gira à volta disso. Por outro lado, o que menos gosta nas pessoas são a “inveja, as picuisses e os ódios disfarçados”.


Electric mind foi um dos seus êxitos mais conhecidos e popularizado através da serie juvenil Morangos com Açúcar da TVI. Falamos de André Indiana, um jovem que adora a música acima de tudo e à qual vendeu a alma há muitos anos.
André Indiana é natural do Porto e está no mundo da música desde muito novo. “Na minha família são todos músicos amadores, tanto do lado da minha mãe como do meu pai. E desde muito pequenino que toco piano, guitarra e canto”. Editou em 2000 o seu primeiro single, o primeiro álbum em 2003, “Destilled And Bottled”, e o segundo três anos depois e, “basicamente”, é esta a sua vida com umas “centenas de concertos pelo meio, muita estrada e muito trabalho, videoclips, entrevistas e outras coisas boas”.
Considera-se uma pessoa “muito apaixonada pela música e às vezes muito perfeccionista”, que já “vendeu a alma pela música há muitos anos”, afirma, acrescentando que todas as outras coisas são “acessórios” e não são muito importantes. “Sou uma pessoa que ama mesmo a música com o coração todo e tudo o que faço, como as entrevistas, é porque adoro a música e tudo na minha vida gira à volta disso”- acentua.
O que gosta menos nas pessoas diz ser a “inveja, as picuísses e os ódios disfarçados”, pois, a seu ver, às vezes, as pessoas têm “pequenas frustrações, o que considera “horrível”. Isto, porque, argumenta, que estas situações “muitas vezes causam grandes problemas no mundo, mesmo que não pareça”. Quanto ao que gosta mais, explica que no seu estado “mais puro”, as pessoas “em geral, evidentemente”, têm um lado de “puro de comunicação e compreensão”, outra razão que o faz gostar da música. “A música é um meio de comunicação muito rápido, muito directo, em que todas as porcariazinhas e desentendimentos desaparecem com uma canção de três ou quatro minutos, que aparece na altura certa”- ressalva, exemplificando que num concerto, às vezes as pessoas estão “chateadas e tudo isso desaparece”. Diz ainda acreditar que com “muito pouco”, as pessoas acabam por se entender todas, o que é, na sua opinião, uma “qualidade humana muito grande”.
Em relação a amar ou ser amado, defende ser a mesma coisa, pois o amor quando verdadeiro, é “incondicional” e, sublinha, não interessa se há “retribuição”.
Quanto ao tema “An electric mind”, exibido na popular serie Morangos com Açúcar, afirma ser “engraçada” a história. “Estava a dormir em casa de uma amiga, em 2002 ou 2003, e acordei com a música toda na minha cabeça. Peguei no carro, vim directo para o estúdio e gravei tudo e saiu, assim, de rajada mesmo”- revela, explicando ser uma música que fala da situação que se encontrava a viver na altura, em que “como hoje, que estava fazer só o que quero, com a música e a safar-me com isso”. A música fala também, acrescenta, sobre algumas pessoas que não concordam com isso, têm “inveja”, acham que não é uma postura “eficiente” na vida, ou que há algo de “errado em nos satisfazermos como nos apetece”.
Avança, também, considerar-se uma pessoa de “‘mente eléctrica’ e espírito também”, tanto no lançamento da música, como agora, apesar de actualmente ser um bocadinho “menos”, admite, pois já passaram uns anos, mas é, sobretudo, uma questão de “espírito”.
A musica de André indiana tem uma influência marcante de música negra e norte –americana, o que afirma não saber explicar. “Não sei porque tenho um amor tão grande pelos Blues e pelas origens da música moderna”. Isto, apesar de acreditar que em “toda” a música moderna, “desde o Rock ao Pop”, se consegue encontrar “raízes directas na música negra, apesar de que não se trata só da cor”. Importa, é que, por uma razão ou por outra, esclarece, se começou a sentir “em casa” ao cantar alguns estilos desses.
Referindo-se ao facto de, no início, ter sido confundido com o Lenny Kravitz, revela que “realmente” não lhe “agrada” muito a comparação, mas “podia ser pior”. O cantor salienta, também, que a influência de Lenny Kravitz não é tão grande como as pessoas dizem, a pontos do seu estilo ser o mesmo. Apenas, admira-o, como ao “Prince, o Paul McCartney” e muitos outros.
Ao subir ao palco e correndo o risco de parecer um ‘cliché’, o cantor revela que é como se “acabasse o mundo”, pois cada vez que sobe a um palco, “tudo acontecer”e dá “tudo” o que tem. O que, enfatiza, “não é uma opção, é automático”.
Em termos de internacionalizar a sua música, André Indiana confessa que já pensou muito no assunto, mas, “por uma razão ou por outra”, ainda não aconteceu. “Na verdade, pensei que fosse mais fácil, mas não é assim tão fácil como estava à espera” -explica, acentuando que quando o fizer, quer fazê-lo “bem”.
Diz já ter tido alguns convites para fazer dois ou três concertos, mas isso não quer fazer. Pretende, sim, “editar discos, vendê-los e fazer digressões”, o que encara um bocado como sendo, “se calhar, uma utopia”, mas é disso que está à espera. “Gostava de sair do país, quando fosse uma coisa com pés e cabeça”.
A oportunidade d’ An Electric Mind entrar nos Morangos com Açúcar, explica que foi um “convite directo da NBP”. A sua única preocupação, reconhece, era a possibilidade de lhe “alterarem” a música. Já foi há alguns anos, recorda, e a série estava mesmo a começar, tal como outras produções juvenis e novelas e começaram a aparecer muitos convites, que aceitou. “Aceitei com muito orgulho, até porque a música estava associada um professor rebelde, salvo erro, e eu achei piada”. André Indiana lembra também que teve mais umas cinco ou seis músicas associadas as produções da TVI, como O Bando dos Quatro e A Baía das Mulheres, mas admite não gostar muito de ficar “associado” a novelas.
As suas canções falam de “situações pessoais”, de experiências que viveu e que foram passadas para uma canção, o que, a seu ver, mostra a tal influência norte-americana. “Também tenho uma ou outra música, que fala de problemas maiores, mas normalmente são situações biográficas”. O músico contam ainda, que já esteve em São Miguel e, em Agosto, virá à Graciosa.
Quanto a projectos, André Indiana gravou recentemente um disco de Blues “feito à maneira antiga”, que deverá sair à rua dentro de cerca de dois meses. Além de “Sem Limite”, que, explica, inclui não só Blues, mas “todas” as suas influências e que deverá sair no “próximo ano, talvez por alturas da Primavera”.
O cantor aproveita ainda para dizer aos fãs que vão ao concerto, pois é sempre uma “grande festa”, na qual será “comunicativo e irá proporcionar uma boa noite a toda a gente”. O que é algo “natural”, como se irão aperceber.
Vida e Carreira
Nascido no Porto, André Indiana tem fortes influências Norte Americanas enraizadas, na sua música, pois na sua família, todos tocam algum instrumento musical ou cantam, e, desde muito novo, se habituou a estar rodeado de música e de instrumentos musicais. Em 2000, começou a apresentar as suas músicas ao vivo até que surgiu o primeiro álbum, três anos depois. “Destilled and Bottled” fala basicamente do que foi a sua vida, depois do seu primeiro trabalho. Conta algumas histórias e tem alguma mistura de emoções. Rip Off foi o single de apresentação deste novo trabalho e fala de golpes e burlas.
Quando surgiu com “Electric Mind”, nas rádios muitas pessoas confundiram a sua música com a de Lenny Kravitz, pois o single tem o mesmo tipo de estética de algumas canções do Lenny Kravitz, principalmente pelo estilo de bateria “stax”, que pensa ter sido a grande razão dos equívocos.
As grandes diferenças, entre “Music For Nations” e “Destilled And Bottled”, reside, a seu ver, no facto de “Music For Nations” ser um álbum gravado em poucos dias, praticamente sem pré-produção e, por isso mesmo, muito interessante, onde, basicamente, gravaram as canções directamente para a fita. Em “Destilled And Bottled” o cantor pretendia controlar tudo, o que levou a um ano de pré-produção, em que ele próprio tocou muitos dos instrumentos e teve muitos convidados, orquestra, metais e tudo o que as canções ‘pediam’, Além de tudo isto, é um álbum mais directo, onde há menos barreiras, menos divagação e as canções ganharam com isso.
Porquê a escolha de Mário Barreiros e Nelson Carvalho, para a produção do álbum?A produção esteve a cargo de André Indiana, Andy Torrence e Nelson Carvalho foi uma forte colaboração nas misturas finais e mastering. Mário Barreiros esteve no processo de gravação, mas não como produtor.
Curiosamente, o seu website é mais visitado no estrangeiro do que em Portugal, o que o motiva para se expandir a novos horizontes.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Julho de 2008.

