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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Conhecer para proteger!


Projecto Bionatura

Definir quais as espécies mais ameaçadas e invasoras, para que posteriormente as autoridades locais actuem em conformidade, nomeadamente na criação de “legislação” adequada de “protecção e preservação” do meio ambiente da Macaronésia, foram os objectivos do projecto Bionatura, cujo “sucesso”, segundo Frederico Cardigos, permitiu o seu alargamento ao meio “marinho”.


A Secretaria Regional do Ambiente e do Mar promoveu na passada semana as II Jornadas Técnicas do Projecto Bionatura, subordinadas ao tema "Gestão e Conservação da Biodiversidade na Macaronésia". Iniciativa organizada em parceria com a Agência Regional da Energia e Ambiente dos Açores (ARENA), que contou com a presença de Frederico Cardigos, director regional do Ambiente, que apresentou o projecto Bionatura nos Açores.
O projecto em causa reveste-se de grande importância para a Região, uma vez que permitiu o acompanhamento da Rede Natura 2000, o intercâmbio científico, a criação de instrumentos de apoio à decisão e ao planeamento, a valorização dos espaços classificados através da atribuição do Estatuto de Reserva da Biosfera e a determinação das espécies sensíveis.
A iniciativa possibilitou ainda a criação de bases de dados, a centralização e uniformização de informação na área da conservação da natureza e biodiversidade, divulgação, sensibilização e informação à população e promoção internacional dos Açores.
Biodiversidade da Macaronésia, conservação da natureza na Macaronésia, Rede Natura 2000 nos Arquipélagos da Macaronésia e espécies invasoras, foram os temas em destaque nas Jornadas Técnicas do Projecto Bionatura.
Frederico Cardigos, director regional do Ambiente, começa por contar que o sucesso do projecto Bionatura foi tão grande em meio terrestre, que já se encontra concluída a base de dados que permitirá aos Açores, Madeira e Canárias evoluir para o seu “alargamento ao meio marinho”.
O envolvimento conjunto no projecto destes três arquipélagos permitiu fazer a lista das espécies mais “sensíveis” existentes nos três arquipélagos, que serão “prioritariamente alvo de medidas de gestão e defesa” por parte da administração regional, adiantou.
Frederico Cardigos afirmou também que a “conservação marinha constitui uma prioridade” quotidiana nos Açores, sendo as espécies invasoras um problema “fulcral”, cuja resolução exigirá alguns meios financeiros.
A floresta é fundamental para fazer a “gestão da água”, uma questão particularmente importante sobretudo no contexto das alterações climáticas que se vive a nível mundial, considerou.
O director regional do Ambiente declarou, ainda, que, no caso dos Açores, o desenvolvimento do projecto Bionatura não teria sido possível de todo, sem a colaboração da Agência Regional para a Energia e Ambiente (ARENA).
Referiu, igualmente, que a Administração Pública Regional vê o aparecimento das organizações não governamentais como um “sinal extraordinariamente positivo”, em relação ao que é própria saúde da sociedade açoriana.

