quarta-feira, 2 de julho de 2008

Dar forma e voz ao "Ser ilhéu"


O DRAGOEIRO

Desenvolver um trabalho
"contemporâneo de pesquisa cultural e artística sobre a memória/ natureza/ progresso”, tendo como prioridade maior “pesquisar e reconhecer o homem na sua condição existencial”, é o objectivo primordial d’ O Dragoeiro, uma companhia teatral sedeada nos Açores e fundada em 2005.
Blasted (Ruínas) é o espectáculo que está em palco a partir de hoje até ao dia 29 do corrente mês, na Aula Magna, em Ponta Delgada. A peça tem como tema a “crueldade das relações interpessoais” e reflecte a origem da “explosão da violência”, alertando-nos que a violência gera mais violência.


O DRAGOEIRO é uma companhia teatral, que tem como objectivo nuclear a produção de espectáculos através de uma vocação artística e pedagógica, que visa promover e fomentar a criação/formação de públicos. A programação passa, assim, a estar assegurada pelo grupo artístico dirigido pelo encenador Nelson Monforte. Esta vertente engloba, igualmente, uma constante mobilidade e forte natureza para a itinerância, a difusão de uma específica identidade, fazendo com que o teatro vá deveras ao encontro das pessoas. Saliente-se a criação de uma estrutura que alberga uma escola, CDT (Centro Desenvolvimento Teatral), um “espaço artístico e profissionalizante” que permite desenvolver actividade nas vertentes artísticas e técnicas, bem como na produção, formação e investigação teatral.
A companhia promove ainda a realização regular de workshops e acções de formação bem como actividades nas áreas da educação, prevenção e promoção, literatura, ambiente, saúde, cidadania, música e dança, de onde se destacam vários projectos realizados em parceria com várias instituições e entidades.
Nelson Monforte, responsável pela companhia teatral O DRAGOEIRO, começa por contar que esta foi fundada em 2005 “como décima ilha”, propondo-se a ser um agrupamento “reconhecido pelas suas diversas pertinências artísticas”. Desenvolver um trabalho “contemporâneo de pesquisa cultural e artística sobre a memória/ natureza/ progresso”, tendo como prioridade maior “pesquisar e reconhecer o homem na sua condição existencial” é o alvo a atingir.
Um dos objectivos da companhia, salienta, é “estimular” a apetência e o gosto pela “real fruição” teatral entre a população residente na sua diversidade. “Outro elemento marcante da actuação do Dragoeiro na região é a manutenção de uma equipa base, de um conjunto especializado, metódico, capaz de segurar espectáculos em repertórios, equipa artística técnica estáveis e, simultaneamente, formar repercussões registados sobre as suas criações”- sublinha, avançando que o grande objectivo presente é a “construção de uma linguagem artística própria, com uma forte identidade e um fruto profícuo, com base na experimentação, formação e investigação”.
O responsável aproveita também para dizer que, actualmente, a companhia procura apresentar projectos que “cavem” uma abordagem contemporânea e uma “pesquisa estética”, optando por textos originais e adaptações de textos não convencionais para teatro.
Nelson Monforte vai ainda mais longe ao afirmar que o Dragoeiro é, “acima de tudo”, um espaço comum de profissionais que através dos seus já diferenciados percursos, currículos e projectos artísticos, querem “dar voz e forma, ao ser ilhéu na contemporaneidade”. Na sua opinião, há que tratar a insularidade conferindo-lhe “universalidade”, para que elementos como o mar e a ilha “personifiquem” as realidades humanas mais diversas. A itinerância considera-a uma “oportunidade de divulgar o trabalho”, noutras localidades do país e no estrangeiro.
O nome da companhia, revela, encontra-se associado pelas suas origens, a uma “árvore de grande porte e vitalidade, bem como fonética marcante, transmissora e simplicidade”. O termo “Dragoeiro”, acentua, transparece uma “dualidade de perseverança e tradição conjugadas com espírito de inovação”. Nelson Monforte explica que sendo esta considerada uma árvore “sagrada” e um local de reuniões desde tempos imemoriais, plantam “através desta Companhia, o seu Dragoeiro nos Açores”.