Bancos tornam-se mais selectivos no crédito


Crédito Habitação

Os Açores, tal como o resto do país e a Europa, atravessam actualmente uma crise económica marcante, devido à subida do preço do petróleo. Como se não bastassem os constantes aumentos dos preços dos combustíveis, as taxas de juro são cada vez mais altas, o que causa um grande impacto na vida das famílias portuguesas, especialmente no que toca ao Crédito Habitação. Segundo Ricardo Espírito Santo Salgado, presidente do Grupo BES, em caso de dificuldade no pagamento das prestações, a pessoa deve “imediatamente” contactar com o banco, que tem serviços cada vez mais “especializados” nesta área, para um possível “alargamento dos prazos” de crédito ou um eventual “fixar” das taxas, o que garante também ser possível.
As taxas de juro são cada vez mais elevadas, o que prejudica em grande escala as famílias portuguesas. O objectivo do Banco Central Europeu é travar a inflação, que, por sua vez, não foi gerada na economia nacional nem europeia. O importante é combinar com o banco uma forma de poder pagar as respectivas mensalidades, baixando-as ou impondo taxas fixas. Do lado da banca e para lidar com a falta de pagamentos, estes apenas podem ser mais selectivos na atribuição de crédito.


Ricardo Espírito Santo Salgado, presidente do Grupo BES, lembra que as taxas de juro têm estado a subir, porque, “infelizmente, o problema da inflação envolve-nos a todos”. A política da taxa de juro, explica, é estabelecida pelo Banco Central Europeu, correspondendo a subida das taxas de juro a um “travão” no desenvolvimento da inflação, que faz parte da política monetária de crédito. “Uma das formas de travar a inflação é, sem dúvida, a subida das taxas de juro”- realidade que considera “inexorável”.
Por outro lado, infelizmente, a inflação “não é uma inflação originada na economia regional, nacional ou europeia”. Provém, si, de um “choque externo” e que tem a ver com o “aumento do preço do petróleo e com a subida das chamadas commodities” (embora sejam mercadorias primárias, estas possuem cotação e ‘negociabilidade’ globais. Logo, as oscilações nas cotações destas commodities têm um impacto significativo nos fluxos financeiros mundiais, podendo causar perdas a agentes económicos e até mesmo a países). Tudo isto, tem levado a uma subida dos preços a nível “mundial”, o que lamenta.
E continua, dizendo que o Banco Central Europeu à frente do Federal Researt nos Estados Unidos tem “subido” as taxas de juro e o Federal na América “baixou as taxas de juro, devido ao colapso económico”, que os Estados Unidos estavam a enfrentar. Ricardo Salgado acrescenta que “parecem estar a conseguir travar naturalmente ou a evitar de justeza uma recessão, mas inexoravelmente a inflação está a crescer também nos Estados Unidos, com elevadíssima probabilidade das taxas de juro subirem também na América”.
Referindo-se à alteração no nível de vida das famílias, afirma que o impacto é “evidente” e torna tudo o que tem a ver com o crédito aos particulares, crédito habitação e crédito de consumo e todas as modalidades de crédito “mais onerosas, criando dificuldades” aos orçamentos familiares. Apesar de reconhecer, que uma situação destas cria “dificuldades acrescidas” às famílias, o empresário aponta algumas eventuais soluções, como o “alongamento dos prazos de crédito” ou a possibilidade de estabelecer “taxas fixas”.
Vendo o outro lado da moeda, convém salientar que um quadro destes prejudica igualmente a banca, pois as pessoas “falham muitos pagamentos”. É evidente que, explica, quando as prestações se tornam “mais caras” e as famílias não conseguem dominar este “círculo infernal” da subida dos juros, que acaba por se traduzir numa sinistralidade “maior” do crédito, os bancos vêem-se também obrigados a serem “mais selectivos”, na concessão de crédito. É “inevitável”.
O presidente do grupo BES aproveita ainda para dizer que as taxas de juro têm subido “drasticamente”, lembrando que há cerca de três anos atrás estas estariam na casa dos “3 ou 3,5% e, agora, vão ultrapassar os 5%”, atendendo ao ‘spread’ que os bancos levam aos clientes para, efectivamente, terem uma “remuneração no risco de crédito que concedem.
Para contornar a situação a nível da banca, Ricardo Salgado admite que resta apenas “esperar que a inflação regrida”, pois trata-se de um “choque externo”. Afirma ainda não ter “dúvida nenhuma”, de que o Banco Central Europeu irá “reduzir as taxas de juro, logo que o perigo de uma inflação descontrolada não se verifique”, verificando-se então uma “queda” nas mesmas.
Em relação às famílias, a possível solução está, a seu ver, numa “maior retracção na procura de crédito” ou, acentua mais uma vez, no “alongamento dos prazos dos empréstimos” para terem prestações mensais mais baixas. Reconhece também tratar-se de uma situação “muito complicada” , tendo cada um, naturalmente, de fazer os ensaios e exercícios que puder, para se procurar “enquadrar” dentro destas dificuldades.
Além da habitação, o que leva as pessoas a contraírem crédito é fundamentalmente o “crédito ao consumo” de bens da mais diversa natureza, como um “automóvel ou um frigorifico”. O empresário argumenta que actualmente as pessoas procuram ter padrões de vida com “maior qualidade” através do crédito, mas, sublinha, “há riscos”.
As pessoas que tenham dificuldades em se enquadrarem dentro das prestações normais a que têm de fazer face, considera, devem “procurar imediatamente o banco, no sentido de reestruturarem a sua operação de crédito de forma a diminuir o encargo mensal”. Mas devem fazê-lo rapidamente, antes que a situação se “degrade”. Os bancos estão preparados também para “aceitar uma distribuição dos encargos financeiros que não seja a mesma, linear ao longo do tempo”. É possível, ainda, estabelecer “taxas fixas” para combater esta situação.
Eventualmente, em último caso podem tentar “entregar a habitação se não tiverem condições de liquidação e resolverem com isso o seu passivo e alugar outra em melhores condições bancárias, mas de facto a situação não é fácil”-reconhece, aconselhando “ vivamente” a que as pessoas ‘conversem com os bancos’, cujo “atendimento é cada vez mais especializado”, no sentido de comporem uma situação que lhes seja mais fácil.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Julho de 2008.

Poucos Programas sobre os Açores


Os Açores na TV nacional


Os canais nacionais transmitem poucos programas dos Açores e sobre os Açores, o que para Mário Mesquita se deve a uma questão de “mentalidades”. Segundo o professor, jornalista e ex-director do Diário de Notícias, “é de facto insuficiente o que aparece tanto no noticiário geral, como no político e acho que há um aproveitamento insuficiente da própria capacidade desses canais”.
São poucas as vezes em que ouvimos falar nos Açores, quando assistimos aos canais nacionais. E apesar de ter estreado há pouco tempo um programa sobre a Região, transmitido na RTP-N, não é o suficiente, pois são diversas as áreas em que há acontecimentos regionais de relevo a nível nacional.
Mário Mesquita, professor, jornalista e ex-director do Diário de Noticias, como cidadão açoriano a título individual, defende ser de facto “insuficiente” o que é transmitido “tanto no noticiário geral, como no político”, acrescentando haver, na sua opinião, um “aproveitamento insuficiente da própria capacidade desses canais”, o que é mais notório, sublinha, a nível da televisão.