À margem do evento, Frederico Cardigos, director regional do Ambiente, explica que o projecto tinha como objectivos essenciais “contribuir para diversos temas dentro da conservação da natureza dos Açores”, que ligassem a investigação fundamental à capacidade de decisão da administração pública. “Os objectivos foram atingidos na sua essência e nomeadamente no que diz respeito a temáticas que eram extraordinariamente caras, como o acompanhamento da Rede Natura 2000, a implementação das reservas da biosfera, a determinação das espécies mais sensíveis especificamente em relação aos Açores e inclusivamente como uma ferramenta para o estudo de uma alga invasora marinha, que foi identificada no porto da Horta”- salienta.
Sendo esta uma alga invasora, admite, não são “boas” as consequências que traz ao ambiente, pois trata-se de uma espécie que se reproduz com “muita velocidade e prejudica” de alguma forma o meio ambiente.
Além disso, esta espécie designada de Caulerpa Webbiana “não serve de alimento a qualquer organismo”, acabando por “não” ter consequências positivas para a ecologia trófica da área, e “reduz” obviamente a capacidade de sustentação do ecossistema. Ou seja, os peixes, que nos servem de alimento, do porto da Horta têm menos uma parte de Biodiversidade algal, para se alimentarem, esclarece.
O projecto Bionatura estava precisamente a estudar uma forma de “eliminar” esta alga invasora, o que deverá iniciar-se em breve. A sugestão do Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) e de investigadores de outras nacionalidades que trabalharam em conjunto, revela, é a utilização dos chamados “cobertores de cobre”, elemento que a “inibe fortemente”. A temática é extraordinariamente “complexa”, pois esta alga não pode ser removida “manualmente, nem aspirada, o que aumentaria o seu efeito de propagação”.
Referindo-se à sua palestra, o director explica ter falado sobre as suas “conclusões” do projecto Bionatura. Sim, pois as outras temáticas são também extremamente “importantes” e o acompanhamento da Rede Natura 2000 e da sua implementação nos Açores não têm a ver apenas com o porto da Horta nem com uma espécie, mas com “todos os habitats classificados e com imensas espécies que têm uma sensibilidade extraordinariamente elevada”. O Projecto Bionatura foi o “instrumento financeiro e logístico” deste acompanhamento e resultou depois em “relatórios de monitorização” dos últimos seis anos desta Rede. E possibilitou ainda que as equipas que elaboraram os cadernos de implementação das reservas da biosfera do Corvo e da Graciosa fossem um “sucesso”.
Em relação a estas espécies “especialmente” sensíveis, relata, o Departamento de Ciências Agrárias, liderado por Paulo Borges, encontrou esta metodologia extraordinariamente “engraçada”, que agrega os valores da investigação fundamental. “Foram questionados os investigadores que trabalham sobre as espécies e os gestores e, enquanto uns davam os graus de classificação de acordo com determinadas tipologias sobre cada uma das espécies, a administração tinha que dar o peso de cada um destes graus. Ou seja, arranjaram um método misto para quantificar quais seriam estas espécies mais sensíveis e as listas finais são extraordinariamente engraçadas e úteis, além de consequentes”- esclarece.
Assim, quando a direcção tem de decidir quais as espécies a apoiar, dá “prioridade” às descritas pelo mundo científico, em conjunto com a administração através deste Top 100, como as mais sensíveis.
Em relação à situação da Região em termos de Biodiversidade, o director regional explica que os Açores possuem uma Biodiversidade extraordinariamente “interessante” com um conjunto de espécies endémicas que “urge serem preservadas”. Há espécies que estão em maior risco do que outras, mas basicamente é o que acontece nos outros sítios.
A maior “ameaça” que recai sobre as espécies endémicas dos Açores e pertencentes ao conjunto de organismos naturais da Região, são a seu ver as “alterações climáticas”, factor que lamenta não poderem, “de forma alguma, controlar”. Podem, sim, contribuir para que estas tenham o “mínimo” impacto, mas se as temperaturas variarem, ressalva, “há espécies com certeza que serão prejudicadas e outras beneficiadas”.
“Esperemos que em relação às nossas espécies endémicas, sejamos capazes de reter o impacto das alterações climáticas”- é este o desejo de Frederico Cardigos que avança estar “convencido” que isso acontecerá. “Estamos extraordinariamente atentos e temos uma série de instrumentos para que elas se mantenham, além das parcerias internacionais que colocam as espécies endémicas dos Açores noutros arquipélagos e noutros jardins botânicos a nível mundial”, para garantir que, em caso de “desastre”, estas estão salvaguardadas.
Existem dois tipos de espécies que estão sob ameaça. As que já são realmente “raras”, como a bardilia azórica, conhecida por Marzília, que é uma planta bastante “ameaçada”, parecida com um trevo, é extraordinariamente “sensível” , só existe num determinado ponto da ilha Terceira e é constituída apenas por um indivíduo em termos “genéticos”. Há muito pouco que se possa fazer por esta espécie, lamenta, a não ser proteger o seu habitat, para que este seja não seja “violado” e mantenha as suas características ambientais.
Enquanto esta espécie é rara por natureza, há outras que não o são, mas por factores “humanos” podem de alguma forma ficar em “risco” e, é destas que temos de “cuidar”, de espécies com “interesse comercial”, o que se aplica mais ambiente “marinho”. O Cavaco é uma exemplifica esta situação e foi determinado no Top 100. “Sabemos que esta espécie existe em todo o arquipélago, mas se a intensificação da pesca aumentar sobre a mesma, ela poderá ficar em risco”.