Estamos perante um Dragoeiro que se quer agregar e “inclusor”, no palco das Artes. A Companhia “planta a luta que este trava para sobreviver”, tal como a sua intrínseca capacidade para ultrapassar obstáculos, alcançando a longevidade e a estabilidade do seu desenvolvimento horizontal. E fá-lo, não por uma “resistência opositora e exclusora”, mas capaz de se conciliar com “inovação e flexibilidade”. São estes aspectos “simbólicos da árvore, em cujas raízes fundamos esta Companhia, que se pretende capaz de expandir os seus ramos, sempre em torno destes conceitos essenciais”- esclarece.
O Dragoeiro conta com uma equipa de “38 membros”, nas diversas áreas, além dos colaboradores, todos com idades que variam entre os “20 e os 48 anos”. Referindo-se à formação do grupo e à possibilidade da de hoje ser a inicial, diz que “primeiro nasce a raiz, depois o tronco e as ramificações”. Assim, foi crescendo o “nosso” Dragoeiro.
Quanto à oportunidade de virem a São Miguel, avança ser uma “necessidade e uma obrigação”, de acordo com os “princípios base” da Companhia, pois “não há como fazer existir um projecto de identidade Açoriana sem o mostrar em casa”- argumenta, explicando vir daí esta “vontade de mover mundos e fundos” para estrear espectáculos nas ilhas, projecto com continuidade em vários caminhos.
A peça, intitulada “Blasted”, tem como tema a “crueldade das relações interpessoais” e reflecte a origem da “explosão da violência”, alertando-nos que a violência gera mais violência. A história fala de um jornalista, uma jovem e um soldado de um exército extremista que “revelam as suas angústias, inseguranças, fraquezas e a incapacidade do homem compreender a humanidade”. Esta decorre num quarto de hotel de luxo que, de uma cena para outra, é semi-destruído pela explosão de uma bomba. Quarto este, onde explodem todas as “misérias humanas”.
Para Nelson Monforte, o teatro de Sarah Kane tem um “ancestral apocalíptico”. O texto apresenta personagens numa situação “limite”, que é descrita pela imaginação “perturbadora” de Sarah Kane, uma das mais importantes escritoras contemporâneas.
Fazendo um balanço da actividade da companhia, o responsável lembra que “o caminho faz-se caminhado” e é o que tem feito o Dragoeiro, desde 2005. Este “com todas as advertências continua a avançar com o sucesso de uma equipa que trabalha por gosto”- acrescenta.
Apesar de todas as peças da companhia terem a sua “medida”, o actor reconhece que a de maior sucesso talvez tenha sido ADOLESCENTES NA HORA H, que “há três anos”, recorda, percorre o país com uma “imensa afluência do público”. E, “enquanto houver publico, há Teatro”.
O Dragoeiro, esclarece, é uma companhia com “várias vertentes, inclusive a pedagógica”, o que lhe permite abordar “vários temas”, conforme o público e o espectáculo. Há, sim, admite, uma “linha coerente” á filosofia da companhia, que utiliza conceitos como “Natureza/Homem/ Progresso”, através de um “jogo” teatral e artístico contemporâneo.
Actualmente, o Dragoeiro tem entre mãos o espectáculo Blasted (Ruínas), de Sarah Kane, que estreia hoje no auditório da Aula Magna da Universidade dos Açores. A encenação ficou a cargo de Nélson Monforte, estando em palco os actores Carolina Bettencourt; Frederico Amaral e Miguel Curiel. O espectáculo poderá ser visto nos dias 27, 28 pelas 22 horas e no dia 29 pelas 17 horas, podendo as reservas ser feitas através do 96 496 91 97.
Questionado sobre o que o levou a trabalhar em teatro, afirma ser uma “boa pergunta”, visto acreditar que “o teatro não se escolhe”. Explica ainda que o teatro não é uma profissão seleccionada, não tem “horário fixo, estabilidade, nem certezas”. O teatro é que escolhe, é uma “atitude e uma forma de estar na vida”. O actor considera ainda o palco um “espaço sagrado”, que como qualquer lugar de “crença é vida nas múltiplas sensações e infindável nas suas vivências”. Para Nelson Monforte, “trabalhar em teatro é ter um amante sem ser infiel”.
Em termos futuros, avança apenas que Blasted é “o filho que vai nascer” e, por enquanto, “crescer”.

Raquel Moreira
Public in Terra Nostra, Junho de 2008.

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