“Há um aproveitamento insuficiente dos recursos humanos e técnicos que as várias televisões possuem e em primeiro lugar do serviço público, naturalmente, que tem responsabilidades especiais”- acentua, avançando ter estreado recentemente um noticiário de cerca de “quinze minutos”, transmitido pela RTP-N. O professor aproveita também para dizer, com todo o respeito pela RTP e pela RTP-N e sem deixar de “registar positivamente um progresso”, que ainda “não basta, mas já é um passo”. Resta esperar, que no seguimento desta mudança, “muitas outras coisas” se transformem. Mário Mesquita aproveita ainda para lembrar que na perspectiva do comentário político, por exemplo, houve uma época em que havia jornalistas, alguns deles até continentais, de alguma maneira “especializados nas questões açorianas”, o que se tem vindo a “diluir” e a surgir, apenas, em “momentos eleitorais”. Fora desses períodos especiais, fica tudo “reduzido ao silêncio”.
Quanto às razões que conduzem a esta realidade, Mário Mesquita aponta ser “fundamentalmente” uma questão de “critérios editoriais” das respectivas chefias. “Naturalmente, é legítimo que as pessoas tenham estes critérios, da mesma maneira que há histórias de Portugal que falam na Primeira Guerra Mundial e não referem que houve uma Base Naval Americana nos Açores, que teve um papel importante”- salienta, contrapondo que, no entanto, concedem muitas páginas às “intervenções dos corpos expedicionários” portugueses.
Referindo-se ao que pode ser feito para mudar esta situação, afirma que a mudança deve ser assumida, por quem está nos lugares de “decisão”. Em relação ao sector público, sobre o qual argumenta ser mais fácil responder, cada um deve “assumir as suas responsabilidades”, havendo do lado regional “alguma pressão” em relação a isso.
Sem querer definir o que é da competência dos jornalistas e editores, alerta, o jornalista defende que “nas várias áreas, há fenómenos e questões regionais que interessam ao todo nacional e que merecem” ser também transmitidos. Lembra, ainda, que há uns anos, houve em São Miguel um “debate regional” em período de campanha eleitoral, entre os vários líderes dos partidos, programa que considerou de “tão bom nível” como os nacionais. Este, salienta, “durou cerca de 50 minutos ou mais, e nem dois ou três minutos passou nos principais noticiários nacionais”- enfatiza, lamentando uma situação que sob o soeu ponto de vista está relacionada com a “mentalidade” das pessoas.
BIOGRAFIA
Nascido em Ponta Delgada no ano de 1950, Mário Mesquita tem a sua vida marcada pela política, pelo jornalismo e pela universidade. Fundador do Partido Socialista, deputado constituinte, jornalista no velho "República", director de dois grandes diários portugueses (DN e DL), esta personalidade respeitada pelo rigor, determinação e independência, é actualmente docente e investigador universitário na área da comunicação social, além de autor de vários livros e numerosos artigos científicos. No plano pessoal, sempre pretendeu fazer jornalismo, mas só por volta de 1971 entrou, juntamente com Jaime Gama, para o "República". Tinha 21 anos e começou como estagiário não remunerado, estando já inscrito na Faculdade de Direito.
Interessou-se pelo jornalismo ainda muito jovem, pois aos 14-15 anos já gostava de literatura e também pela intervenção cívica e política. Como Ponta Delgada era uma cidade pequena, com três diários e que permitia uma grande proximidade, começou a frequentar as redacções e a conviver com os jornalistas locais, que na altura eram semi-profissionais.
No jornalismo, para além de manter há 12 anos uma crónica semanal - primeiro no "Diário de Noticias" e depois no "Público", foi ainda vice-presidente do Conselho de Imprensa (84-85), membro do Conselho de Comunicação Social (86-87) e provedor dos leitores do "Diário de Notícias" (97-98).
Houve três jornalistas que o marcaram na sua juventude, Manuel Ferreira, autor d’ "O Barco e o Sonho", que foi adaptada por Zeca Medeiros para a RTP; Rui Guilherme de Morais, também ficcionista de novelas e contos e; o Gustavo de Moura, que chegou a director do "Açoriano Oriental", o mais antigo jornal português da actualidade.
Na área da educação, é professor coordenador na Escola Superior de Comunicação Social, professor convidado da Universidade Lusófona, membro da Comissão de Redacção da revista "Comunicação e Linguagens" (Universidade Nova) e do Comité Científico da revista "Recherches en Communication" (Universidade Católica de Lovaina).
"Portugal sem Salazar" foi o primeiro livro que publicou, em 1973. Onze anos depois, veio a público um livro de crónicas intitulado "Deve e Haver". A obra que se seguiu foi "A Regra da Instabilidade", publicada em 1987 pela Imprensa Nacional. Em 1998 deu à estampa "O Jornalismo em Análise - A coluna do Provedor de Leitores" e em 2003 "O Quarto Equívoco - o poder dos Media na sociedade contemporânea".
Obteve também vários prémios de prestígio, como o Prémio Reportagem do Clube Português de Imprensa (1986), Prémio Artur Portela, concedido pela Casa de Imprensa pela carreira profissional (1987), Prémio Gazeta de Mérito, do Clube de Jornalistas, pela actividade desenvolvida na qualidade de provedor de leitores (1998) e Prémio Nacional Manuel Pinto de Azevedo Jr, na modalidade de Investigação, atribuído pelo Primeiro de Janeiro (1999). Em 2000-2001 ainda foi bolseiro de honra da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Vigo.
Raquel Moreira
Os Açores na TV nacional
Poucos programas sobre os Açores
Os canais nacionais transmitem poucos programas dos Açores e sobre os Açores, o que para Mário Mesquita se deve a uma questão de “mentalidades”. Segundo o professor, jornalista e ex-director do Diário de Notícias, “é de facto insuficiente o que aparece tanto no noticiário geral, como no político e acho que há um aproveitamento insuficiente da própria capacidade desses canais”.