O papel do homem neste cenário é "múltiplo", pois importa “decidir bem” ao consumir. Por isso, o DOP lançou um livro de cerca de 50 páginas, que “descreve quais as espécies marinhas normalmente utilizadas na restauração e quais as que estão em boas condições de exploração”. Aí, explica, quando formos comermos, podemos “optar pelas” que estão em menor risco e pelas “certificadas” ambientalmente.
Na flora, um dos maiores riscos são as plantas “invasoras”. Por isso, muitas vezes procedemos à “remoção” destas espécies, pois existem actividades nesse sentido “organizadas pela administração” e campanhas. Nestas removem-se “canas ou conteira”, que no fundo acabam por incidir realmente nas zonas mais sensíveis e que têm efeitos claros e “imediatos” no património natural da Região.
Claro que depois existem pequenos gestos que contribuem para “amenizar” pelo menos as alterações climáticas, como o optar pelas “energias alternativas, poluir o menos possível e contribuir para que haja menos carbono” dissolvido na atmosfera.
A consequência imediata da invasão da alga Caleurpa Webbiana é a “diminuição” da produtividade”, porque esta alga ocupa o espaço e “inibe” a presença de outras espécies que seriam a base “alimentar” das espécies piscícolas, logo a produtividade diminui.
Um perigo ainda maior é possibilidade real desta se “dissipar” para o restante arquipélago, o que poderia ter consequências “bastante danosas” em relação às espécies que existem nos nossos mares e nas zonas costeiras, pois esta espécie só se distribui entre os cinco e os 25 metros de profundidade.
Referindo-se às maiores dificuldades da Região em termos de ambiente, Frederico Cardigos aponta estarem relacionadas com o “cumprimento das regulamentações” que estão já propostas e impostas. Por exemplo, em termos de gestão de resíduos, salienta, “não é admissível a largada de resíduos em qualquer local e infelizmente em algumas zonas do arquipélago as pessoas continuam as insistir em fazer esse tipo de violações ambientais”.
E também há quem não respeite as áreas mais sensíveis que estão classificadas por diversas razões e tente fazer “investimentos” não coincidentes com o que se pretende fazer a longo prazo, nem com o “legado” que se pretende deixar a filhos e netos.
O director regional salienta ainda que têm optado por utilizar a lista de Top 100, como uma das bases para a decisão na “implementação de medidas de gestão” para as espécies nos Açores. Procedendo-se à monitorização, como aconteceu na Rede Natura 2000,determinam- se quais os habitats em “melhores e piores condições” e a intervenção incide sobre os habitats em “piores” condições, o que, alerta, não poderia ser feito de outra forma.
Segundo Paulo Borges, membro do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores e Coordenador do projecto Bionatura, este teve vários resultados e implicações nos três arquipélagos envolvidos, como a criação uma “listagem completa da Biodiversidade da Macaronésia”, que regista cerca de 3000 espécies registadas nas Canárias, cerca de 7000 na Madeira e cerca de 5000 nos Açores. Ficou-se a saber também quais as espécies endémicas e as exóticas. Além disso, toda esta informação está agora “carregada na base de dados Atlantis geo-referenciada” e disponível nas secretarias de ambiente dos vários governos incluindo os Açores, sendo também utilizada para “gestão de zonas naturais”.
Uma listagem das 100 espécies mais “ameaçadas” da Macaronésia foi outro resultado do projecto Bionatura, que permite “recuperar” estas espécies de cada um dos arquipélagos. Outra novidade neste quadro é o portal da Biodiversidade, que constitui uma “ferramenta importante”, na qual onde o grande público pode pela “primeira vez” aceder a este tipo de informação, antes reservada “apenas” ao mundo científico. “As pessoas podem saber mais sobre as espécies da Região e a sua distribuição nas ilhas, além de poderem aceder a publicações sobre as mesmas”-esclarece, acrescentando que também será publicado o Top 100 das espécies “mais invasoras” da Macaronésia.
“A Caleurpa Webbiana, a conteira, a roca de velha, a hortênsia, o pitosporum e os ratos”, são espécies “invasoras” da Região, que colocam em “perigo” as espécies nativas ou endémicas.
Referindo-se ao perigo de expansão desta alga marinha, o investigador argumenta que “o Governo Regional está atento a este aspecto e a actuar a este nível”.
No evento, Paulo Borges falou sobre a importância de se “conhecer” a Biodiversidade dos Açores, de modo a “educar” as pessoas sobre a sua existência, para que estas possam actuar mais tarde numa vertente de “fiscalização também da actuação de governos e entidades privadas”, que possam colocar em perigo essa Biodiversidade, pois "conhecer para proteger", é fundamental.
“As autoridades dos vários arquipélagos já estão a actuar em muitas áreas importantes e eficazes, na criação de ecotecas, actuando a nível das eco-escolas e a nível de financiamento de investigação da Biodiversidade”- afirma, salientando ser necessário “mais fiscalização, principalmente da actuação das pessoas”. Senão, alerta, “podem ser beneficiados os que prejudicam, enquanto os que fazem mal ao ambiente beneficiam e têm mais lucros nas suas empresas”.
É essencial uma boa fiscalização para haver uma “democracia de competição” entre as empresas pró-ambientais e as que realmente “danificam” o ambiente, pois sendo esta “eficaz” muitos “problemas” se resolvem. Está a ser protegido, o que já está mais ou menos “legislado” (reservas).
“O facto de se trabalhar em conjunto com investigadores de outras universidades está a ter impactos a nível da própria política ambiental do Governo Regional dos Açores”- conclui.


Raquel Moreira

Public in Outubro de 2008.

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