São poucas as vezes em que ouvimos falar nos Açores, quando assistimos aos canais nacionais. E apesar de ter estreado há pouco tempo um programa sobre a Região, transmitido na RTP-N, não é o suficiente, pois são diversas as áreas em que há acontecimentos regionais de relevo a nível nacional.
Mário Mesquita, professor, jornalista e ex-director do Diário de Noticias, como cidadão açoriano a título individual, defende ser de facto “insuficiente” o que é transmitido “tanto no noticiário geral, como no político”, acrescentando haver, na sua opinião, um “aproveitamento insuficiente da própria capacidade desses canais”, o que é mais notório, sublinha, a nível da televisão.
“Há um aproveitamento insuficiente dos recursos humanos e técnicos que as várias televisões possuem e em primeiro lugar do serviço público, naturalmente, que tem responsabilidades especiais”- acentua, avançando ter estreado recentemente um noticiário de cerca de “quinze minutos”, transmitido pela RTP-N. O professor aproveita também para dizer, com todo o respeito pela RTP e pela RTP-N e sem deixar de “registar positivamente um progresso”, que ainda “não basta, mas já é um passo”. Resta esperar, que no seguimento desta mudança, “muitas outras coisas” se transformem. Mário Mesquita aproveita ainda para lembrar que na perspectiva do comentário político, por exemplo, houve uma época em que havia jornalistas, alguns deles até continentais, de alguma maneira “especializados nas questões açorianas”, o que se tem vindo a “diluir” e a surgir, apenas, em “momentos eleitorais”. Fora desses períodos especiais, fica tudo “reduzido ao silêncio”.
Quanto às razões que conduzem a esta realidade, Mário Mesquita aponta ser “fundamentalmente” uma questão de “critérios editoriais” das respectivas chefias. “Naturalmente, é legítimo que as pessoas tenham estes critérios, da mesma maneira que há histórias de Portugal que falam na Primeira Guerra Mundial e não referem que houve uma Base Naval Americana nos Açores, que teve um papel importante”- salienta, contrapondo que, no entanto, concedem muitas páginas às “intervenções dos corpos expedicionários” portugueses.
Referindo-se ao que pode ser feito para mudar esta situação, afirma que a mudança deve ser assumida, por quem está nos lugares de “decisão”. Em relação ao sector público, sobre o qual argumenta ser mais fácil responder, cada um deve “assumir as suas responsabilidades”, havendo do lado regional “alguma pressão” em relação a isso.
Sem querer definir o que é da competência dos jornalistas e editores, alerta, o jornalista defende que “nas várias áreas, há fenómenos e questões regionais que interessam ao todo nacional e que merecem” ser também transmitidos. Lembra, ainda, que há uns anos, houve em São Miguel um “debate regional” em período de campanha eleitoral, entre os vários líderes dos partidos, programa que considerou de “tão bom nível” como os nacionais. Este, salienta, “durou cerca de 50 minutos ou mais, e nem dois ou três minutos passou nos principais noticiários nacionais”- enfatiza, lamentando uma situação que sob o soeu ponto de vista está relacionada com a “mentalidade” das pessoas.
BIOGRAFIA
Nascido em Ponta Delgada no ano de 1950, Mário Mesquita tem a sua vida marcada pela política, pelo jornalismo e pela universidade. Fundador do Partido Socialista, deputado constituinte, jornalista no velho "República", director de dois grandes diários portugueses (DN e DL), esta personalidade respeitada pelo rigor, determinação e independência, é actualmente docente e investigador universitário na área da comunicação social, além de autor de vários livros e numerosos artigos científicos. No plano pessoal, sempre pretendeu fazer jornalismo, mas só por volta de 1971 entrou, juntamente com Jaime Gama, para o "República". Tinha 21 anos e começou como estagiário não remunerado, estando já inscrito na Faculdade de Direito.
Interessou-se pelo jornalismo ainda muito jovem, pois aos 14-15 anos já gostava de literatura e também pela intervenção cívica e política. Como Ponta Delgada era uma cidade pequena, com três diários e que permitia uma grande proximidade, começou a frequentar as redacções e a conviver com os jornalistas locais, que na altura eram semi-profissionais.
No jornalismo, para além de manter há 12 anos uma crónica semanal - primeiro no "Diário de Noticias" e depois no "Público", foi ainda vice-presidente do Conselho de Imprensa (84-85), membro do Conselho de Comunicação Social (86-87) e provedor dos leitores do "Diário de Notícias" (97-98).
Houve três jornalistas que o marcaram na sua juventude, Manuel Ferreira, autor d’ "O Barco e o Sonho", que foi adaptada por Zeca Medeiros para a RTP; Rui Guilherme de Morais, também ficcionista de novelas e contos e; o Gustavo de Moura, que chegou a director do "Açoriano Oriental", o mais antigo jornal português da actualidade.
Na área da educação, é professor coordenador na Escola Superior de Comunicação Social, professor convidado da Universidade Lusófona, membro da Comissão de Redacção da revista "Comunicação e Linguagens" (Universidade Nova) e do Comité Científico da revista "Recherches en Communication" (Universidade Católica de Lovaina).
"Portugal sem Salazar" foi o primeiro livro que publicou, em 1973. Onze anos depois, veio a público um livro de crónicas intitulado "Deve e Haver". A obra que se seguiu foi "A Regra da Instabilidade", publicada em 1987 pela Imprensa Nacional. Em 1998 deu à estampa "O Jornalismo em Análise - A coluna do Provedor de Leitores" e em 2003 "O Quarto Equívoco - o poder dos Media na sociedade contemporânea".
Obteve também vários prémios de prestígio, como o Prémio Reportagem do Clube Português de Imprensa (1986), Prémio Artur Portela, concedido pela Casa de Imprensa pela carreira profissional (1987), Prémio Gazeta de Mérito, do Clube de Jornalistas, pela actividade desenvolvida na qualidade de provedor de leitores (1998) e Prémio Nacional Manuel Pinto de Azevedo Jr, na modalidade de Investigação, atribuído pelo Primeiro de Janeiro (1999). Em 2000-2001 ainda foi bolseiro de honra da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Vigo.


Raquel Moreira

Public in Terra Nostra, Julho de 2008.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

O mundo dos famosos!


Não se assustem, caros leitores! Não me refiro à minha pessoa, aliás de famosa nada tenho, nem pretendo ter. Prefiro viver, no anonimato, dentro do possível, claro, pois há sempre quem nos conheça. Refiro-me, aqui, ao quão difícil é, por vezes, contactar com alguns artistas, principalmente nacionais, a fim de os dar a conhecer um pouco mais através das nossas páginas.
Em alguns casos, tudo flui como a água de um rio, como tenho tido a sorte de me acontecer. Isto, pois o agente por trás da estrela é ‘cinco estrelas’, passando o trocadilho. Não posso deixar passar esta ocasião, sem fazer um pequeno aparte. Sortudo o artista que tem um agente competente e organizado. Caso contrário, seria o caos.
Tudo na hora certa e a tempo e horas, o que é difícil de acontecer, para que a peça saia na edição planeada. Mas se, por acaso, não recebemos as fotografias a tempo, por exemplo, vai tudo por água abaixo, por maior que seja a simpatia do cantor, ou não! Sim, não se admirem, pois infelizmente há muito boa gente que por ser famosa, se acha superior aos outros e simplesmente não dá entrevistas ou, pior, porta-se mal quando isso acontece.

Raquel Moreira
Public in Julho de 2008.

É fundamental "mais exercício físico"


A alimentação dos açorianos


A grande maioria dos açorianos não toma o pequeno-almoço, o que é muito "prejudicial, sobretudo nas crianças em idade escolar", que passam a manhã inteira a "degradarem as suas próprias proteínas", chegando ao almoço com o "dobro" do apetite. Segundo João Anselmo, nutricionista, outro aspecto preocupante é a "falta de exercício físico", que pode conduzir à obesidade. O médico alerta as escolas e universidades para criarem um espaço para a actividade física, que é fundamental. Problemas de tiróide, bulimia e anorexia são outras das suas preocupações.


Natural da freguesia da Ribeira Seca, da Ribeira Grande, em São Miguel, João Anselmo nasceu em 1961 e fez toda a escola primária e secundária na ilha, até ingressar na faculdade de medicina da universidade clássica de Lisboa. Fez a especialidade no Hospital Curry Cabral e alguns estágios no estrangeiro, nomeadamente na Bélgica, tendo voltado à Região há cerca de 15 anos. "Descobri que queria seguir a área de Endocrinologia e Nutrição, depois de concluir o internato geral"-revela, avançando que considera esta uma área "extremamente interessante". Além de que é uma área em que muito que se podia fazer e onde "há muito em que a pessoa pode ser útil e fazer um trabalho válido, sobretudo em São Miguel".
O homem é um animal de hábitos. Resta saber quais os hábitos alimentares dos açorianos e se estes hábitos são saudáveis. Falamos com João Anselmo acerca destas e de outras questões consideradas relevantes nesta matéria.
João Anselmo, nutricionista, começa por explicar que não se pode dizer que os açorianos, e todas as pessoas em geral nesta fase da história da humanidade e do mundo Ocidental, comem "bem ou mal". Há, sim, um "desajustamento" entre aquilo que se come e o que se consome.
"Aquilo que a pessoa gasta na sua actividade física diária não está de acordo com o que a pessoa come, em termos de quantidade"- ressalva, acrescentando que este desajustamento não se verifica apenas a nível regional, mas "em toda a sociedade ocidental e seguramente também vai atingir os países subdesenvolvidos".
Antigamente esclarece, as pessoas trabalhavam a terra despendendo muito mais energia e o que comiam podia até não ser suficiente. Actualmente, estes trabalhos foram substituídos por profissões de escritório, nas quais as pessoas consomem mais calorias do que as que despendem na pouca actividade física que praticam. Logo, "há de facto um desajustamento entre a actividade física diária, o tipo de trabalho que executam e a quantidade de alimentos que ingerem".
No que toca à qualidade dos alimentos, reconhece que esta "melhorou muito, em termos do refinamento dos alimentos e de higiene". Mas, lamenta, esta melhoria nem sempre se traduziu em ganhos específicos na qualidade. Houve alimentos que foram rigorosamente "renegados", em benefício de outros.
"Nos Açores, comiam-se muito mais hortaliças e vegetais, até por uma questão de economia. Os vegetais e as hortaliças eram baratos, as pessoas cultivavam-nos nos quintais, nas suas hortas e comiam-nos, porque era mais rentável. Era muito mais barato do que qualquer outro alimento como a farinha e o próprio pão, que eram caros"- exemplifica, lembrando que por "necessidades e por desajustamento social em termos profissionais" as pessoas deixaram de cultivar as suas hortas, deixaram de ter possibilidades, tempo ou motivação para cultivar as suas hortas e comer as hortaliças e mesmo as frutas e passaram, mais "comodamente", a comprar alguns alimentos como cereais enriquecidos com frutos ou com vitaminas. "Houve uma tentativa de simplificar a alimentação e torná-la mais fácil e acessível, que se traduziu num efeito negativo no comportamento alimentar".
Questionado sobre quais os maiores erros de uma má alimentação, João Anselmo salienta que, antigamente, nos Açores cometiam-se "erros alimentares graves", mas estes não tinham o "impacto" que têm actualmente, porque "as pessoas tinham outro tipo de actividade. Andavam muito a pé, pois não havia transportes e trabalhavam muito na terra, pois não havia empregos nos sectores secundário e terciário".
O médico diz não concordar com a ideia de que os alimentos, agora, não prestam. "Claro que a chamada Fast-food é algo que foi modificado seguramente. Ninguém tem dúvidas em relação à Fast food e a alimentos altamente publicitados pela indústria alimentar"- alerta, salientando serem "erros graves", pois trata-se de alimentos refinados com "enriquecimento de calorias, de gorduras" e de elementos que são bons no paladar, mas que não são "nada" saudáveis.
Segundo João Anselmo, ao contrário do que se pensa, o que as pessoas consomem mais são "gorduras, mas do que açúcares." Gorduras estas que, sublinha, advêm de comer fastfood, feita com "óleos não renovados frequentemente, o que os torna muito mais tóxicos". Antigamente, recorda, comia-se banha, uma gordura animal que hoje se considera quase de "terceiro plano". Mas esta tinha a vantagem de resistir muito mais a temperaturas elevadas, ao contrário dos óleos, que são muito mais saudáveis, mas quando levados a temperaturas elevadas transformam-se em verdadeiros óleos "tóxicos".
O "grande excesso de gorduras especialmente saturadas", como é o caso dos óleos das frituras, advém de se ter mudado a qualidade desses óleos, que em si são "bons, pois são polissaturados". É evidente que a partir dos 100 ou 120 graus, tornam-se óleos "extremamente enriquecidos, saturados e são tóxicos".
Ao contrário do que se pensa, a alimentação dos açorianos não é extremamente rica em açúcares. "Já se comeu muito mais açúcar nos Açores"- acentua, lembrando que a Região já teve "beterraba e uma fábrica". E, acrescenta, também já se comeu muito mais fruta. "Havia muito mais fruta em termos transactos. Houve a laranja, o ananás as pessoas tinham árvores de cultivo em casa e comia-se de facto muito mais fruta, que tem também muitos açucares, como a sacarose".
O que há de novo na alimentação em termos de calorias, é a "obtenção de grande parte das calorias a partir das gorduras, sobretudo de óleos severamente deteriorados com o aquecimento".
Álcool, tabaco e café
Referindo-se ao papel do álcool, do tabaco e do café no funcionamento do aparelho digestivo, o médico lembra que o álcool é algo que faz parte da história do homem e existe há milhares de anos. A questão está na "moderação", pois "qualquer tipo de bebida alcoólica moderadamente ingerida e sobretudo em situações festivas, não tem qualquer efeito nefasto". O problema é quando este deixa de ser um "sinal de festa ou de uma refeição", para se tornar em algo repetido e consumido "exagerada e frequentemente".
Em relação ao café, diz que este foi o "motor" das sociedades ocidentais, pois fez com que as pessoas tivessem uma “maior actividade e as sociedades ocidentais progrediram” à custa deste doping. O café é um excitante, provoca um “aumento da frequência cardíaca, um aumento da capacidade muscular e da capacidade intelectual”. Quanto ao máximo de cafés recomendado diariamente, explica que a tolerância ao café é algo muito “individual”, pois há quem não possa nem tomar um café e outros bebem dois ou três. O que está demonstrado é que, para além de efeito de ser excitante, desempenha um papel importante na actividade física e intelectual das pessoas no mundo de hoje, que é “altamente exigente”.
“Nunca se demonstrou que o café tivesse efeitos maus, nomeadamente criando obesidade ou diabetes. Aliás, hoje pensa-se que o café seja um protector em relação à diabetes, por outro lado aumenta o grau de stress nas pessoas que já estão stressadas pela própria natureza da vida, aumenta a ansiedade num maior número de pessoas que já de si estão ansiosas. Pode ser um contributo para a disrupção psicológica e a alteração psicológica em pessoas que já estão com stress. Agora, se são pessoas tranquilas é evidente que este não terá nenhum efeito negativo, à excepção de pessoas que são de facto intolerantes”- esclarece.
E continua, argumentando que quem fala do café, fala do chá, que tem “exactamente a mesma substância”, a teina que é igual à cafeína. Aliás, sublinha, quando a pessoa bebe chá, fá-lo em “muito mais quantidade”, do que numa bica vulgar, ingerindo a “mesma” quantidade de teina no chá. Referindo-se ao chá ou café descafeinado, afirma que isto “nunca teve qualquer sentido”, pois o facto de ser descafeinado não lhe traz “benefício nenhum”. Muitas vezes, ouvimos alguém dizer que tem dores de cabeça, pois ainda não bebeu café. João Anselmo explica ser possível a pessoa ficar “viciada” no café, porque este tem um efeito excitante “extremo”. “E se a pessoa deixar de o tomar, é natural que se sinta muito mais prostrada. Ou melhor, sente-se como se deveria sentir normalmente, mais relaxada. Logo, precisa de um café para lhe estimular, para lhe melhorar a capacidade física e intelectual e quando não o toma, evidente que retoma o seu plateaux normal de excitação”- acentua.
O tabaco é já uma droga “extremamente grave”, hoje responsável por um “aumento do cancro do pulmão em 8 vezes, aumento das doenças cardiovasculares em 4 vezes”. Em termos estatísticos é um factor “tóxico extremamente grave”, salienta, avançando que se deve ter “muita moderação”, pois é de facto algo extremamente “grave” nas sociedades modernas.
Quanto ao velho hábito de ao pequeno-almoço tomar apenas um café e fumar, o médico salienta tratar-se de um “erro grave”. Não tanto por ingerirem café, mas por o fazerem em “jejum”.
“O organismo humano não foi feito para estar mais de 10 ou 12 horas em jejum, uma realidade estritamente fisiológica. Há animais como os camelos, que podem passar 24 horas sem comer, porque têm fórmulas de acumulação de alimentos, mas o organismo humano não tem essa capacidade. Ao fim de 10 ou 12 horas, a maioria começa a degradar as suas próprias proteínas. Logo, bebendo café em jejum aumenta a degradação das proteínas e não da gordura”- ressalva.
É um erro, explica, dizer-se que 'não se come, para emagrecer’. Não funciona assim, porque o que a pessoa perde nestas alturas são “proteínas e músculo”. Trata-se de um erro “extremamente grave, muito frequente entre nós e de origens culturais”, pois nas sociedades latinas, do sul da Europa jantavam “muito mais tarde”, logo as pessoas não tinham fome ao pequeno-almoço. Enquanto nas sociedades do norte da Europa, as pessoas comem muito mais e têm o hábito de comer de manhã, porque jantam “muito mais cedo”. O que está relacionada com “variações climáticas e culturais”.
Nos Açores, alerta, “há uma larga percentagem, sobretudo de crianças, que vão para a escola sem tomar o pequeno-almoço”. O que é grave, primeiro, porque chegam ao almoço com o “dobro” da fome, além de que interfere com os “níveis de atenção e concentração”. As crianças não tem 'combustível' para funcionarem de manhã, a não ser que tenham de “degradar as próprias proteínas,” o que é muito grave e contribui de alguma forma para a “obesidade”. Os corredores das maratonas, por exemplo, estão sempre a beber água açucarada, porque “têm de ingerir proteínas”, para não degradarem as suas próprias ao longo de um esforço muito grande em actividades desportivas, não para se “hidratarem”. É um erro grave não tomar o pequeno-almoço, “muito mais grave é a pessoa beber um café e/ou fumar”. É fundamental institucionalizar o pequeno-almoço na nossa cultura, o que, lamenta, ainda não acontece. Sem ter feito grandes estatísticas, o médico afirma garantir que, pelo menos, um “quarto ou um terço da população escolar e jovem dos Açores não toma o pequeno-almoço”. Tenho essa percepção, justifica, porque “são muitos os que recorrem posteriormente a consultas de obesidade e quase todos dizem o mesmo”. As crianças não tem apetite, nem o hábito de comer, pois, muitas vezes, a pessoa não tem apetite de manhã, mas tem o hábito e acaba por comer alguma coisa, situação que considera preocupante.
Não se pode dizer que o conceito de alimentação saudável é científico, o importante é que “a alimentação das pessoas deve estar em consonância com a actividade que a pessoa desempenha”. Esta é a primeira “grande meta” em qualquer política de alimentação. Um jovem que pratique duas horas de natação diárias, necessita de muito mais calorias do que alguém que não pratique qualquer exercício física, independentemente de que alimentos vêm essas calorias. Segundo o nutricionista, as pessoas p”erderam um pouco o senso-comum”, em relação ao que devem ou não comer, pois são “bombardeadas” pela indústria alimentar. “Algo mau ingerido muito raramente, é bom, mas ingerido sistematicamente é seguramente tóxico”.
O que se julga que seja, hoje, o mais aproximado a uma alimentação ideal será ingerir o “máximo possível de frutas e leguminosas, pois são alimentos pobres em calorias, ricos em fibras e melhoram todo o transite intestinal”. Necessitamos das proteínas que o ideal é virem, na sua maior parte, dos “produtos lácteos” e, claro da carne. Mas é preciso ter em atenção, que a carne, ou peixe, não deverá ter muita gordura. Há ainda peixes “ricos em mercúrio, que não são muito benéficos”. Entre a carne de porco e a de vaca, “a de vaca é seguramente uma melhor fonte de proteínas”, mas esta vaca depende também daquilo que o animal come. As gorduras, devem-se evitar, “aumentando a ingestão de azeite e de óleos vegetais”, gorduras extremamente “positivas”, quando cruas. Muitas vezes, nem imaginamos onde estão as gorduras ou como são ingeridas, explica, acrescentando que estas existem, pois “o tipo de conservação dos alimentos e a sua manufactura requer em grande parte o uso de substâncias enriquecidas em ácidos gordos”.
Referindo-se à bulimia e à anorexia, o médico avança que apesar de já haver alguns casos, “felizmente” não vivemos “ainda” naquele tipo de sociedade em que existe uma "pressão imensa pela imagem física". Ainda não sofremos o efeito que os protótipos da imagem têm, sobretudo nas adolescentes. As pessoas já têm “alguma preocupação em manterem-se magras”, mas nada que chegue aos limites da anorexia.
Em termos de prevenção destas doenças do foro psicológico, o médico explica que não se podem “inundar frequentemente” os jovens com protótipos de beleza. Para evitar mais casos de bulimia, deve-se “evitar a divulgação da imagem de saúde e de bem-estar em pessoas excessivamente magras e não se pode pressionar os adolescentes” ao cultivo da imagem dos manequins.
Os problemas de tiróide são “extremamente comuns” nos Açores e não se sabe porquê, podendo estes surgir devido a factores “genéticos e ambientais”. A própria questão do iodo é muito “complexa”. Apesar de vivermos à beira mar, “não temos uma boa ingestão de iodo”. Uma das explicações possíveis é termos uma “baixa ingestão de peixe” e de outros de produtos provenientes do mar. O rossio do mar traz o iodo para terra e este fica nas hortaliças, mas “chove muito”, logo há uma lavagem desse iodo. O pior é que “os problemas de tiróide podem provocar angústia nas pessoas, tumores e a compressão dos órgãos do pescoço”.
Quanto à obesidade, explica que embora a tendência seja para “aumentar”, Portugal não é “nada” obeso, em relação a outros países, como os Estados Unidos. Ainda estamos na fase de crescimento, de expansão e “é agora que temos de fazer alguma coisa, para aumentar a actividade física, sobretudo na infância e na adolescência”. O problema actual reside no “sedentarismo, pois as crianças passam muitas horas por dia em frente à televisão, à Internet e em jogos, o que significa que têm um baixo grau de actividade física, gastando muito poucas calorias”. Falando na preocupação em fazer e cumprir uma dieta, João Anselmo revela já haver muito “bom-senso” em relação à alimentação, pois “as pessoas estão informadas e sabem o que devem fazer”. O mais grave, lamenta, é haver um "grande desfasamento" entre o que sabem e o que conseguem fazer.
“Nas universidades, por exemplo, os alunos não têm qualquer actividade física programada. A escola preocupa-se em ter computadores, ensinar inglês, mas a actividade física é deixada para trás. Muitas pessoas que praticam exercício regularmente, chegam à universidade, têm uma grande carga de trabalho, descuram a actividade física e acabam por engordar”- enfatiza.
Na sua opinião, “os antioxidantes presentes em vários sumos não são bons para o organismo, mas sim para conservar o sumo”-explica, lembrando que alguns trazem benefícios para o organismo, mas muitos (os E's) são “tóxicos”. Por outro lado, os antioxidantes, que vêm na própria fruta são “importantes” para o organismo, como o ácido ascórbico (a vitamina C), que é um antioxidante "extraordinário" e um dos mais potentes. Definindo antioxidantes, afirma que “o organismo produz uma série de substâncias tóxicas no seu estado normal, os antioxidantes neutralizam estes os tóxicos, logo é bom que surjam e alguma quantidade. Agora, os que se adicionam aos sumos não têm qualquer interesse”.
Raquel Moreira
Public in Julho de 2008.